Os heróis haviam chegado, para desespero do pequeno Krohli. Ele já tinha ouvido falar dessas criaturas antes. Eram relativamente pequenas, mas poderosas e perigosas. Famosas por sua ganância, sede de matança e crueldade. E se espalhavam como praga pelo mundo.

Sua mãe procurava confortá-lo:

– Não fique assim, querido. Seu pai vai dar um jeito neles.

A irmã era mais audaciosa:

– A gente não pode deixar o papai lá sozinho com eles! Se vocês não forem, vou lá eu arrebentar com eles!

Ilustração em nanquim com a família dragão
Nanquim por Maurício Kanno – abril de 2012

O combate estava feroz. O dragão era forte e bem grande, cerca de quatro vezes a altura daquelas pequenas criaturas – sem falar no comprimento e na envergadura das asas. Mas os recém-chegados possuíam habilidades que faziam deles realmente temíveis. O quarteto já estava chamuscado com a primeira baforada de fogo do réptil voador, mas resistia, com escudo encantado, armaduras e feitiços. Dois dos aventureiros nem precisavam se aproximar muito para lançar seus dolorosos ataques ao preocupado pai, agora extremamente exausto com o esforço ígneo despendido.

Haragoth não se conformava que esses pequenos invasores tivessem descoberto seu lar. Ele fazia de tudo para manter sua família a salvo. Mas era de se esperar, no fundo, que essa peste humana acabasse por descobri-los. Era difícil, com seu tamanho, ser discreto o suficiente.

Na realidade, o veterano dragão não sabia nem mais por quanto tempo sua espécie iria perdurar. Já eram poucos. Estava difícil de encontrar outros indivíduos isolados, quanto mais pequenos grupos, famílias ou comunidades. Assim mesmo, ele faria de tudo para proteger sua prole, assim como sua preciosa fêmea.

O escamoso gigante urrou com mais um ataque do humano lançador de setas. Elas não deviam ser normais. A armadura de sua pele rebateria tranquilamente esses gravetos. Mas essas deviam ser amaldiçoadas de algum modo. E ser de outro material.

“Pare de pensar na vida, Haragoth”, recriminou-se ele, aflito com o projétil que quase atingiu seu coração. “Concentre-se na luta. Neste momento, é a única coisa que importa!”

Ao longe, no fundo da caverna e perto da família acuada, brilhava o ouro que brotava naturalmente em “jardins” próximos às mágicas criaturas reptilianas. Isso atiçava ainda mais os invasores, que ao menos não podiam ainda ver o restante da família, protegida pela escuridão da área da caverna onde se encontrava.

Caçar dragões era extremamente lucrativo, não somente pelo ouro que se encontrava em suas tocas, como também pela venda das diversas partes de seus corpos. Unha de dragão, escama de dragão, dente de dragão, olho de dragão – apesar de perecível. Tudo isso tinha um valor bastante alto, pelas propriedades místicas associadas a essas peças. Diversos artefatos e poções eram produzidos a partir de cada pedaço.

Para justificar suas caçadas, espalharam-se lendas de que os dragões haviam destruído muitas cidades humanas. Que adoravam roubar fortunas e pedras preciosas das cidades. E ainda por cima sequestrariam e devorariam jovens fêmeas humanas, por simples crueldade. Como se os dragões tivessem qualquer interesse em tesouros humanos… ou em suas mulheres. Será que ninguém desconfiava que eram “embaixadores” humanos mal-intencionados que inventavam essas histórias, para enriquecer e satisfazer sua luxúria à custa da tolice alheia?

Não que não houvesse dragões que buscassem fazer bom uso dessa fama. Alguns eram a favor de se botar medo nos humanos, para que estes parassem de incomodar a comunidade draconiana. Então, algumas revoadas sobre cidades humanas e destruições de suas habitações e outras propriedades seriam justificáveis. Outros argumentavam que isso só traria ainda mais ódio dos pequenos homens, além de dar pretextos para alimentar sua sede de caçadas.

De fato, o temor que muitas populações humanas tinham dos dragões frequentemente era garantia de tranquilidade e isolamento para os mágicos répteis voadores… ao menos em relação à maioria dos humanos, que não eram tão perigosos e se dedicavam a atividades mais pacíficas, como agricultores e artesãos. Mas esse temor também era uma irônica forma de combustível dos grupos de aventureiros que se proliferavam pela Terra. Significava desafio para eles. Esse gênero de humanos parecia adorar o risco. Quanto maior fosse o risco enfrentado, mais experiência bélica ganhariam. E mais poderosos se tornariam.

* * *

A mãe dragoa precisava se esforçar para conter a filha, que bufava com pequenas labaredas escapando de sua boca e focinho chamegando.

– Nisha, menina, não vai, por favor! Papai vai dar um jeito na situação! – dizia a mãe, colocando o próprio corpo como barreira.

– Mãe, você não tá vendo que esses monstrinhos horríveis estão machucando o papai? Eu nunca vou me perdoar se alguma coisa de grave acontecer com ele! – respondia a filhote.

O filhote macho apenas tremia. E, de olhos fechados, às vezes os abrindo para dar uma medrosa espiada, escondia-se junto às asas da mãe.

A aflita senhora também se preocupava com o veterano esposo, rugindo mais à frente para seus atacantes. Mas como deixar seus filhotes sozinhos? E se algum dos humanos conseguisse passar por Haragoth e fizesse algo terrível com um de seus pequenos?

Nanquim com close no dragão maior enfrentando os aventureiros humanos
Close na cena do dragão pai enfrentando os aventureiros 

Era difícil para o grande dragão enxergar os invasores. Algo lançado pelo aparentemente mais fraco deles nublou sua visão.

Enquanto isso, o líder, com uma larga espada na mão, aproveitou para avançar e desferiu um forte golpe na pata dianteira esquerda do pai dragão.

Simultaneamente, o menor dos humanos, com uma longa barba, atacou pesadamente com um machado de dois gumes a outra pata dianteira.

A situação era preocupante, as patas draconianas sangravam com os cortes do metal. Esses guerreiros e suas armas eram sem dúvida incomuns. O corpo de dragão não se feria ante ataques de humanos ordinários. Mas humanos ordinários também não ousariam invadir um lar de dragão.

Haragoth recuou as patas para protegê-las e, ao mesmo tempo, instintivamente girou o corpo com seu poderoso rabo como arma, que avançou quase na altura do chão. O resultado foi apreciável. Os dois atacantes foram lançados para uma das paredes, derrubados, ao menos temporariamente.

No entanto, mais setas feriram a criatura, atiradas pelo esguio moço de armadura de couro leve. Agora até mesmo o dorso e a asa esquerda do dragão estavam pontilhados pelas fulminantes e doloridas flechas.

Em nova resposta, voltando a cabeça novamente aos oponentes, o dragão cobriu a passagem com uma vasta e exaustiva baforada de fogo, que esperava desta vez dar cabo tanto dos humanos mais próximos como dos mais distantes. Apesar de a ação ter sido repentina, no entanto, o líder teve tempo de usar seu grande escudo para proteger a si e ao baixo e atarracado colega. Quanto ao arqueiro, de algum modo misterioso, ele simplesmente sumiu.

A atenção em seguida foi para o supostamente fraco humano, de sinistros olhos, que segurava um cajado e se cobria com um manto escuro. Protegido estrategicamente atrás de uma pedra um pouco maior que seu corpo, era como se ele fosse uma tempestade, envolto por raios que saíam aleatoriamente de seu instrumento e da translúcida esfera luminosa que o envolvia. Dele partiu um relâmpago que atingiu em cheio a cabeça do dragão, cujo choque fez o imenso corpo todo se convulsionar e sacudir as asas, batendo-as contra o teto da caverna.

Haragoth tombava.

* * *

A pequena Nisha enlouqueceu ao ver seu pai caído. A mãe, desesperada e também enraivecida, não pôde mais contê-la. A dragoazinha voou esquivando-se do grande corpo da mãe, por trás dela, e arremeteu-se na direção dos invasores.

Os conquistadores comemoravam, rindo de seu feito, diante do dragão caído. Trocavam orgulhosas palavras de escárnio. Mas a gigante criatura ainda respirava, apesar de com dificuldade. E tentava inutilmente se mover. O líder guerreiro percebeu que era o momento de cravar sua espada no coração de seu oponente, aproveitando que o peito ficara exposto. Avançou rápido sorrindo, segurando com as duas mãos a arma apontada para a fera.

Mas o guerreiro é apanhado por uma bola de fogo que o queima dolorosamente. Sem a proteção do escudo, e sem estar vigilante para o ataque repentino, solta sua larga espada e se contorce, rolando pelo chão.

A menina dragoa, apesar de quase sem fôlego, comemorou seu primeiro resultado – “Yes! Isso!!” E seguiu avançando rumo ao homem de manto que havia derrubado seu pai. O feiticeiro parecia surpreso, confuso ao tentar realizar mais movimentos arcanos. Ela precisava aproveitar a oportunidade. Estava sobrevoando bem perto dele, quase dando o bote com suas garras.

Não foi possível. O musculoso anão, com um salto incomum para seu tamanho e um movimento giratório lateral, defendeu o mago com o machado, batendo de modo terrível na cabeça de Nisha e interrompendo bruscamente seu movimento. Ainda que o impacto tenha sido com o lado não cortante do machado, o guerreiro de baixa estatura era fortíssimo.

A dragoazinha urrou de dor e caiu.

* * *

Imediatamente, outro urro foi ouvido, um rugido verdadeiramente de arrepiar a espinha de qualquer um. Mas não houve tempo para nenhum dos aventureiros olharem de onde vinha o som. A geradora do ruído chegara a eles antes. Dentes, garras, rabo, tremer de chão.

O anão foi abocanhado e sangrou em quase todas as partes do corpo na boca da mãe dragão, mas sua armadura o protegeu de ter o pulmão perfurado e a coluna quebrada. A garra dianteira direita da dragoa acertou o mago em cheio, que só teve tempo de amortecer o golpe com um fino escudo místico avermelhado e flutuante que o envolveu. Mesmo assim, a barreira foi estilhaçada e o barbudo humano foi arremessado brutalmente para uma parede. O poderoso guerreiro, apesar de queimado, se recuperava do fogo no chão e foi atingido pelo rápido e grosso rabo da nova oponente, com isso indo parar com estrondo na parede oposta ao mago.

Uma saraivada de flechas metálicas amaldiçoadas no olho, na boca, no pescoço e no crânio dá fim à fúria vingativa da gigante reptiliana. O esguio autor dos disparos, numa gruta oculta, alta e distante, abaixa seu arco, satisfeito com sua estratégia. Acabou. E ele estava ileso.

* * *

O sobrevivente olhou em volta e notou que seus colegas de batalha não se moviam. “Parece que vou ficar rico sozinho. Que pena… Não poderei compartilhar o ouro com eles.” Com um muxoxo lamentoso irônico, observou o brilho dourado, que reluzia do outro lado da caverna. E sorriu.

O arqueiro desfilou pelo meio do vasto salão de pedra na direção do ouro, ansioso para inspecioná-lo. Lá perto, encontrava-se, ainda oculto, o dragãozinho Krohli, em área mais escura. O esguio invasor sobrevivente, com seus sentidos aguçados, primeiro ouve, depois avista o pequeno dragão no canto dele. Prepara seu arco para terminar o serviço.

Mas o atacante nota outro som atrás, e se vira rápido, apontando o arco nessa direção. Era o anão, que mancava até o arqueiro. Aliviado por ser ao menos um colega que se levantava, o delgado cabeludo volta a apontar o arco para Krohli, que apenas tremia de medo, ainda encolhido no seu canto.

– Hey! Espera aí! O que você tá fazendo? – grita o anão, interrompendo o atirador.

Enraivecido, o arqueiro responde:

– Que saco! Não atrapalha, baixote! Tô só terminando o serviço, tem mais um monstro aqui. É menor, mas deve ser perigoso. Tá na minha mira.

– Espera! Que bicho é esse aí, caramba? – retruca o atarracado guerreiro, fazendo o esguio cabeludo abaixar o arco e olhar para trás. O anão já estava perto.

– Não enche o saco! – concluiu o cabeludo atirador.

Quando a flecha estava a ponto de partir rumo ao coração do filhote de dragão, o arqueiro leva uma dura pancada na lateral direita do corpo, acima do quadril, que o derruba para o outro lado.

– Você tá louco, seu idiota? – protesta o aventureiro caído, perplexo e sem acreditar no que tinha acontecido.

– Louco é você, maldição! Você ia matar mesmo um filhote??? – responde o atarracado guerreiro. – Sai daqui, criatura! – gritou ao pequeno dragão. – Vai, sai! Sai logo! Vai embora!

Krohli correu, com suas asas desajeitadas balançando, até passar a voar, hesitante, rumo ao caminho por onde entraram os algozes de sua família.

* * *

Do outro lado, levantava-se devagar o líder guerreiro. A dragoazinha Nisha, com o olhar furioso, rugia baixo. Seu focinho recomeçava a fumegar, preparando outra baforada. Seus pais não se moviam.

Cambaleante, o alto humano de armadura pegou a espada do chão, pronto para se vingar da vergonha das queimaduras provocadas por um ser “tão pequeno para feri-lo”. Apesar de a filhote também ser aproximadamente do tamanho dele, de quase 2 metros de altura.

No momento em que a mocinha réptil se preparava para atacar, enquanto o guerreiro recuperava cauteloso seu escudo, de espada em punho, foi agarrada pelo dorso e suspensa para o alto e em direção à passagem para fora da caverna. Seu irmão, tenso, com lágrimas banhando o rosto e de coração apertado e despedaçado, a levava pela boca.

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