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Depois de passar um ano frequentando festas badaladas, comprando roupas de grife, tomando champagne francesa, agregando valor em camarotes paulistanos, tingindo o cabelo de loiro e lotando a agenda com compromissos como salão de beleza e spa, o vazio continuava a gritar. A infelicidade existia sempre que se olhava com mais critério e ela desconhecia a sensação de plenitude.

Com dinheiro transbordando, ela conseguiu, na academia de ginástica, encontrar um marido bonitão. Ele tinha seus 20 e poucos anos e estava ávido para sair de casa. Casar com uma mulher linda, inteligente e ricaça pareceu uma boa ideia pra ele que adorava surfar e fumar maconha. Mais um ano de vida perdulária passou, mesmo agora acompanhada do bonitão, e o vazio de dentro ainda gritava. Engravidou, pariu, fez lipoaspiração, abdominoplastia, colocou silicone, matriculou sua cria na escola bilingue, juntou ao pacote uma linda SUV (do inglês Sport Utility Vehicle, que significa “veículo utilitário esportivo”), uma babá e uma folguista (a babá que vem na folga da babá).

Claro, precisava da folguista, nem pensar em ser mãe de verdade, nem mesmo uma vez por semana. O corpo já estava lindo esculpido pelas cirurgias e agora recuperado e trabalhado no pilates, yoga, musculação e dança. Começou a jogar golfe. Fez curso de vinho, mas só tomava vodka porque vodka sim, dá barato.

Passaram cinco anos e a cada dia a voz do vazio ficava mais alta. Não tinha prozac, maconha, álcool, sexo, meditação, religião, chocolate, tinta de cabelo ou silicone que amenizasse o barulho ensurdecedor. Ela queria muito, desesperadamente, se encaixar, ver graça no “felicidade – pacote completo”. Preencheu cada campo do formulário padrão, mas continuava puta da vida.

Tanto dinheiro não havia sido consequência de esforço profissional de cantora e atriz que ela tanto investiu, chegou até a morar em Los Angeles para tentar desenvolver a carreira, porém sem sucesso. O dinheiro, o ganhou fácil. A verdade é que fácil não seria o adjetivo correto, rápido é a qualificação do dinheiro que ganhou. Depois, ela soube aplicar e administrar bem. Seus anos de vida estadunidense serviram pra lhe ensinar isso. O fato é que os milhões de dólares vieram sem o brilho. Chegaram até ela como uma espécie de prêmio, indenização ou chantagem, depende do ponto de vista. Ela se trancou num lugar similar a um manicômio e não podia contar nada pra ninguém do que aconteceu lá dentro. Foi isso.

O tal do “felicidade – pacote completo” tem um check-list a ser preenchido. Assim que a pessoa consegue ticar todas as etapas, ela lê em todas as revistas e programas na TV o quanto ela foi incompetente nas missões. Embora as tenha atingido, sempre alguém mais rico, bonito, cheiroso, inteligente e bem sucedido é mais feliz que ela. É uma armadilha. Na qual ela caiu. O tal vazio gritava para alertá-la havia 10 anos. Há 10 anos anteriores, falava. Há 10 anos anteriores aos anteriores, sussurrava. E a primeira década, foi a infância dela.

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Um dia, no cabeleireiro, o descolorante usado previamente à tinta loira corroeu seu cabelo e o couro cabeludo. Ela precisou raspar o cabelo. Quebrou o salão de beleza inteiro e foi presa.

Gente rica até é detida, mas se for primária não permanece presa. Chegou em casa e descobriu um caso do marido com a personal trainer e outro caso com a folguista. Separou um milhão da sua fortuna, mandou para o amigo sobrevivente ao episódio manicômio, o caolho Daniel, junto com o seu filho de 5 anos e um bilhete que pedia para que criasse o rebento. Separou do marido, dando um milhão para ele junto com uma passagem só de ida para Amsterdã. Lá não tinha onda, mas tinha maconha, pra ele estava bom. Pegou os 5 milhões que sobraram e doou para a caridade. Colocou à venda todos os imóveis, essa seria sua aposentadoria.

Se enfiou numa universidade para o mestrado em antropologia. O tema? Pau no cu way of life – se livre enquanto é tempo. Realizou-se como atriz dando aulas. Todos os dias, a sala de aula era seu teatro; o tablado, seu palco; e os estudantes, seu público.

Ela não se curou de nada, não viveu feliz, mas viveu normal, e consciente.

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