Depois de saciada, a faca foi posta para dormir um sono pesado e gorgolejante de animal metálico satisfeito dentro da gaveta escura e limpa do armário, e sonhou.

Entre devaneios enevoados, a faca era homem e viajara a Buenos Aires acompanhada de uma linda mulher de cabelos dourados e esvoaçantes ao vento noturno de Tigre, à beira do Prata. Juntos, observávamos alegres os homens sisudos em seus chapéus pelas ruas de Ramos Mejia e sentíamos o odor de mariscos de La Boca assistindo ao desfile de fanáticos barrabravas de azul e amarelo, tudo entrecortado por cenas de folhetim de um idílio desregrado e insano de brigas e bebedeiras, de exageros e fugas desesperadas da realidade; seu dinheiro pagava tudo, do cigarro consumido aos tragos longos até as bebedeiras de três dias ininterruptos que culminavam numa ressaca curável apenas com outro trago e outro porre e mais charutos que ela comprava com displicência até que quase morremos. Fugíamos atormentados por nosso passado miserável de fomes prolongadas, de ódios rubros adormecidos que de súbito reemergem numa vermelhidão consciente de lágrimas amargas e acres e num turbilhão lamacento que levava à semidemência do adormecimento repentino num quarto de hotel caro ou no banco da praça próxima, tanto fazia, desde que se aplacasse os ventos demoníacos que rugiam selvagens e vertiginosos das lembranças que se queria eliminar, de crises, de crimes, de cóleras…

E ela me acompanhava com suas madeixas luminosas, procurando também eliminar as memórias de suas frustrações, da péssima cantora de voz esganiçada e fraca, de faz-tudo em casas de famílias medíocres da Califórnia que apenas lhe notavam quando fazia alguma merda, de ter prostituído o corpo em nome da ciência dos que pagam para outros sofrerem as consequências de princípios ativos desconhecidos como cobaia de laboratório – utilizassem os pobretões, os miseráveis, os loucos, os músicos, os não emancipados financeiramente, escória! –, do corpo fora das medidas e dos padrões que teve de ser reconstruído a bisturi e silicone para que se tornasse atraente…

Chafurdávamos na lama de nossa podridão até que quase morremos….

Decidimos ter um filho. Compramos outra SUV, substituindo a capotada que quase nos levou à ruína. Reconstruímos os escombros de nossas vidas para depois nos livrarmos do rebento e retornarmos a nossa rotina de exageros e bebedeiras. Até o dia em que ela veio decidida a arruinar-me a vida ou a virilidade. Quando acordei, estava sozinho, as mesmas lágrimas numa torrente incessante molhavam o piso imundo do quarto barato onde dormíamos, a TV ligada, a penumbra da sexta-feira…

bloody hand

Decidi vestir-me. E sair. Cobri-me de trapos e chapéu. Caminhei inconsequente rumo à avenida, depois outra, depois outra – esqueci os nomes. Outra, até o final da cidade. Dormi aninhado num matagal às margens da rodovia. Não ignorava a mulher, mas sabia que ela não retornaria, que eu não retornaria, que ambos havíamos esquecido uma faca abandonada na gaveta escura e limpa sonhando que era um andarilho.

(Autor convidado: João Tadeu Sena)

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