1 INTRODUÇÃO

A história a seguir poderia ter-se passado em qualquer canto do mundo. Seus protagonistas são jovens movidos por desejos e princípios. Por isso, ao falar deles, não penso em nomes. Eles não têm face, traços físicos ou mesmo identidade sexual. Seu idioma é indeterminado. O que aqui importa são apenas seus ideais e as consequências de seus atos.

Pode-se escrever sobre alguém sem conferir-lhe identidade? Ou podem apenas as ideias e vontades dar conta desta? Será mesmo que a cor dos olhos, o tom da pele, o padrão dos pelos, o timbre da voz, os caracteres sexuais são irrelevantes ao discutir a causa que move os agentes? Não vou responder a estas perguntas. Não quero, não posso, não devo. Não preciso. Deixo àqueles sujeitos igualmente indeterminados que me leem a tarefa inglória de respondê-las. O que quero é tão somente narrar, da forma mais breve e imparcial possível, o encadeamento de eventos daquela noite quente e estrelada em que tudo mudou.

2 REVOLUÇÃO

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“Arre! Quando pensamos em Revolução, sempre esquecemos dos pequenos detalhes. O calor. O suor. O sono. A sede”, pensou FG, enquanto esperava seu contato. “Oras, pare de reclamar”, censurou-se meio segundo depois. “Podia ser pior. Se à meia noite o tempo está assim, imagine esse terreno descampado ao meio dia! E imagine as pessoas que vivem como prisioneiras neste lugar. Não reclame da própria sorte!” Estava tudo muito escuro, e só percebeu uma silhueta à sua frente quando a mesma já estava a dez metros de distância. Se fosse o inimigo armado, teria visibilidade e tempo o bastante para derrubar FG antes de ser visto. Mas não era um inimigo, era LR.

– Acabei de falar com nossos infiltrados. Está tudo em ordem, podemos seguir com a ação.

FG sorriu triunfante. Finalmente, o momento pelo qual esperara por tantos anos. Disparou o sinalizador que podia ser visto de norte a sul daquela terra desolada. O assalto começara. Os insurretos desembainharam suas armas e avançaram, sem gritos, sem pressa, para não alarmar os inimigos. Derrubaram as cercas de arame eletrificado que fora desligado apenas três minutos antes pelo grupo de sabotagem. A maioria das cativas dormia. Outras estavam alheias. Algumas se assustavam e gritavam.

– Calma, amigas. Viemos libertá-las, não vamos lhes fazer mal – dizia VS, enquanto inspecionava o terreno. Cinco grandes caminhões estavam de prontidão para resgatar as primeiras vítimas.

Enquanto isso, outra comitiva dirigia-se para o galpão onde os bebês eram encerrados antes de serem executados. Um terceiro conjunto, mais avançado, cuidava de tomar o prédio principal. As comunicações foram desligadas para prevenir o pedido de reforços. Agora, deviam cuidar de desarmar a guarda privada. Seguiam em grupos de cinco pelos corredores e andares do prédio. FG estava em um dos pelotões avançados. Foi a primeira pessoa a avistar e reconhecer, na escuridão, o uniforme inimigo. Assustou-se. Não teve tempo de reagir. Dispararam em sua direção, e sangue, fragmentos de ossos e massa encefálica voaram por todos os lados. Rapidamente o atirador foi cercado.

Aquele não foi o único assalto da noite. Em diferentes localidades, campos de escravos, de extermínio e de tortura foram tomados. As vítimas eram levadas para abrigos secretos onde seus algozes não poderiam encontrá-las. Depois da limpeza dos prédios, era importante tomar documentos que seriam publicados, como provas dos crimes cometidos naqueles lugares macabros. Destruir o máximo de propriedade, para que eles se tornassem inoperáveis. Alguns prédios foram detonados com sucesso, outros se tornaram cemitérios de mobília e instrumentos despedaçados. Alguns ataques foram mal sucedidos, graças ao bom número e treinamento das guardas privadas, ou do apoio obtido junto às forças de repressão. A luta apenas começara. Esperavam que suas ações de resgate e sabotagem conscientizassem ao máximo o público, e atordoassem e imobilizassem o suficiente a classe exploradora, para que os revolucionários pudessem partir para a segunda fase do plano em vantagem estratégica e ideológica, compensando a perda do elemento surpresa.

O país acordou em chamas. Não graças aos rebeldes, mas sim devido à fúria do regime. As forças armadas foram convocadas a manter a paz e controlar aqueles que ousaram erguer-se contra a ordem democrática.

Um grupo de ativistas havia se juntado para redigir um Manifesto à população. Contatos com figuras importantes na política e na imprensa foram estabelecidos. Representantes eleitos comprometeram-se a divulgar o Manifesto, assim como uma destacada pessoa do mais famoso veículo de imprensa do país. Alguns deles conheciam pessoalmente, ou mesmo detinham laços de parentesco com insurgentes. Professores e pesquisadores das universidades estavam entre as figuras influentes da face legal do movimento. Todos estes dividiram-se em dois grupos. O primeiro, muito mais numeroso, calou-se sob as ameaças ou o aliciamento do Estado. O segundo, pequeno, foi rapidamente posto na ilegalidade. Publicar qualquer texto em defesa dos rebeldes, ou dos ideais que eles portavam, era incitação ao crime e à subversão da ordem social.

Era grande a esperança de que a liderança no poder ao menos abrisse canais de diálogo com os revoltosos. Entendia-se que o país passava por mudanças políticas, que democratizava-se, que não era mais, como outrora, controlado pelos exploradores. Surpreenderam-se quando o governo correu ao apoio dos mesmos, e retirou do ostracismo leis de cunho autoritário, que mesmo os movimentos e indivíduos mais engajados da sociedade nunca se ocuparam em tentar derrubar, por supor que eram obsoletas e que os tempos de paz nunca mais seriam perturbados. Eram os mesmos movimentos e indivíduos que nunca se ocuparam em estudar profundamente as contas do governo – quem os financiava, e quem se beneficiava de seus recursos. Acreditaram na verdade oficial do discurso, e não na verdade dos fatos. Este fora seu erro fatal. Agora, não apenas os insurretos, mas qualquer pessoa insatisfeita estava exposta à retaliação do Estado – àquela violência que, por ser legal, era também, tecnicamente, legítima. Sobretudo com os direitos de defesa cerceados pela legislação ressuscitada de tempos obscuros…

– É importante termos em mente que o governo não está errado. As classes proprietárias não estão erradas. Os investidores que aplicam recursos naqueles centros de tortura e extermínio não estão errados. O que é crime? Crime é que o proíbe a lei! O que é a ordem social? É o sistema que preserva os interesses dominantes da sociedade. Dominantes por serem daqueles que detêm força, poder e meios para se impor, convencer a maioria de que tais interesses são de todos. Mas o que a lei permite nem sempre é ético! A ordem social nem sempre é justa! Elas se impõem, em geral, à expensa daqueles que são explorados e oprimidos, os mais fracos, os sem voz, sem poder. Violar a lei e incitar a subversão da ordem social sempre foi a tarefa e o dever daqueles que não admitem a injustiça, a opressão, a escravidão, para si ou para os outros. Sempre sob graves ameaças e consequências. Só assim a história muda. Há valores que sempre irão pairar acima da lei e da ordem: a justiça, a liberdade, a igualdade – escreveu AF, num famoso artigo, que lhe valeu uma ordem de prisão preventiva no dia seguinte à sua publicação, duas semanas depois dos eventos.

TM, ocupante do mais alto cargo político do país, fez um discurso público na capital, alardeado com fulgor pelos maiores meios de comunicação. Num dos trechos, lia-se:

– Estes rebeldes são terroristas! Eles não detêm uma proposta concreta, não são a favor de nada! Seu único traço comum é a negação! Nada se constrói da negação, a não ser o ódio! Eles não respeitam o regime democrático que levamos tantas gerações para construir! Meus cidadãos e cidadãs: às vezes, para defender a liberdade, grandes sacrifícios são necessários. Este é um destes momentos! Não podemos retroceder diante da injúria, da infâmia, da intolerância, da intimidação pela força! Vamos defender nosso país desta ameaça iminente, para que possamos voltar a viver em paz e prosperidade! Eu confio em vocês! De minha parte, eu garanto: meu governo vai defender suas vidas com empenho e amor, da mesma forma que vocês sempre se empenharam para construir este país que tanto amamos! Diante desta ameaça fatal, nossas diferenças são irrelevantes. Somos todos concidadãos defendendo uma pátria pacífica, livre e democrática, sem violência!

O exército, a polícia e os agentes de inteligência rapidamente mobilizaram-se para desbaratar a quadrilha de criminosos subversivos. Localizaram e tomaram quase todos os refúgios e fortificações inimigas. Poucos confrontos foram registrados. Os insurgentes, conduzidos ao cárcere; os escravos, devolvidos aos seus donos.

3 OS PROCESSOS CONTRATERRORISTAS

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Os julgamentos não ganharam destaque na imprensa. Apenas algumas intervenções indignadas da acusação foram publicadas. Mas, evitando que o regime assumisse claro caráter de exceção, o governo não proibiu o acesso público às Cortes. Apenas dificultou, sobretudo por meio do silêncio e desinformação, o conhecimento do que se passou nos tribunais.

Eu era então estudante de direito. Fui uma das poucas pessoas que testemunhou os Processos Contraterroristas, como os jornais os apelidaram. Eu não conhecia os insurretos. Eu os odiava. Eles eram aqueles que perturbavam a paz, ameaçavam meus sonhos de juventude e queriam tomar de mim, e de todos os jovens amantes da ordem, suas fantasias de uma vida plena de amor, liberdade e quietude, e a fruição tranquila de seus bens, conforme garantido em lei. Eram aqueles que questionavam a hierarquia natural das coisas, da qual nossa própria vida dependia.

Eu tomei notas do que vi, e algo começou a mudar na minha mente. Somente hoje, ao transcrever parte dessas memórias, eu posso dizer que compreendo aquilo que ouvi. Não espero convencer o leitor de quem está certo ou errado. Eu só espero que os rebeldes sejam julgados pelo que eram, não pela forma que se encontrou para desmoralizá-los. Quando confrontaram NI pelos seus crimes de terrorismo, a resposta dada foi:

– Nós somos terroristas? O sistema mata e tortura vinte e quatro horas por dia! Suas vítimas são jovens que, como nós, anseiam pela vida, sonham com a liberdade! Muitos, a maioria na verdade, são apenas crianças, bebês! Os líderes deste país são assassinos em massa, infanticidas! Tentam nos convencer de que isto é normal, aceitável, inevitável. Que é para o bem maior, ou para prevenir um mal maior… Isso sim é terrorismo! E, ao mesmo tempo, escondem do público fatos simples que poriam em xeque tais alegações. Por que não se tem acesso às prisões? Por que não se divulga os métodos de tortura e sua finalidade? Por que as promessas feitas nunca são entregues? Por que aqueles que questionaram a finalidade, a eficiência e a moralidade destas práticas nunca foram ouvidos? Não! Isto não é justo, nem sequer necessário! Nós, os revolucionários, vivemos por muitos anos boicotando estas práticas! Sobrevivemos. Há um momento em que temos que escolher entre o conforto e a justiça! Preferimos ter uma vida menos confortável, se nosso aconchego depender da morte e exploração de outros seres, nossos semelhantes. E que esse desconforto e senso de justiça sirvam de impulso ao progresso moral e material da humanidade – como sempre foi!

A MN perguntaram como era possível que alguém pusesse os interesses de seres inferiores acima dos interesses humanos. Disseram que ao tratar os animais como humanos, logo estariam tratando os humanos como animais.

– Que interesses? Uma aparência mais bonita, uma refeição mais saborosa? Cinco anos a mais de vida? Vinte anos a mais de vida? A vida eterna??? Quais destes interesses prevalecem sobre a vida alheia? Poderia eu matar todos aqui presentes, se isto valesse minha liberdade, se meus companheiros desejassem me resgatar desta farsa? E ainda assim eu diria: neste caso, nenhum de vocês é inocente, pois me aprisionam injustamente! E assim como eu, também aqueles animais nas fazendas, granjas, nos laboratórios que foram atacados naquela noite eram inocentes! Eles não são inferiores a nós, eles têm vida, têm consciência, têm sentimentos. Eles sofrem, eles fruem. Não temos o direito de roubar-lhes a liberdade e a vida, pois elas não nos pertencem por princípio! Não podemos fazê-lo simplesmente pelo gosto do paladar, nem mesmo para testar um remédio para a cura de qualquer doença.

A resposta de MN foi considerada, nas discussões jurídicas, como imprudente e mal fundamentada. Ela contribuiu para sua condenação com uma pena pesada, e serviu de instrumento para encurralar outros réus.

A BK acusaram de assassinato. Disseram que as pesquisas destruídas nos laboratórios que seu grupo invadiu custariam a vida de crianças, idosos, portadores de doenças graves. Eis a resposta:

– Assassinato, o que? A exposição da mentira escondida em promessas vãs de salvação? Destruição de propriedade, inclusive a destruição da escravidão, no ato de libertação dos escravos? Ou o arrasamento do sacrossanto lucro, sobreposto aos inadmissíveis prejuízos impostos pela sabotagem aos opressores? Foi nosso senso de justiça que nos fez agir. Não é nosso direito roubar a vida de um para salvar a de outro, ou de cem, ou de um milhão. Nem sequer da humanidade inteira! Não quando aqueles que matamos não são responsáveis por essas vidas, não as põem em perigo, têm os mesmos interesses fundamentais que nós – e, consequentemente, os mesmos direitos! O desafio do especismo, da sangrenta presunção que sustenta nossas sociedades! Este é o “crime” que nós confessamos, com orgulho! Não houve violência na demolição de prédios, inutilização de mobília e instrumentos, posto que não pode existir violência quando não há vida. Quantas mortes ocorreram na noite dos assaltos? Nós todos treinamos com afinco para não usar da violência contra a vida. Infelizmente algumas pessoas perderam a cabeça, outras foram descuidadas, e em poucas instâncias apenas nos defendemos. Nós éramos em número muito superior às forças de segurança, graças ao nosso planejamento cuidadoso. E, no entanto, dentre os mortos daquele dia, nós fomos superados em uma proporção de vinte para um! Aqueles que nós matamos, foi em legítima defesa, imperícia ou acidentes infelizes. Os guardiões de escravos, porém, devem estar prontos a assumir esse risco se quiserem manter seus empregos. Guardar o fruto da injustiça jamais deve ser considerado uma atividade segura. Da mesma forma, as forças de repressão do Estado mataram muitos de nós quando vieram recuperar seus cativos. E depois disso seguem legitimando e regulamentando a tortura e o extermínio em massa. E quanto às crianças esperando por tratamento… Este sistema apenas lhes entrega falsas promessas, em detrimento dos inocentes. Ele também é responsável por isso. E nós somos os assassinos??? Vacas mantidas como prisioneiras e escravas; seus filhos mantidos em solitárias; as porcas prisioneiras em baias imundas; galinhas prisioneiras em gaiolas empilhadas; ratos, coelhos e cães de laboratório, torturados até a morte; bebês de diversas espécies mortos, triturados, descartados. O Estado e os Escravocratas são infanticidas, mesmo assim não são assassinos, nem terroristas! Porque é o Estado que define o que é vida e terror, não segundo a verdade, mas sim a conveniência! E nós? Os defensores dos direitos animais são os únicos terroristas que, quando agem, salvam vidas, em vez de matar! E o que define o Estado é sua licença para matar e aprisionar em nome da paz, da liberdade e da própria vida! Nós não admitimos essa inversão de valores que avilta a razão e a consciência humana. O sistema em que vivemos se diz humanista, mas é a negação da própria humanidade.

BK recebeu outra pena altíssima. Suas palavras, embora nunca publicadas na íntegra, como agora faço, ecoaram como exemplo da natureza intrinsecamente violenta, misantrópica e autoritária dos movimentos de direitos animais.

4 CONCLUSÃO

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Vinte anos depois, enquanto a população humana daquele país cresceu cerca de vinte por cento, o rebanho de animais quase dobrou. As fazendas de criação extensiva deram, quase todas, lugar a fazendas industriais, muito mais eficientes, o que propiciou esse crescimento gigantesco. Não existem dados oficiais sobre os animais de laboratório, guardados dos olhos públicos por prudência e pudor. Quase todos os humanos sobreviventes da ação estão já fora da cadeia. Apenas alguns cuidadosamente apontados como líderes e instigadores ainda esperam a expiação de seus crimes, na forma da lei. Os ex-insurretos seguiram diferentes rumos, como é de se esperar de indivíduos autônomos. Uns se tornaram celebridades, outros permanecem anônimos. Uns abandonaram a causa, outros se dedicam a ela de diferentes formas: pela política, pelas palavras, nas ruas, ou na clandestinidade. Nenhuma ação comparável àquela aqui narrada jamais se repetiu, entretanto. A ação repressiva do sistema foi pronta, exemplar e eficaz.

“Mas como tudo mudou”, podem me perguntar, “se tudo continua exatamente como era antes?” A resposta é que, para todas as vidas perdidas e salvas naquela noite, e nos eventos subsequentes, tudo mudou. E quando uma única vida é transformada, o mundo muda para sempre.

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Créditos das fotografias

Foto 1: La Prise de la Bastille, pintura de Jean-Pierre-Louis-Laurent Houël retratando a tomada da Fortaleza da Bastilha, em 14 de julho de 1789, marco do início da Revolução Francesa.

Foto 2: Um dos tribunais encenados que marcaram os Grandes Expurgos (1937-8) do período stalinista, na União Soviética.
Fonte: http://ithielehistory12.weebly.com/show-trials-and-the-great-purges.html

Foto 3: Autoria de  Animal Rights on the Farm.
Fonte: http://www.indybay.org/newsitems/2006/05/15/18234331.php

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