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Do filme de Woody Allen – Vicky Cristina Barcelona (pois esse era um trio amoroso, não um triângulo)

Se você literalmente fura o olho de um amigo e ele te perdoa, quando esse amigo te pede alguma coisa, você atende, não questiona.  Pedi licença não remunerada da faculdade e fui encontrar o Daniel.

O meu nome é Maria, até aqui isso era irrelevante porque a história era minha, a partir de agora, essa condição muda e vai virar uma história nossa. Nada é de ninguém, especificamente. Estou a caminho da comunidade secreta onde o Daniel está escondido.

Eles são um grupo de libertação de alguma coisa que eu ainda não entendi direito, têm um dragão de estimação e fizeram questão de comprar uma SUV, provavelmente só pra me irritar. O meu filho, Gabriel, e o meu ex marido, Teo, estão lá com eles.

Daniel me explicou que essa comunidade em local remoto se formou para abrigar os resgatados do grupo. Não tenho a menor ideia se eles piraram ou se o lado negro da força contra quem eles lutam e resgatam pessoas realmente existe. Sei é que eu furei o olho de um cara e ele criou meu filho pra que eu pudesse fazer o que eu quisesse. Tenho uma dívida a honrar com ele.

Quando eu cheguei lá, conheci o dragão. Ele não era bem um animal de estimação. O dragão e o meu filho eram os únicos que tinham um quarto fixo e só deles. Dormem juntos porque são tidos como as crianças da comunidade. O dragão fala e trabalha alí como as pessoas, assim como o Gabriel, ele tem menos tarefas, mas é ativo. Um fofo, meio pegajoso e melado, mas bonzinho e participativo. Uma coisa ele tem em comum com animais de estimação: obriga todos os humanos a fazerem massagem nele. Comigo não foi diferente.

A toda hora a gente se surpreende. A comunidade é incrível. Todo mundo trabalha dedicado em sua tarefa. Independentemente do objetivo da comunidade, entre um resgate e outro, as tarefas de manutenção das instalações, comida, limpeza, e captação de dinheiro para sustento de todos era responsabilidade de cada um e ninguém furava – só eu que furei o olho, mas foi um acidente e está no passado, não aconteceu na comunidade.

Embora tivessem personalidades muito diferentes, as pessoas sabiam exatamente que se elas não fizessem o que tem que ser feito, ninguém faria por elas e que o grupo era responsabilidade do grupo. O Gabriel e o Krohli (o dragãozinho) como crianças do grupo, são tidos como responsabilidade de todos. Me surpreendi de ver aquele cabeça de vento do Teo sendo parte efetiva de alguma coisa e fiquei feliz ao ver o Gabriel crescendo como um ser humano melhor do que eu e o pai dele. É gostoso ver um pedacinho de mim que cresceu dentro de mim e depois fora de mim sendo eu, só que melhor. Fui eu quem fez aquela coisa boa.

Uma mulher linda passou por mim, o nome dela é Lucinda, atrás dela, um fortão meio escroto, Tiago e o meu Teo. O Daniel me explica que eles estavam juntos, como um casal, os 3, mas que aquele era um ambiente poliamor, então, eu não precisava sentir ciúmes porque eu também poderia ficar com ela, ou qualquer um deles. Depois do meu silêncio pelo choque, ele começou a dar em cima de mim. Eu fiquei nervosa, o Daniel era um irmão pra mim, como eu poderia entender que entrar ali poderia significar ser mulher de todo mundo? E qual é o padrão ético de relacionamento romântico de todo mundo naquele lugar?

Logo se aproximou de mim uma mulher meio gorda, um tanto agressiva, começou a me chamar de quadrada e o Daniel a cortou, explicando que eu só tinha apego ao que tinha aprendido como script da felicidade, eu fiquei de bode dela, mas o Daniel falou que a Amanda é ótima, só não tem paciência. Ele ainda completou que o Tiago tinha alma de corno, o meu Téo era narciso, a Lucinda sempre tentava levar vantagem em tudo, ele era lerdo e eu era quadrada mesmo. Só que tudo funcionaria porque respeito e cuidado mútuo somado a consciência e responsabilidade davam conta do recado.

Eu fui atrás da Amanda, me assustei tanto com a modernidade da proposta que optei por colar naquela grossa. Gente grossa não se esforça pra agradar ninguém, e, normalmente, fala a verdade sempre. Ela foi estúpida comigo, claro, mas uma estupidez cuidadosa que me cativa. A Amanda é forte, bem resolvida, livre, criativa e intensa.

Eu, que ainda luto com uma determinação descomunal pra me livrar do ranço de menina de colégio religioso, converso com aquela gorda grossa tão dona de si e me dá raiva. Raiva de eu não conseguir ser igual. Raiva de achar que eu tinha evoluído tanto, o que não é mentira, mas de saber que eu ainda tenho muito a evoluir. Eu já descobri que estou apaixonada por ela, e está difícil de conviver com o ciúme. Cada vez que eu começo com o nhem-nhem-nhem, ela para de falar comigo, por isso estou sozinha, não consigo nem chamar a atenção dela. Me “enturmar” tem sido difícil. Espero que me acostume logo com tudo isso. Se a gente acalma o julgamento, vê que a comunidade não tem nada de errado. O problema está no quão enraizado um preconceito é, e o meu próximo passo está em me libertar dele.

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