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Acordou quando o sol, que entrava pela janela, já incomodava, e o corpo, encharcado de suor, doía… Abrir os olhos não valia o esforço. Nada havia para ver. Continuar a dormir, continuar a dormir eternamente…Não fosse tão covarde!… Nem isso. Nada.

Arrastou-se para fora da cama de olhos fechados, com o corpo encurvado, com os braços sem forças. Sentou-se no vaso sanitário para recuperar-se da vertigem. Há quanto tempo dormia? Há quanto tempo não comia? Há quanto tempo não vivia?…

Pelo rosto semi morto que via no espelho devia ser muito tempo. Não se reconhecia mais. Era um espectro do que um dia tentou ser. Uma existência forçada, que nada mais tinha de vivo…que nunca tivera. Mal sustentava-se de pé. Mal tinha forças para pronunciar palavras.

A casa era uma prisão e um esconderijo, assim como sua mente. O mundo era uma prisão e não havia mais como se esconder. Dor era só o que havia, acompanhada de muito desespero, e desesperança. Quando essas coisas entraram e expulsaram a vida? Algum dia isso aconteceu mesmo? Ou nunca houve uma vida?

Nada podia fazer por aquele rosto suplicante, por aqueles olhos vazios, aquela boca desfigurada. Nada mais podia fazer. Se é que tentara alguma coisa, algum dia, já não podia mais. Era tempo de entregar as armas, desertar sem ter lutado. Perdera. Nascer foi sua derrota. Viver, sua punição.

Tentara sim, pensava enquanto suas pernas desfaleciam e caía lentamente no chão sujo do banheiro. E sem se importar com as moscas que vinham inspecionar-lhe o corpo, recordou-se de quando tentara. Uma vez na escola acreditou que tivera uma amizade. Uma criança de sorriso fácil, com o cabelo penteado, que a mãe mandava sempre o mesmo lanche e que enfeitava o caderno com canetinhas. Olhava-a com espanto e admiração. Como era fácil ser ela! Era só chegar na escola, sentar-se, abrir a mochila, tirar o caderno limpinho, as canetinhas e ser.

Brincavam depois da escola. Brincava que era fácil também. Inventava canetinhas que pudessem colorir os cadernos sujos que eram seus dias. Guardava o que não entendia no bolso, junto com tampinhas de garrafas, e brincava de entender. Brincava de ser criança, a criança que nunca fora. Os olhos tinham rugas já…

Quando a outra criança guardou as canetinhas e começou a falar sobre as cores do mundo, já era tarde. A estranheza já pintara seu rosto de cinza. O corpo desajeitado, a fala desafinada, o sorriso triste afastava quem quer que fosse, inclusive ela, que desabrochava para a beleza. Algo dentro de si recusou-se a abrir. Ainda tinha nos bolsos as tampinhas de garrafas…

Beijou alguém que nem quisera beijar. Não ousou querer. Suas mãos nunca deram-se a outras. Pegaram e largaram delas muitas vezes, mas nunca entrelaçou seus dedos com outros dedos que os quiseram de verdade. Sorria até, fingia acreditar que era só aquilo. Sabia que existia mais. Que pessoas se amavam. Tentou amar. Mas tudo o que saía eram pedidos de socorro. Não podia dar o que ninguém plantou. Não podia receber o que não inspirava. Descobriu que seria só. Não adiantaria bater. Ninguém abriria.

Ser. Pensou ser várias coisas. Pensou por um tempo que estudava-se para ser. Descobriu, depois de falhar em tudo, que estudar era somente obter permissão para ser. Nunca fora nada. Não podiam permitir-lhe que fosse algo. Enganou-se aqui e ali. Decorou umas frases, sustentou farsas, criou uns trejeitos para encobrir de si e dos outros a verdade: era uma farsa.

Seu corpo era mole. A impressão que tinha era que o bebê se esticara e engatinhava pelo mundo sem entender. Seu cérebro parara de processar desde o tempo das canetinhas que nunca tivera. Não podia escrever e nem pintar seu mundo, que não passava de um bloco cinza, vazio, oco. Oco era só o que sentia dentro de si. Nada que preenchesse, nada que aliviasse. Nada para preencher o vazio que engolia seu corpo e sua mente.

Desistir também foi uma tentativa. Quando o desespero tapava-lhe a visão e girava como um rodamoinho sua mente, desejava fechar os olhos e nunca mais abrir. Mas o medo e a incerteza venciam a tempestade e só o que restavam eram os destroços para recolher. Não recolhia, empurrava-os para o canto e  jogava-se na cama, com a esperança de dormir para sempre.

Acordava agora de uma dessas esperanças. Pelo estado de seu corpo quase conseguira. A secura de sua garganta só não era maior que a da alma. Olhou em volta. Lixo. Tudo o que via era lixo. E o pior deles, mais difícil de se livrar, era seu corpo moribundo, já cheirando mal e que teimava em não decompor-se.

Como levantar-se? De onde tirar forças, quando a vontade era de afundar para debaixo da terra? Se ficasse ali imóvel, demoraria muito para suas forças se esvaírem? Seria suave terminar assim? Chorou. Escassas lágrimas escorriam pelo seu rosto magro. Por que alguma coisa ainda protestava ali dentro? Nada mais havia. Já tentara de tudo. Não tinha nada. Não tinha ninguém. Não era nada. Não era ninguém. Para que prolongar a punição que era viver? Por que tanta perversidade? Deveria sentir alívio em estar no fim de seu suplício. A esperança que insistia agora em empurrar lágrimas olhos abaixo como último pedido, era nada mais que masoquismo de sua mente, tentativa de prolongar a tortura.

Seu corpo já não tinha forças para atender o quer que fosse. Sorriu tristemente. Conseguira… Fechou os olhos úmidos, abriu a boca seca e pendeu o rosto para o lado. Tentou lembrar de uma canção. Queria ninar-se, como nunca fora em vida, ao nascer para a morte. Mas não tinha forças para cantar. Nem mesmo para se lembrar de mais nada.

Entreabriu os olhos. Viu seu corpo deitado. Sentia-se leve. Conseguira. Libertara-se. Fechou calmamente os olhos novamente e conseguiu ouvir uma música. Parecia um violino. Sorriu.

Acordou quando o sol, que entrava pela janela, já incomodava e o corpo, encharcado de suor, doía… Abrir os olhos não valia o esforço. Nada havia para ver. Continuar a dormir, continuar a dormir eternamente…

Como?! Abriu os olhos confusamente. O sol cegou seus olhos. Tapou-os com as mãos. Seu corpo não doía e nem estava encharcado…Virou-se de lado e levou outro susto. Um rosto sorridente e sonolento dava-lhe bom dia e deslizava pelos lençóis, que estavam limpos e com cheiro agradável, em direção ao seu corpo. O toque causou-lhe um calafrio. Há quanto tempo não sentia isso! Devia mesmo ter morrido. E devia a morte ser boa. O calor de outra pele, o peso de outro corpo…Um beijo. Um caloroso beijo. E todo o seu corpo e alma foram restaurados com a energia que vinha daquele outro ser.

Levantaram-se. A casa estava limpa. Caminhou sem dificuldades até o banheiro. A cozinha. Sentiu fome. Comeu como há muito tempo não comia. Despertou curiosidade de um par de olhos amorosos que observavam tudo. Sorriu. De repente conhecia aqueles olhos. Amava aqueles olhos desde sempre. Aquela casa era sua casa, como sempre deveria ter sido. Seu próprio corpo, com forças, desejos e anseios, era seu verdadeiro corpo. Essa vida, que teve início havia poucos minutos, era sua vida de verdade! Sempre esteve ali à sua espera. A felicidade sempre existira, em algum lugar, esperando ser encontrada.

– Por que ri?

– Um sonho que tive.

– Sonhou com que?

– Com nada. Sonhei com o nada…

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