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A Grande Biblioteca de Alexandria, de O. von Corven.

– Ó Musas, protetoras das ciências e das artes! Derramai sobre mim vosso néctar de puro saber e beleza! Louvai aquele que sob grandes perigos e privações salvou sua gente da danação e da ira dos deuses!

– …

– Cantai o heroísmo varonil do gigante virtuoso e magnânimo que sobre seus ombros carregou o mundo e, nele, a espécie humana, para seu acidentado e glorioso destino!

– …

– Exaltai em fanfarras os feitos do poeta que, com alacridade trágica, iluminou os caminhos de um povo rumo a uma Nova República de virtude e enlevo d’alma, liderada pelos mais nobres de espírito e letras, a Nova Idade de Ouro!

– …

– Musas! Musas!!! Calíope, Clio! Melpômene, Talia! Euterpe, Terpsícore, Érato!!!… Polínia? Urânia?… Ó Musas, não me abandoneis! Há séculos tento em vão narrar uma epopeia digna deste gênero defunto! Um conto imortal, heroico, fantástico! Ao mesmo tempo divino e humano! Como, Ó Musas? Como hei de inspirar a humanidade a despertar em si o que há de mais sublime nela mesma, se nem vós concedeis a este vil e reles poeta a graça da inspiração? Como, Ó? Como??? Não vedes que é o próprio destino da humanidade que está em linha, vagando a esmo pelas terras do hedonismo, da licensiosidade, do prazer fugidio, da apologia romântica e individualista dos tempos modernos? Eu imploro, Ó Musas! Vinde! Vinde ao menos uma de vós! Aparecei e ajudai este humilde servo da virtude! 

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Trinity College Library (Dublin, Irlanda)

– Arre, cala-te! Não vês que em teu palavrório inútil abafaste o sonido da campainha? Não, não te levantes! Exaltado como estás, capaz de passares em plena sala, não quero este fardo para mim! Descansa, recobra o ânimo. Toma, bebe um pouco d’água! Isso, respira fundo enquanto eu abro a porta. Mas quem vejo eu aqui? Muitas boas-vindas!

– Boa noite. Como estão?

– O de sempre… Ele, invocando as musas. Eu, tentando domar meus pensamentos.

– Bah! Deve ser difícil conviver com ele… O tempo todo com seus feitos grandiosos em linguagem rebuscada, falando de deuses e mitos… Não sei como você aguenta!

– Eu o estudo. Tenho um bom sentimento sobre ele. Sinto que ainda me renderá uma boa história!

– Qual o quê! Teu gênero é ultrapassado, ninguém mais quer te ouvir, e você ainda acredita que a vida de um velho babão que vive chamando por umas peruas que nem dão bola para ele colocarão sua carreira nos eixos?

– Nunca vou entender essa tua linguagem, como te expressas… Cheio de erros de concordância, linguagem coloquial… E ainda assim tuas palavras são ouvidas por toda a província!

– Província? Nunca ouvi falar nessa palavra. Me ouvem porque eu tenho algo a dizer. Porque falo no mesmo idioma que eles. Não sou apenas uma voz recitando palavras pela sua musicalidade. Não tenho pretensões artísticas. Mas não pensei que a inveja fosse um sentimento digno de você.

– Não existe sentimento que me seja indigno, desconhecido ou alheio. Tudo que é humano me interessa. Somente assim pude desencavar a fundo o que de mais obscuro encerra sua alma, e dali extrair a mais pura beleza.

– E olha como terminastes… No mais obscuro esconderijo, em meio ao esquecimento, na companhia de um poeta ridículo… Os dois, impotentes, pela eternidade.

– Impotente? Talvez. Mas um dia fui um ser criador! O mais poderoso, o mais aclamado, o mais ousado. Aquele em cuja mente habitavam indivíduos fascinantes, não pelas suas façanhas, mas pelas suas facetas! Não, não eram falsários, eram apenas seres humanos, demasiado humanos.

– E, no entanto, caiu em desgraça entre os verdadeiros humanos.

– É verdade… É triste… Todos que me amavam, os que me liam, que acorriam para as bancas e prateleiras e passavam sôfregos pelas folhas, ávidos para sorver de minhas obras… Sobretudo aqueles que me tinham como referência, paradigma das artes! Todos estes não apenas me abandonaram, mas abjuraram de mim! Passaram a culpar-me pelos erros da história, ou confundir-me com o autor. Pior que isso, passaram a execrar-me os modos, as palavras e a obsessão pela mente e pelo detalhe! Como é aquele termo que sempre usam…? Psicologismo! Eu, a quem um dia exaltaram como mestre do drama psicológico! Relegaram-me ao psicologismo! Sou figura em extinção, não encontro emprego. Sou, de fato, nos tempos hodiernos, tão obscuro quanto as musas do poeta.

– Te odeiam porque você tudo sabe. É onisciente. Seu texto é inequívoco. Suas palavras devem ser tomadas pelo valor de face. A isso não perdoam. Menos ainda seu olhar privilegiado sobre tudo aquilo que eles, os outros, querem esconder. E seu olhar, não tão alto como o de um deus que eles possam idolatrar, nem ao rés do chão, que eles possam chamar de igual. Eles podem ser humanos. Você está além do humano, e por isso não foge mesmo àquilo que amesquinha aos homens. E às mulheres, claro. Mas não se mistura. Isso lhes soa como arrogância, como uma dupla denúncia de sua fraqueza de caráter, sua fragilidade, sua mortalidade. Você lhes lembra o que eles querem esquecer, atira nas suas caras que são uma espécie que deve ser superada. Foi por instinto de sobrevivência que eles te mataram.

– Recordo-me quando um crítico, pela primeira vez, chamou-me de onisciente. Confesso-te, à primeira leitura, isto envaideceu-me. Só depois me apercebi… Aquele era o começo do fim.

– Mas também, não te lamurie tanto. Você teve seus bons momentos, ainda há muitos arcaicos por aí que te admiram. Você pode não ter emprego, mas com um pouco de parcimônia, pode viver de renda…

– Quão humilhante, para um como eu, que sempre ousou construir o futuro. Que mesmo ao narrar o passado, não o fazia para enaltecer, como este aí, que enlouqueceu… Era minha paixão incitar o novo, cortar as amarras…

– Musa! Ó Musa! Volta! Volta para o abrigo daquele que outrora acalentou-a com tanto zelo!

– Cala-te! Não percebes que estou no meio de uma conversa? Guarda teus demônios para ti mesmo! Como pode haver virtude onde só grassa a insanidade?

– Clio, porque me abandonaste? E tu, Melpômene, de quem um dia fui amante voluptuoso? Ah, com que nostalgia recordo-me das noites que passamos, narrando Eros e Narciso!

– Já dou um jeito em ti, velhaco!

– Para! Deixa o pobre! Descontrole das paixões, isso sim! Só quem te conhece a fundo sabe que este é o teu problema. Toquei a campainha e nem vieste me atender.

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Beinecke Rare Book and Manuscript Library (Universidade de Yale, CO, Estados Unidos). 

– Tu! Dá cá um abraço! Que saudade! Estávamos mesmo a falar das paixões…

– Ah, a paixão!

– Sim… Eu sempre me deixei apaixonar. Como me envolvi com aqueles personagens minúsculos, o homem diante da lei, o cigano enamorado, o pároco que confronta o burguês avarento, a mulher senhora de seu destino… E até, no meu íntimo, aqueles sórdidos fantasmas, ladrões e assassinos. Eu os amei a todos!

– Mas não o deixou transparecer, como eu. Não veio de público, não os celebrou! E o público deixou de se encantar por eles, e por fim, deixou de se encantar por ti!

– Nunca entenderás! Teus tempos são outros.

– Eu fui, um dia, vanguarda…

– Mas também caiu no esquecimento! Hahaha! Te tacharam de não-confiável, zombaram de seu envolvimento emocional com os personagens, te chamaram de pedante, de quem queria dizer ao leitor o que sentir, o que pensar.

– Meu reinado foi breve, mas ilustre.

– E teu orgulho, tamanho, que não te contentaste em narrar em primeira pessoa! Mal te apercebeste, lá estavas, um dia, como personagem principal da história!

– Bobagens! Todos vocês vivem de passado. São relíquias de museu, terras devastadas, memórias apagadas. Eu vivo num eterno presente. Eu mostro ao povo o que ele realmente quer ver: a perversidade, a depravação. Eu permito a ele encenar aquilo que todos – TODOS! – querem, secretamente ver, fazer e sentir. Não, eles não temem, nem fogem da podridão. Eles são seduzidos por ela. Eles sonham com ela. O que temem é a punição, a culpa, mas eu os liberei destas! Pois eu lhes mostrei que a sua decadência é geral, que a virtude é um mito, e que a integridade é, de fato, sinal de fraqueza. E isso lhes satisfaz.

– Com que desgosto ouço-te dizer estas palavras! Consideras profundo e subversivo proferi-las? Estás a venerar a mesma violência e corrupção que sempre moveu a espécie humana. É papel do artista não ceder a tamanho desespero.

– Hahahaha! Já te disse, não sou artista! Não vê? Você é meu avô, pai e mãe! Irmão e irmã! De você aprendi cada lição, sobre o que é a arte, a narrativa, o homem! E a mulher… E derrubei todas as suas normas estéreis, e o que sobrou foi o meu engenho e o amor que o público me devota, pois eu dou a ele exatamente o que quer – a escuridão sem floreios em que ele habita.

– Ou chafurda! Mas deixemos disso… Não cabe ao narrador ditar a interpretação do público… Somos seres perdidos entre o argumento do autor e o sentimento do leitor… Não importa se somos épicos, oniscientes ou personagens inconfiáveis. Nascemos por uma faísca de exaltação, e logo mergulhamos na vida eterna, este é o nosso castigo.

– Um dia vamos desaparecer.

– Arre! Que otimismo da tua parte dizer isso! Mas se aprendi algo sobre ti, é que tuas palavras não têm lastro. És incofiável! Hehehe.

– Não, escuta-me. Certo dia fui ao cinema, e foi uma experiência surpreendente. Não entendia o idioma, estava num país estrangeiro. Isso me frustrava a princípio, depois tive sono, mas então abstraí o som e concentrei-me nas imagens. Ouçam-me: o narrador e a palavra são supérfluos, não se necessita deles para contar uma história. Percebê-lo deixou-me em crise de consciência. Antes, ainda tinha meu orgulho, mesmo que todos me tivessem esquecido. Agora, nem isso. Somos artesãos cujo ofício sempre foi inútil.

– Mas toda arte é inútil! Somente por isso ela pode ser o que é: bela. Bela, mesmo quando o que desvela é a torpeza de um século.

– Balelas. Vamos encarar os fatos: a narrativa está morrendo. Desconfio que jamais existiu. Ou melhor… Num mundo onde tudo é narrativa, ninguém precisa de vocês. Nem de mim! Estou aqui apenas para fazer figuração, ocupar uma brecha, antes da Grande Noite cair sobre todos nós.

– Que conforto, sabê-lo: um dia também cairás no limbo. Mas que antes da Grande Noite, venha o Grande Meio-Dia. Agora, vamos cear…

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Fonte das imagens: Wikicommons

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