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É incrível como a vida sempre fica mais interessante quando você precisa de dinheiro rápido e não se importa de que buraco ele vem.

Eu estava em Los Angeles tentando… Sei lá, me divertir um pouco enquanto a dona morte não sorria para mim. Não que eu admitisse isso na época, claro. Se você me parasse na rua e perguntasse o que eu queria fazer da minha vida… Eu provavelmente te chamaria de maluco e te empurraria para longe. Mas eu tinha sonhos, cara. Queria virar uma cantora/atriz, ganhar milhões de dólares, brilhar… Até lá, claro, eu era só mais uma latina se virando em terras gringas.

Estava lá já havia quatro anos, desde que meu apartamento no Brasil tinha sido incendiado porque um carinha tentou matar os tios para pegar a herança deles… Foi uma experiência transcendental, sabe? Uma coisa é ter todas as suas coisas reduzidas a cinzas por causa de um acidente. Outra, bem diferente, é perder tudo porque um palerma tentou imitar o filme “O Homem que Copiava” para ganhar o dinheiro. Sério, isso mudou minha visão de mundo.

Ao contrário do capitão incompetência, eu não tinha um seguro ou uma poupança grande o bastante para recomeçar. Minhas opções eram voltar com o rabo entre as pernas para a casa dos meus pais ou chutar o balde e tentar realizar meu sonho de infância de virar uma estrela.

Eu nem me dei ao trabalho de avisar minha família antes de partir.

Los Angeles me recebeu com todo o carinho que eu esperava: após quatro anos morando lá, ainda não tinha conseguido um trabalho decente no show business. Mas não estava pessimista, não senhor. Eu sabia que era apenas uma questão de tempo até chegar ao estrelato. Não que eu acreditasse em destino. Ou meritocracia, contatos, sorte ou qualquer outra dessas baboseiras que o povo usa para justificar o fato de suas vidas serem de um jeito e não de outro. É como uma moeda.

Jogue uma moeda para cima por um número suficiente de vezes e algum dia você a verá cair em pé um milhão de vezes seguidas. Sério, é apenas uma questão de tempo.

Claro, enquanto minha oportunidade de ouro não chegava, eu tinha que me virar para sobreviver. Já trabalhei como garçonete, babá, faxineira, palhaça, estátua-viva… Mas, de todos os bicos, havia um pelo qual eu tinha um carinho especial: um emprego calmo, simples e bem pago para o qual eu me inscrevia sempre que apareciam vagas.

Estou falando, claro, de trabalhar como cobaia de laboratório.

É bem simples. Você se inscreve em um programa, passa alguns dias em um hospital tomando remédios para que os médicos vejam se eles são seguros, e depois te pagam uma bolada de dinheiro por não ter feito nada. Geralmente, a coisa é bem segura. Nos Estados Unidos, pelo menos. Deus te ajude se você for pego para trabalhar como cobaia na Índia ou na China.

Aquele experimento, em particular, prometia ser bastante interessante. Esse cara – o doutor Candle – queria provar que a concepção ocidental de tempo era uma das grandes fontes de estresse do mundo moderno. Para tanto, ele queria isolar algumas almas e servir a elas chás de cogumelos que iriam mexer com as partes do sistema nervoso responsáveis pela percepção do tempo. Para a sorte do bom doutor, havia uma fundação disposta a financiar isso, e um bando de gente como eu disposta a ganhar dinheiro fácil.

O experimento aconteceu em um pequeno hospital do interior que estava precisando de dinheiro para uma expansão. Para um hospital, o ambiente era bem confortável. Tinha muita gente interessante lá. Já na primeira tarde fiz amizade com Daniel, um estudante de fisioterapia que estava lá para juntar dinheiro para a faculdade e a irmã doente. Cada um tinha seu quarto, e acesso a uma biblioteca de livros, filmes e jogos.  Nos serviam três refeições por dia, e as enfermeiras nos visitavam constantemente para coletar amostras e checar nosso bem-estar. Estávamos proibidos de ter contato com o mundo exterior, de fazer arruaça, ou de ter namoricos. Em compensação, podíamos abandonar o lugar a qualquer hora.

No primeiro dia, o doutor deu uma pequena palestra sobre como a operação iria proceder. Foi bem tranquilo. Não pense que ele era  um cientista carrancudo de desenho animado, pense mais em uma versão humana do papai Smurf.

O experimento, ele explicou, iria durar quatro dias, e cada um de nós receberia dois mil dólares ao fim dele. Ia ser bem simples, na verdade. O primeiro dia seria apenas para nos acomodarmos ao ambiente. No segundo, iríamos receber um chá que iria alterar nossa percepção do passado. No dia seguinte, um que mexeria com nossa percepção do futuro e, por fim, no quarto dia, um que iria alterar radicalmente – na verdade, anular – nossa percepção do presente. Então o professor daria nossos cheques e um resultado preliminar das suas observações e estaríamos livres para voltar às nossas casas. Ou quarto de hotel, no meu caso.

O único porém é que havia um ar de dúvida sobre os efeitos do chá, pois eles não haviam sido testados em animais – o professor considerava esse tipo de tratamento como antiético. Sabíamos que elas não eram venenosas, mas os efeitos colaterais e psicológicos daquelas substâncias eram uma grande incógnita.

Bem, não estavam me pagando quinhentos dólares por dia a troco de nada.

No segundo dia, depois do café, as enfermeiras nos trouxeram o primeiro chá, que visava fazer nossos neurônios pensarem que o passado não existia. Alguns, claro, iam receber um placebo. Foi o meu caso. Mas tive a oportunidade de ver o que aconteceu com os outros pacientes. Saí do meu quarto, e muitos colegas estirados no chão, ou com cara de tédio. Ouvi alguém reclamar para um enfermeiro que ele estava dominado por vazio esmagador. Alguns, todavia, simplesmente começaram a se portar de forma infantil. Um grupo de cobaias, em particular, se apoderou da televisão e assistiu a desenhos pelo resto do dia. Poucas horas depois, após o efeito inicial ter passado, descobrimos que o chá tinha sim um efeito colateral: ele era um laxante poderoso.

No terceiro dia, nos deram um chá que nos faria pensar que não havia futuro nenhum. Foi muito engraçado. Mais uma vez tomei um placebo, mas dessa vez Daniel não deu sorte. Sério, o cara parecia ter tomado um tranquilizante. Ele chegou a murmurar que estava no nirvana. E essa foi a reação geral. Ganhamos um bando de budas babões. Um grupo acabou vendo desenhos a tarde inteira de novo. Eu me estourei de rir, ainda mais quando vi Daniel sair correndo para o banheiro assim que o efeito do chá passou. Mas ninguém ficou tão feliz quanto o doutor – pelo visto, não só a concepção moderna de tempo estava gerando miséria a troco de nada, como ele finalmente ia parar de ser alvo de piadas dos colegas.

Quanto ao quarto dia… Bem, ninguém assistiu televisão naquele dia.

A manhã começou com um clima de despedida. Eu relutei em levantar da minha cama – estava com nojo só de pensar em voltar ao meu apartamento. Quando o enfermeiro trouxe o ultimo chá, que supostamente eliminaria nossa percepção do presente, eu relutei em cooperar. Mas eu tinha um contrato a cumprir, e tomei a bebida. Assim que o liquido tocou minha língua, eu sabia que não estava lidando com outro placebo. Um formigamento começou a subir pela minha espinha e…

E só, na verdade. Não consigo me recordar bem do que aconteceu. Tomei o chá, me sentei em uma poltrona para ler um livro e, quando dei por mim, estava sentada no chão do meu quarto, cercada por um grupo de médicos e pacientes.

– Mãos ao alto! – gritou um médico, apontando uma pistola e uma lanterna para mim.

Eu olhei em volta, meio tonta. Ainda estava no hospital, mas já havia anoitecido e as lâmpadas não tinham sido ligadas. O lugar estava uma bagunça, e um cheiro horrível pairava no ar. Daniel estava deitado no meu colo chorando e… Aquilo escorrendo do rosto dele era sangue?

– Mãos ao alto, ou vou atirar!

– Não! – respondi, pondo os braços para cima. – Eu não… – eu parei. Eles olhavam para mim com assombro, e alguns murmuravam orações –O que… Houve?

– Suas… Mãos… – disse um deles.

Pus as minhas mãos na frente do meu rosto, e tentei entender o que estava vendo.

Então comecei a gritar.

Sabe, revendo os vídeos de segurança daquele dia, acho até engraçado como fomos organizados. Tomamos nossos chás e continuamos a fazer nossas coisas normalmente. Daí os cogumelos começaram a surtir efeito.

Dois caras simplesmente caíram no chão aos gritos, e logo foram socorridos – e imobilizados – pelas enfermeiras. Esses foram os sortudos. Os outros, incluindo eu, ficaram olhando para o nada com um sorriso besta no rosto, alheios a tudo, inclusive os estudantes que tentavam fazer perguntas sobre o que estávamos sentindo. Ficamos nisso por uns minutos, até que do nada começamos a rir.

Nós levantamos e, sem mais aviso, começamos a trabalhar. Um homem subiu numa mesa e começou a falar algo. Alguns foram chamar as cobaias dos outros grupos e o resto começou a mexer nos móveis. Quando todo mundo estava na ala de recreação, fomos rápidos. Muito rápidos mesmo.

Bloqueamos as saídas com os móveis, derrubamos os guardas, e começamos a atacar o resto dos nossos colegas. Você não acreditaria em como fomos bons em improvisar armas ou desviar de golpes. Era como se já soubéssemos o que nossas vítimas iriam tentar fazer. Eu mesma peguei duas canetas e comecei a atacar pescoços alheios. É difícil dizer pela gravação, mas acho que já tinha derrubado umas três pessoas quando Daniel tentou me segurar. Desviei do agarro dele e o acertei em cheio no olho esquerdo, o fazendo cair no chão de dor. Os outros se aproximaram para terminar o serviço, mas eu fiz que o deixassem comigo.

Apesar da agonia, uns médicos conseguiram abrir uma porta, e tentaram fugir. Meus colegas foram atrás deles. Eu, por outro lado, carreguei Daniel para o meu quarto. Lá, eu me senti em um aconto e o deitei no meu colo. Passei o resto da tarde sussurrando coisas ao pé do ouvido dele enquanto roía tranquilamente a pele das minhas próprias mãos.

Os sobreviventes conseguiram se esconder atrás de uma barricada. Como o lugar não tinha comunicação com o exterior, o resgate não veio. A paz só veio à noite, quando o efeito do chá passou.

A tal fundação se mostrou poderosa o bastante para acobertar o caso, cuidar das questões legais, e, dentro do possível, desfazer os estragos daquela tarde. Em troca do silêncio eu ganhei um valor significativamente maior de dinheiro e uma cirurgia plástica para minhas mãos. Os que não quiseram colaborar desapareceram do mapa. O doutor não chegou a sobreviver ao seu próprio experimento, mas as pesquisas continuaram sem ele. Até publicaram um artigo em algum lugar. Aparentemente, os novos pesquisadores usaram métodos diferentes para tentar esclarecer o que tinha ocorrido, chegado, inclusive, a fazer uso de teste em animais e ressonâncias.  Infelizmente, os chás não surtiam efeitos em animais além de uma breve confusão e da diarreia, ao passo que os exames não revelaram nada além de um salto de atividade na glândula pituitária. Os resultados vindo de humanos não anestesiados, por fim,  foram igualmente inesplicaveis  – exceto que dessa vez, medidas de segurança impediram qualquer derramamento de sangue.

Todavia, nunca me explicaram por que fiquei tão violenta após perder o presente. Talvez o doutor estivesse certo, e o tempo não se comporte como o percebemos, sendo nosso cérebro a única coisa que garanta que o take B venha antes do Take C e depois do take A. É possível que eu e meus colegas não tenhamos aguentado a sensação de perceber todas as nossas vidas simultaneamente, mas isso não explica a violência, e muito menos o fato de eu ter feito o que fiz com minhas mãos.

Talvez… Só talvez… Eu tenha achado uma resposta para essa questão.

Ontem, para minha surpresa, Daniel me ligou. Ele estava com uma voz sóbria. Sua irmã havia falecido, e eu estava convidada para ir ao cemitério Calvary as nove da manhã, para acompanhar o enterro dela.

Foi uma manhã ensolarada, e a cerimônia transcorreu sem maiores acontecimentos. Todos estavam tristes, porém aquela morte era esperada, o que de certo modo trazia um quinhão de alívio à situação.

Quando a cerimônia acabou e todos saíram, Daniel se aproximou da lápide dela e me chamou para perto.

– Eu sinto muito. Por tudo.

Ele nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça para me responder.

– Você disse que o enterro dela seria hoje.

– Como?

– Você disse que o enterro dela ia ser hoje. E que eu não devia me preocupar, porque era apenas uma questão de tempo.

– Daniel, eu sei que você está em um momento difícil, e que você tem todos os motivos para estar bravo comigo, mas se você me chamou até aqui só para…

Ele pôs a mão no meu ombro, e olhou para mim. Até que ele não ficava mal de tapa olho.

– Naquele dia miserável, depois de furar meu olho, você me arrastou para o seu quarto e, enquanto roía a pele das suas próprias mãos, me falou muitas coisas. Muitas coisas mesmo. Você disse que minha irmã seria enterrada hoje, neste cemitério, e que eu não teria que me preocupar, porque era apenas uma questão de tempo para que nós estivéssemos juntos da minha irmã.

Eu congelei por alguns instantes, tentando processar o que ele havia dito.

– Nós?

–Sim. Nós – disse ele, dando um sorriso que apenas um homem que havia abandonado toda esperança podia dar. – Eu, você e todo o resto.

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