1. O horror na madeira Bela_lugosi_dracula De todas as maldições que a natureza impôs à humanidade, nenhuma foi tão cruel quanto a nossa incapacidade de conhecer o mundo que nos envolve. Vivemos flutuando precariamente em um grande oceano, e não estamos fadados a ir longe. Mesmo o esforço somado das luzes da ciência, compaixão, religião e da filosofia não será capaz de livrar nossa espécie dessa sina. O desconhecido assombra nossa existência do começo ao fim dela, mais do que a fome, a guerra e a doença. A própria morte não passa da manifestação mais espalhafatosa dessa situação.

Se algum dia nossa espécie se vir despida dos farrapos de saber que ela teceu a tanto custo e for forçada a encarar novamente a escuridão primordial, não teremos escolha a não ser enlouquecer perante as trevas ou imitar nossos ancestrais e buscar refúgio na segurança das lendas. Nossos corações não foram feitos para suportar o frio do universo.

A cada volta da vida, somos forçados a ver nossos sonhos e preceitos se desmanchar no ar, sem jamais saber o que realmente é certo ou errado, nunca reparando a garra do destino sobre nossas gargantas. O mundo seria um lugar diferente se ao nascer tivéssemos uma mísera certeza gravada em nossos neurônios, ao invés de um punhado de instintos difusos.

Minha tia, citando uma frase que ela leu em um conto sobre uma moeda, gostava de dizer que, se entendêssemos uma flor, entenderíamos que somos e o que é o mundo. Ela morreu de uma forma cruel e estúpida. Eu não pude fazer nada além de fazer o mesmo que todos fazem ao perder um ente querido: amaldiçoar a deus e o mundo – incluindo eu mesmo – pela catástrofe. Eu gostava dela, sabe? Eu não tinha como não gostar. Meus pais morreram em um acidente de avião quando eu não passava de um recém-nascido, e eu fui criado pelos meus tios. Por algum tempo, ao menos. Meu tio foi morto em um assalto, deixando eu e minha tia como os últimos representantes vivos de nossa linhagem. Contra todas as possibilidades, ela me criou sozinha, e contra todas as tragédias, ela foi uma mulher alegre e bondosa. Ela não merecia aquela morte.

Talvez você tenha ouvido falar algo desse crime, caso viva na mesma cidade  que eu. Minha tia foi para a casa de um amigo assistir filmes numa noite de sábado. Um monstro disfarçado de gente invadiu o lugar, e a noite se encheu de gritos e fumaça. Os vizinhos chamaram a polícia e os bombeiros, mas o resgate chegou tarde demais. Metade da casa havia sido reduzia a cinzas e seus dois ocupantes estavam mortos. O dono da casa foi consumido pelo fogo, e minha tia foi achada com a garganta cortada e o sangue drenado. A notícia fez a cidade se encher de boatos sobre a volta de Bernardo Traum. As investigações só acharam um sinal do monstro responsável por aquela barbárie: um talismã ou xilogravura representando um demônio alado.

Quando ouvi essa noticia, algo em mim quebrou. Estava com um caso de dengue na época, e tinha feito questão que minha tia saísse naquele sábado – para garantir que  ela não ia se cansar cuidando de mim. Por ignorar os caprichos da roda da vida, eu mandei minha tia para a morte tentando fazer um favor a ela. Não senti dor, tristeza ou solidão. Isso viria depois. Não, eu sentia apenas a fúria arder no peito e a sede de vingança apertar minha garganta. Eu era o próprio inferno, e ia trazer justiça ao assassino.

Após o enterro da minha tia, eu usei todas as minhas economias, contratei o melhor detive particular da cidade, o investigador Eduardo Mort. O homem não brincou em serviço. Logo ele coletou boatos de algo vampírico atuando no centro da cidade.

A curiosidade pôde mais que o medo: após a poeira ter baixado, eu tomei a liberdade de dar um passeio – de carro, claro – pela Rua Hélio. E, francamente, não fiquei decepcionado com o que vi.

Minha cidade, apesar das aparências, é muito antiga – tanto quanto é possível nesse novo mundo. Somos tão velhos quanto esta nação, e certos bairros começaram suas vidas como pontos de reabastecimento para caravelas portuguesas. Não que dê para notar isso em todas as ruas, claro. Se você for um bom turista e andar pelas ruas indicadas, juro que não vamos parecer nada além de mais uma simplória metrópole de terceiro mundo. Mas se você trilhar os caminhos certos…

A Rua Hélio fica no coração da área histórica da cidade, onde o futuro não passa de uma piada e o passado aparece sem o véu da nostalgia. Lá a maioria das construções data do século 19, e mesmo os prédios mais recentes já tiveram a honra de ver todos os seus habitantes originais morrerem ou serem mandados para asilos. O descaso do estado, somado aos caprichos urbanos, gerou um ciclo vicioso de abandono, dando ao tempo a oportunidade de roer impunemente toda a região.

Eu passei por lá na manhã de uma quinta-feira, e acho que rodei pelos domínios da morte. O céu estava cinza e uma chuva fina caía, impulsionada pelo vento gélido soprado pelo oceano. Não havia ninguém nas ruas, e todas as lojas estavam fechadas. Na verdade, não havia nenhum sinal de vida além do zumbido dos mosquitos. Em dado momento pensei ter visto um pombo ao longe, mas quando meu carro passou perto, vi que era apenas um jornal dançando ao sabor da maresia. Tirando o som do mar, da chuva e dos insetos imperava um silencio cristalino, mais apropriado a marte ou a outro planeta morto do que a Terra.

A vida se mostrava apenas por suas migalhas. Havia lixo por toda parte – especialmente pneus e baldes. Também dividi a rua de pedras com muitos carros, mas eles estavam estacionados há tanto tempo que eles tinham virado estufas para ervas daninhas.  Além desses detritos, os poucos sinais de atividade humana recente eram tão escassos quanto insondáveis. Um leão de pelúcia pendia enforcado de uma antena. E cada parede tinha sido pichada por artistas que pareciam ter se perdido em seus próprios pesadelos.

A própria estrutura do lugar parecia distorcida. Uma casa tinha perdido as janelas, a porta, o telhado e os pisos, sendo pouco mais que uma casca oca. Outra teve todas as aberturas seladas a tijolos. Um prédio teve as janelas quebradas a pedras, pelas quais era possível ver o mofo crescendo pelas paredes como um câncer.

Nem imagino o que o detive Mort sentiu ao andar naquele lugar à noite.

Especialmente por que ele encontrou um cenário bem diferente do meu.

2. O relato do detetive Mort.

Rua hélio era um lugar muito diferente à noite. As calçadas estavam dominadas por cadeiras e mesas, e as ruas estavam abarrotadas de gente. A maioria parecia andar a esmo pela rua, ainda que algumas carregassem suprimentos em carrinhos de supermercados.

A maioria das pessoas tinha o olhar distante e cansado, mais apropriado a um cadáver ambulante do que a uma pessoa sã. Quando o detetive derrubou uma transeunte por acidente, ela não fez nada além de soltar um gemido e então se levantar sem nem sequer se dar ao trabalho de ver quem tinha esbarrado nela.

A iluminação era precária, fruto de postes sujos e lâmpadas amareladas penduradas em teias de fios entre as construções. Em compensação, não havia nenhuma luz acessa nas residências, apesar de haver pessoas entrando e saindo delas. Uma chama espessa de nuvens cor-de-sangue completavam o cenário doentio.

O detetive não acreditava em vampiros, mas se…

– Pelo amor de Deus, outra história de vampiro? – riu Amanda.

As palavras da irmã fizeram o sangue de Pedro gelar mais rapidamente do que qualquer ameaça ou maldição. Em instantes ele salvou o arquivo do Word. E fechou o laptop. A essa altura, essa sequência de ações já era um reflexo.

– Sério, se é para escrever sobre coisas que não existem, por que não escrever sobre zumbis ou magos? Dá mais dinheiro.

– Há quanto tempo você estava aí atrás? – Perguntou o rapaz, sem virar a cadeira.

A moça não respondeu. Mais uma vez o Pedro se pegou desejando que os dois não dividissem o mesmo quarto. Mas algo dentro dele dizia que isso não aconteceria. O casal de irmãos tinha dividido todas as moradias, até útero. Na verdade, o rapaz temia que se ele não tomasse cuidado, os dois iam acabar sendo enterrados juntos.

– Bem… O que você achou? – Perguntou ele.

– Que você não tem nenhum direito de reclamar de Crepúsculo.

Isso foi a gota d’água.

– Você fala como se fosse fácil! – gritou o rapaz, se virando – Por que você não tenta contar uma história, espertalhona?

Os deuses tinham rogado uma maldição em Amanda, e essa maldição era que ela estava fadada a ser enterrada junto com o irmão. Mas, além disso, ela também se metia em muitas furadas por se cabeça dura.

– Certo.

A garota foi para trás e se deitou em seu beliche. Então ela pôs os braços para trás e, olhando para o teto, começou a falar.

– Bem – disse ela, respirando fundo – Era uma vez…

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