vampire-love-and-pain-munchVampiro. Amor e Dor. (Edvard Munch, 1895)

1 Gente estranha

Bernardo Traum sempre foi um cara estranho. Um rapaz estranho. Um menino estranho. Taciturno, esquivo, reticente, recluso. Não gostava de esportes. Não gostava de brincadeiras. Não se aproximava das pessoas, sempre observava à distância. Não comia nada que viesse de bichinhos, supostamente por “respeito”. Na verdade ele tinha peninha deles. Ou uma fatal identificação com as vítimas. Nada auspicioso para a vida por vir.

Eu não gostava muito dele. Digamos que tínhamos rivalidades históricas. Ele fazia parte daquela horrenda colônia de descendentes de alemães que infestava a cidade. Isso, além do seu comportamento atípico. Meu primeiro chute foi que ele era gay. Tirei a prova disso aos 13 anos. Agarrei-o no banheiro do quarto andar, geralmente deserto. Tenho que dar o braço a torcer: ele resistiu bravamente. Chutou, arranhou, tentou me socar. Felizmente tive dois amigos para segurá-lo enquanto eu fazia o teste. Enfiei uma meia na sua boca para que ninguém ouvisse seus gritos e xingamentos. Essa parte do teste foi inconclusiva. Não sei se sua reação denotava prazer ou fúria. Por via das dúvidas, avisei-o que não contasse a ninguém o que ocorrera naquele cubículo fedido. No dia seguinte, foi o meu bar mitzvah.

Eu fui outrora enamorado pela senhorinha Lucinda Bomtempo, filha de uma das famílias mais abastadas da cidade. Eu a conheci numa noitada numa badalada casa noturna local, a Bourbon Street. Lucinda era amiga do meu vizinho Tiago Lages, também colega de escola, que me chamara para a discoteca. Ele também convidara Bernardo Traum, mas isso não me incomodava. Incomodava sim, a ele, que me evitava os olhos e até parava de falar quando eu o encarava. Incomodou-me, porém, depois, quando, entre doses de vodka, uísque e caipirinha, reparei a intimidade de Lucinda com os dois. Beijava ora um, ora outro. Lembro-me de olhar àquela cena algo repugnado. Por dentro, queria agarrar a moça pelo braço, dar-lhe uma bronca, levá-la de volta para casa no meu carro, mostrá-la o que era um homem de verdade e propor-lhe casamento. Estava apaixonado.

Clay_Paky_Astrodisco

Lucinda era uma gata selvagem e livre. Uma tigresa. Ela só precisava encontrar o leão que haveria de domá-la. O problema é que ela era goi, e nosso amor estava condenado desde o princípio. Meus pais eram moderninhos o bastante para me colocar num colégio secular, mas não para admitir um casamento inter-religioso. E eu, tampouco, pretendia renunciar à fortuna da família. Muito menos os Bomtempo, católicos devotos, tradicionais e conservadores, aceitariam um dos meus na sua mesa de jantar, sequer como convidado – que o diga como genro.

Qualquer um que reparasse na expressão de Traum quando estivesse perto de Lucinda saberia que ele também era apaixonado por ela. O que ninguém suspeitava era quão longe ele iria em sua paixão.

2 O destino de Lucinda

Tiago Lages era um cara ainda mais estranho. Estava claro que mesmo uma putinha como Lucinda não iria dar muito para ele. Se é que chegou a dar. Entre uma foda e outra com os caras mais bonitos e endinheirados da cidade, ela alimentava um romance com Traum, romance este que eu nunca entendi. Ele não era o mais bonito, nem o mais rico. De fato, vinha de uma família arruinada, e tudo que lhe restara fora um casarão do século XIX.

Naquele ovo de cidade, eu tive que aturar ainda por muito tempo a convivência com Traum, agora na faculdade de direito, que ambos frequentávamos. Foi para mim um alívio quando, lá pelo terceiro período, o chucrute decidiu transferir-se para o turno da noite, sabe-se lá o motivo, já que era vagabundo, e não trabalhava. Abandonou por completo o curso no sétimo período, e não ouvi falar dele por algum tempo.

Eu me formei com as mais altas notas da turma, e no mesmo ano passei em primeiro lugar no concurso para a Polícia Federal. Era investigador agora e consegui minha sonhada vaga no departamento de homicídios. Foi lá que um dia chegou um caso escabroso: uma mulher de alta classe, rica e bonita, fora encontrada em sua casa, com dois cortes na carótida, sinais de violência sexual, o corpo pálido, exangue. A família, poderosa e politicamente influente, não conseguiu deter o vazamento da notícia na imprensa, mas não seria tão condescendente com o departamento de polícia se o caso não fosse resolvido com presteza. Com algum jeito, consegui infiltrar-me na investigação, como braço direito do comandante. Assim, tive acesso, em primeira mão, à cena do crime, onde Lucinda Bomtempo soltou seu último suspiro.

3 A carta de Bernardo

Todos os sinais apontavam para Bernardo Traum. Após um relacionamento tempestuoso de cinco anos, Lucinda finalmente o abandonara para casar-se com um dos mais festejados solteirões da cidade, um rico empresário vinte anos mais velho, com investimentos na China e Califórnia.

As testemunhas disseram que Traum retrocedera a um estado cada vez mais primal nos últimos tempos. Só à noite era visto sair de casa. Estava magro e pálido. Cheirava mal, o fedor podia ser sentido a metros de distância. Às vezes, gritos macabros podiam ser ouvidos de sua casa. Os vizinhos tinham medo dele, e por isso nunca notificavam a polícia. Mas agora havia um cadáver de uma mulher importante em jogo. Eles teriam de falar. Eu encarreguei-me de convencê-los. Uma de suas vizinhas, uma senhora com uma longa corrente com uma figa, um cristal e um olho grego pendentes, vestida com o que se poderia apelidar de um sári indiano de quinta categoria, para consumo das massas esotéricas, assegurou-me que vira Traum bebendo sangue, e que ele era um vampiro.

Emitimos um mandado de busca, que eu fiz questão de cumprir, pessoalmente. Se Traum era um vampiro, pois então eu o trespassaria com uma estaca no ânus, antes de atravessar-lhe o coração. O casarão dos Traum estava decrépito. Lembro de ter ido lá na pré-adolescência, para fazer um trabalho em grupo. O gramado era bem cortado, as árvores podadas, a fachada bem cuidada, a casa limpa. Agora, o acabamento estava descascando, os galhos e a grama alta tornavam o jardim escuro e intransitável, e bloqueavam o sol também dentro da casa, que estava empoeirada, mofada, os móveis velhos e quebrados. Fedia sobremaneira, a sangue, urina e fezes. Três gatos pretos ajudavam a manter o ambiente infecto.

Fizemos uma busca por toda a casa, encontramos Traum estirado no porão. Uma faca de açougueiro fizera seu trajeto completo pelo seu corpo, do peito às costas, com escala no coração. Ao lado dele, uma carta.

Carta de Traum*Clique na imagem para ler a carta da Bernardo Traum

Então é isso. Nosso suspeito só estava deprimido. Ah, Traum. Se você fosse mesmo um vampiro eu lhe teria menos desprezo! Nem coragem para me incriminar você teve.

A carta estabelecia o motivo para o crime, e um comportamento suspeito. Seu final era uma confissão. O caso foi concluído. Traum foi execrado e enterrado. Ainda bem que seus pais não estavam mais vivos para vê-lo. Graças à comoção midiática, e ao lobby dos Bomtempo, a prefeitura encampou o casarão para transformá-lo num museu em memória às vítimas de violência sexual. “Bem adequado”, eu pensei.

4 A fuga de Tiago

Três meses depois, mulheres com o mesmo tipo físico de Lucinda começaram a aparecer mortas em diferentes pontos da cidade. A polícia discretamente abafou o caso. Não reabriríamos de jeito nenhum as investigações. Não queríamos mais um escândalo no departamento, nem o ódio dos Bomtempo, que poderiam derrubar, de uma tacada só, a cúpula da corporação, os secretários de Segurança Pública, e ainda vazar informações desabonadoras sobre o prefeito e o governador.

Depois do quarto corpo vir à tona, e alguns jornalistas mais inteligentes começarem a fazer perguntas embaraçosas, tivemos de investigar. Diferente de Lucinda, essas eram putas profissionais, e pobres. Começamos a vigiar os puteiros e pontos de prostituição. Eu mesmo vi Tiago Lages algumas vezes na minha ronda. Quase não o reconheci, atacado que fora pela calvície e obesidade. Eu sabia que ele era um fracassado e que recorria a piranhas para ter do que comer, já na época da escola. Mas, por desencargo de consciência, decidi investigá-lo.

Foi então que descobri que Tiago tivera um surto psicótico lá pelos 19 anos. Tentou matar os pais, atacou a ambos com uma faca, depois tentou estrangular o pai, até que a mãe, com dificuldade, conseguiu deixá-lo desacordado com um golpe na cabeça. Antes o tivesse paralisado com um golpe na coluna. Ou terminado o serviço. Em vez disso, por amor materno, chamou o manicômio, e Tiago ficou internado por alguns anos. Pouco tempo depois da morte de Lucinda, ele fugiu do hospital. Era uma história muito tortuosa, mas valia a pena cavucar mais a fundo. Consegui o mandado de busca, encontramos fotos das vítimas em sua casa. Depois disso, a ordem de prisão preventiva foi fácil de obter.

O interrogatório do louco foi o mais asqueroso que já fiz em toda minha vida. Ele insistia que era um vampiro, e que havia matado Lucinda, além das outras mulheres. Que sentia seu rastro pelo álcool no seu sangue, que elas lhe prometiam sexo para escapar. Ele as comia, e depois as matava. Estava a tentar reviver a morte da amiga para alimentar sua ridícula fantasia de que aquela mulher rica e bonita tivera, por ele, um interesse que fosse além de uns amassos decorrentes de uma bebedeira. Patético, Lages. Patético! Já que Traum me furtara desse prazer, eu o teria trespassado o ânus, não estivesse a sala cheia de outros policiais. Mas não pude me deter de uma pequena pegadinha. Entreguei-lhe o espelho e lancei o desafio: se fosse mesmo um vampiro, seria, também, um homem livre. Lá estava você, em toda a sua aparência escabrosa, que provavelmente não contemplava há anos. Foi gostoso ver sua expressão bovina ao se reconhecer no reflexo.

5 O best-seller de Daniel

quartz

Toda essa aventura instigou meu lado criativo. Aquilo sem dúvida daria um belo romance, sobretudo com os detalhes vampirescos alimentados pelos imbecis e supersticiosos. Como eles abrangiam a maioria da população de nossos dias, gente louca para acreditar em astros, duendes e predestinação, tal delírio, se bem redigido, renderia uma boa nota. Embora a história real fosse muito mais trágica, ninguém acreditaria nela. Os Vampiros de Bourbon Street, de Daniel Abramovitz, foi lançado, como previsto, para um sucesso estrondoso. Consegui um contrato com uma editora, mas, claro, não abandonei meu maravilhoso trabalho no departamento de homicídios.

Vampiros? Não. Bernardo Traum e Tiago Lages foram apenas dois homens consumidos por uma paixão insensata. Um deles destruiu ao que amava em si mesmo. O segundo, destruiu nas outras. Um sucumbiu à tristeza. O outro, à insanidade.

E eu? Eu não poderia estar mais radiante. De forma inesperada para mim mesmo, ao livrar o mundo de uma vadia, eu consegui, na mesma jogada, limpá-lo de um idiota romântico, outras vadias e um maníaco depravado. E ainda arrebanhar fama. A fortuna estava ao meu lado, nos dois sentidos. Enfim, talvez todo esse papo de predestinação não fosse, de todo, imbecilidade e crendice.

* * *

Nota: Frases e ideias da carta de Bernardo Traum foram adaptadas da canção “Moon Over Bourbon Street”, de Sting.

Anúncios