Krohli, o medroso filhote de dragão, estava aprisionado. E sua irmã Lucinda não estava mais com ele. Nem mesmo no dia de seu aniversário. Isso era muito triste para o dragãozinho, para quem a irmã sempre foi o exemplo de força e bravura a seguir. Claro, havia sim um dia de que ele podia se orgulhar: quando ele salvou a própria irmã dos assassinos de papai e mamãe. Mas tanto ele como ela preferiam esquecer dessa data trágica.

Tudo o que tinha recebido dela nesse dia foi uma carta. Sim, felizmente seus captores permitiam que ele recebesse eventuais cartas dela. Eram éticos o suficiente para tanto. Nem mesmo podiam ler as cartas se quisessem, pois estava na língua draconiana. De todo modo, acreditavam que a manutenção mínima de laços afetivos do dragãozinho seria importante para seus negócios. Afinal, quando este teve picos de depressão e tristeza, sua produção de ouro caiu significativamente.
Esta última carta dizia:

“Maninho,

Feliz aniversário!

Bem… eu sei que você não deve estar muito feliz aí. Mas não se preocupe. Em breve, seu sofrimento vai acabar. Encontrei alguns parceiros muito especiais, que vão nos ajudar. Estamos organizando uma força rebelde que vai fazer uma revolução e mudar o estado injusto desta sociedade. Não posso dizer mais que isso agora, mas por favor, mantenha as esperanças, tá?

Sua irmã.

Não passou meia hora depois que o filhote terminou de ler a carta, para que ouvisse muito barulho do lado de fora de sua cela, talvez fora da edificação em que estava preso. Gritos, urros, coisas, talvez pessoas caindo no chão; metais tinindo e se quebrando.

Outra meia hora depois, vieram abrir sua jaula. Ficou feliz pelo salvamento. Enfim poderia sentir o vento, livre do confinamento. Mas ficou assustado com os heróis que apareceram diante de si. Eles não tinham face. Possuíam sim uma cabeça, mas parecia um ovo, com uma careca mágica. A careca do que estava à frente brilhava e se comunicava telepaticamente com Krohli – voz não seria possível, já que não possuíam boca. Assim o primeiro careca, mais gordo, se apresentou:

– Olá, pequeno réptil alado gigante. Meu nome é Tiago Lages e vim resgatá-lo. Venha, saia daí rápido, que este lugar todo logo vai desmoronar!

O dragãozinho estava ainda meio desconfiado do seu salvador, mas não tinha do que reclamar por enquanto. O careca mágica Tiago o guiou pelo corredor fora de sua cela, até que chegaram a um pátio aberto.

ilustra SUV556
Krohli e Careca Mágica encontram o SUV 556 [Pintura a guache de Maurício Kanno]
Próximo à saída do corredor, estava no chão um grande cilindro, com três vezes a altura de Krohli e do cabeça-de-ovo que o acompanhava. O objeto era colorido, com cores azul, vermelha e amarela alternadas decorando sua superfície em grossas curvas sinuosas. Havia também no chão, como que escorridas por debaixo do objeto, restos de tinta quente das mesmas cores fumegando. No alto do cilindro, lia-se a inscrição: “SUV 556”.

– O que é isso? – perguntou Krohli, curioso.
– Nosso veículo de escape. Trata-se de um veículo poderoso que usa o minério Suhvynili como fonte de energia. – respondeu Tiago. – Rápido, entre!
Uma porta se abriu no lado mais próximo a eles e se fechou quando entraram, depois da hesitação temerosa do dragãozinho.

Dentro da SUV 556, Krohli ganha massagem de um sujeito caolho.
– Ei, por que esse cara está apertando minhas costas? – reclama o desconfiado dragãozinho.
– Calma, pequeno gigante réptil – acode o careca mágica Tiago. – Isso se chama massagem.
O massagista caolho esclarece:
– Eu me chamo Daniel e estudei fisioterapia, incluindo várias técnicas de como cuidar do corpo das pessoas, deixando-as melhor dispostas. Está certo que você não é exatamente uma pessoa no sentido comum, mas até aí eu também já não sou mais. O fato é que acabei aprendendo com uma amiga um pouco de tô nem aí way of life, então não ligo muito para essas diferenças entre espécies. Escamas, asas, chifres, espinhos, posso me adaptar a tudo isso.

E o careca gordinho acrescenta:
– O fato é que você vai precisar estar bem disposto agora, pois vai ter que nos ajudar em outro foco de rebelião.
– Eu? Ajudar? Como assim? – espanta-se Krohli.
– Acontece que o mesmo responsável pela sua prisão, pequeno grande réptil, também foi responsável pela captura e escravidão de muitos outros – explica Tiago, o careca mágica. – Inclusive minha tia e a irmã do massagista Daniel. Parte deles é inclusive usada como cobaias para os horríveis testes que realizam para o avanço de sua malévola ciência.
– Caramba. Bem, ao menos até que esse negócio de massagem é… legal. Ah. – Interrompe Krohli, em momento de satisfação. – Mas… Quem é esse malvado?
– Ele se chama Doutor Velinha, o Lorde Azul – respondeu o cabeça-de-ovo Tiago.
– Heim? Velhinha ou velhinho? – replicou o dragãozinho.
– Não quis dizer “Velhinha”, mas “Velinha” – tentou explicar de novo o careca mágica. – “Velinha” diminutivo de “vela”, coisa de acender um foguinho, não diminutivo de “velha”, forma não muito elegante de se chamar uma mulher idosa.
– Bem, então você quis dizer que é um velhinho azul? Tipo o Papai Smurf?

*

“Oh, céus! Oh, azar! Como esta vida é horrível. Não saber qual será meu destino. E nosso destino. Não saber se terei minha face de volta. Se terei minha amada Lucinda de volta. Se terei minha querida tia de volta. Oh, sei que de algum modo mereço todos esses castigos. Mas… eu peço clemência, oh, São Rogério.

Ao menos, por favor, permita-me saber se vou ter restaurada minha dignidade do sedutor imortal que já fui. Permita-me conhecer meu futuro, minha sina. Se terei algum dia de novo acesso ao prazer etílico-sanguíneo, que minha condição desfaceada e desorificiosada não mais permite.

Oh, céus! Oh, azar! Oh, São Rogério, você sabe como tenho me esforçado. Eu mal teria forças sequer para erguer este meu corpo e sustentá-lo de pé. Mas até resgatar um dragãozinho chato resgatei por Lucinda. O que não faço por ela! Sei que ele poderá, quem sabe, se tivermos sorte, até nos ajudar na revolução, mas… pra mim ele é apenas um estorvo fracote e enjoadinho.

Oh, além de todas as minhas agonias… que cruel é não ser portador do conhecimento, da verdade. Apenas… do vazio. E, no entanto…”

O sono e discurso de Tiago, o careca mágica, é brutalmente interrompido por sua irmã, que lhe desperta com uma sacudidela e reclama:

– Blé, blé, blé… Eca, Tiaguinho! Para com esse papo, vai, por favor! Como isso me enche o saco! “Oh, céus, oh, azar, como é cruel não saber disso e daquilo, como sofri e blé-blé-blé…” Não aguento mais dividir quarto com voce!
– Ahn… Amanda? – murmura ele de volta, bocejando.
– É sim, sou eu, irmãozinho besta. Se ao menos guardasse tudo isso pra você. Mas não, tem que ainda por cima falar dormindo. Nem parece o nosso valoroso herói de tropa sem face! Credo! Ah, se o pessoal soubesse como, no fundo, você continua sendo o meu irmãozinho depressivo nhem-nhem-nhem.
– Poxa, não fala assim comigo… Você não entende o que é a minha condição… – protesta Tiago, o herói sem face.
– Olha, quer saber do que você precisa? Você precisa é desta minha faca-purpurina! – E ela o ameaça, brandindo a perigosa arma encantada. – Aí sim, você ia virar um herói de verdade! Quem sabe, com os poderes purpurina, você até fizesse sucesso como vampiro em Hollywood?

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