roda_gigante

Enlaces Literários era uma cidade fantasma. O que fora um dia a promessa de uma grande metrópole das letras era agora um amontoado de ruínas, habitado somente por seus pioneiros: sete pobres e atormentados zumbis e um suposto fantasma, que na verdade ninguém sabia ao certo se existia mesmo. Muitos afirmavam nunca o terem visto. Os zumbis vagavam pelas ruas da cidade poeirenta em busca de alimento. Passavam os dias e as noites em eterna agonia atras de personagens, em vão.

Quando a cidade foi fundada os oito eram pessoas que, de longe, pareciam normais. Sonhavam em morar em um lugar paradisíaco, onde pudessem conviver com personagens, criar histórias para eles e serem felizes para sempre. Viviam em comunidade no início. Eram contra a propriedade privada e tudo o que era de um era dos outros. Os personagens eram de todos. Um escrevia uma história, o outro se envolvia e continuava. Viviam enlaçados uns nos outros. Uma verdadeira orgia literária. Que atraía muitos voyeurs, seus leitores.

Foram felizes assim por um tempo. Mas, como todo sonho tem um fim, não durou muito o mundinho perfeito deles. Os conflitos começaram a aparecer. Primeiro, o João sumiu misteriosamente. Reza a lenda que morreu tentando criar a história perfeita e que seu espectro ronda a cidade até hoje, sem descanso. E ficaram somente sete, infelizmente o número do azar, o que desencadeou uma série de acontecimentos ruins. Começou com a Leide, que triste pela morte de João, só conseguia escrever sobre depressão. Parece que não deu muito ibope e os personagens começaram a ficar com medo de participar de histórias que ninguém queria ler. Alguns começaram a ir embora. Diziam que era nisso que dava dar chance à escritores iniciantes.

A cidade era pequena e sobrevivia de visitas dos leitores. Por isso deveria estar sempre bem cuidada e atrativa. Era isso o que vivia dizendo Bruno, que se incumbiu de ser o zelador e patrulheiro da cidade. Cobrava dos outros que também cuidassem dos jardins, plantassem mais ideias, mostrassem aos leitores como a cidade era bonita. Isso começou a irritar os outros escritores, que pensavam  que o sucesso já estava garantido, que só deviam gozar. Maurício por exemplo reclamava que já tinha muito trabalho para criar histórias, que não era jardineiro. Lucas e Luli não se manisfestavam, preferiam se ocupar com coisas mais agradáveis. Camila vivia a suspirar e sonhar com Hollywood. Leide tendo crises existenciais. E Lops tirava onda de celebridade. E assim Bruno se sobrecarregava com todo o trabalho e se sentia o camelo, enquanto sonhava em ser o leão. As discussões eram constantes e às vezes na frente dos leitores. Começaram a escrever textos cada vez mais violentos. Usavam os personagens para projetarem suas frustrações e sentimentos hostis uns pelos outros.

Mas a gota d’água mesmo foi quando apareceu na cidade uma nova personagem, uma tal de Lucinda. Foi trazida pela Camila para um de seus contos. Virou a queridinha dos outros. Todos a queriam em suas histórias. Os outros personagens começaram a se sentir secundários. Fizeram uma reunião e deliberaram. Se os autores não dessem  igual importância a todos, se a Leide não escrevesse sobre outra coisa que não baixasse o astral da cidade e afugentasse os leitores, se o João não aparecesse ou sumisse de vez e parasse de dar uma de personagem, se a Luli não parasse de contar o final nas últimas linhas, deixando-os feito baratas tontas a história toda, se o Bruno não parasse de exigir tanto deles, se o Lucas não participasse mais das festas, se o Maurício não parasse de obrigá-los a trabalhar com dragões (sobre isso os dragões discordaram e foi difícil apagar o fogo), se o Lops… bem, sobre o Lops não tinham o que falar.

Nenhum dos autores deu importância às reivindicações dos personagens. Acharam que era só faniquito de estrelas. E eles já tinham seus próprios faniquitos. Seguiram suas vidas. Tentando apaziguar os conflitos e criando histórias sobre Lucinda. Nem perceberam que a cidade foi se esvaziando. Menos o  Bruno, que  percebia o número de visitas caindo. Tentava avisar aos outros, mas ninguém o ouvia, achavam que ele já estava neurótico. Bem, a Leide ouvia, mas não se consegue atrair visitantes com tristeza. Lops estava ocupado demais com a fama para perceber que as coisas não iam bem. Lucas imaginava que a cidade se esvaziando era só mais um efeito fantástico, que na verdade os leitores estavam ali, mas em outra dimensão. Camila e Maurício estavam a essa altura viciados no mundo virtual e pensavam ter um emprego no mundo dos leitores e viviam ocupados. E Luli era hiperativa demais para conseguir se concentrar no problema.

Até que Lucinda se viu sozinha com os autores. No início sentiu-se muito vaidosa com a ideia. Mas quando percebeu que havia sobrado também um dragão, que não tinha para onde ir porque era filhote e os escritores preferem os adultos e que teria que trabalhar só com um filhote de dragão viscoso, achou que já era demais. Era uma personagem dramática, estava ali para grandes papéis, pensou. Teve um ataque, quebrou tudo e foi embora de salto quinze. Parece que ela foi para Curitiba, procurar Dalton Trevisan. E o dragão, sentindo-se rejeitado, fugiu de casa.

Quando os autores acordaram num grande meio dia de ressaca dramática para a realidade, já estavam sós, sem personagem algum. Cada um culpou o outro pelo desfecho. Aos poucos leitores que ainda  vinham, eles não sabiam o que dizer. Por um tempo disseram que a cidade estava em reforma. Seguraram essa desculpa até conseguirem resolver. Tentaram resolver. Postaram anúncios, fizeram ofertas, mas nenhum personagem quis voltar. Foram definhando.

Sem escrever, sem público, praguejando uns contra os outros, sem festas, sem orgias… morreram de fome. Mas como eram autores não podiam morrer de fato. Estavam condenados à existência eterna. Mesmo que ninguém os quisesse ler mais, não podiam simplesmente ser apagados da história. Tinham que permanecer na cidade, à disposição. Era um castigo grande demais para pouco crime. Vagar eternamente em busca de personagens, sem poder ter o merecido descanso.

Cada um procurava um meio de passar o tempo. Luli cuidava de cãezinhos imaginários enquanto falava sozinha. Lucas e Mauricio jogavam RPG nas ruas desertas. Camila elaborava planos para dar um fim a tudo. Leide passava os dias na cama, esperando que um personagem acordasse ao seu lado um dia.  Bruno planejava a revolução. E Lops ainda vivia como celebridade, não admitindo a derrota para ninguém.

Até que, num dia quente e desolador, estavam em suas casas maldizendo a vida eterna, quando sentiram um cheiro diferente no ar. Olharam pelas janelas embaçadas da cidade. Não havia nenhum leitor observando. Não era mesmo cheiro de leitor, conheciam bem aquele aroma…Só podia ser isso! Correram ao mesmo tempo para a rua principal e cada um praguejou dentro de si o fato de todos terem percebido também. Lá longe, no fim da rua, havia um vulto. Era um personagem! Tudo voltaria a ser como antes!

Entreolharam-se , como num duelo, segundos antes de darem a partida em direção ao prêmio. Lops pensou em não se rebaixar, mas sucumbiu ao desespero também. Rotos e coxos, quanto mais tentavam ser rápidos, mais eram patéticos. No percurso, um tentando derrubar o outro, tornavam-se mais patéticos ainda. Enquanto corriam cada um ia pensando nas histórias que iriam criar. À medida que iam se aproximando e o vulto ganhando vida, seus olhos ficavam mais incrédulos ao perceberem que na verdade, o personagem tão desejado e procurado por tanto tempo tratava-se apenas de uma criança.

Uma menina, de no máximo três anos. “Pura inocência e esquecimento”, de vestidinho rodado e lacinhos no cabelo. “Uma roda que girava sobre si mesma”, girando o rostinho, olhando cada um deles nos olhos e perguntando se queriam brincar. “Um brinquedo, um movimento, uma santa afirmação” em meio à negação. Os sete boquiabertos e paralisados não tinham reação alguma. Suas esperanças de finalmente voltarem a criar caiam por terra. Voltaram as costas para aquele rosto sorridente e arrastaram-se de volta à suas casas em ruínas, arruinados. Queriam tanto um personagem!…O que fariam eles com uma criança? O que poderiam fazer com ela? Não perceberam.

Nota: os trechos entre aspas foram retirados de: “Das três transformações- Assim falava Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche.

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