Pre-Boris1

– Olá! Senhor… Manhoso? – pergunta com uma risadinha o recém-chegado, lendo na prancheta a ficha do homem que esperava na salinha.

– Ahn… Bem… por favor, poderia me chamar pelo primeiro nome? – retruca o que esperava, meio constrangido.

– Ah, tudo bem. Senhor… Leopoldo? – corrige o homem da prancheta.

– Isso, obrigado – responde, aliviado. – Prefiro assim.

– Ok! Então, é um enoooorme… e giganteeeesco prazer conhecê-loooo e dar as boooaaaaaaas vindas ao estúuuudioooo! – anuncia, grandiloquente e fajuto, como um apresentador de circo, de TV ou de bingo… Mas sem convencer muito.

– Ahn, muito agradecido. Hehe. – Responde, meio estranhando e novamente constrangido. Mas agora por vergonha alheia, pelo menos. – E… e o senhor, como se chama?

– Opa, desculpe! Esqueci. O meu nome é Bóris. Eu sou narrador-sênior das histórias aqui no estúdio.

– Nossa! Então você deve ser alguém muito importante!… – surpreende-se Manhoso, aliás, Leopoldo.

– Hehe. Bem, também não é pra tanto assim… – Bóris finge constrangimento por humildade, mas sem convencer muito. Acaba é, com sua pose, parecendo mais empolado e orgulhoso ainda. E desajeitado. – Acontece apenas que eu trabalho aqui já faz muito tempo. Muitos anos, sabe? Aí é só o título que a gente recebe quando chega a essa experiência. Caham.

– Aaah, interessante – responde Leopoldo, tentando demonstrar admiração, mas também sem convencer muito. A pose sem saber se humilde ou empolada-orgulhosa do anfitrião lhe deu uma desanimada quanto ao prestígio real do tal Bóris.

– Pois bem! Mas não é sobre mim que viemos falar hoje, mas sobre a sua nova função, não é mesmo? – retoma o anfitrião, de repente se lembrando do que foi fazer lá.

– É, imagino que seja mesmo isso – diz Leopoldo, já ficando arrependido por estar ali.

– Em primeiro lugar, o senhor deve se orgulhar por estar aqui. São poucos os que recebem convites para trabalhar aqui! O senhor deve ser muito talentoso!

– Eu? Talentoso? – respondeu rápido Leopoldo, com expressão olhos-arregalados-cara-de-idiota.

– É claro! Como não? Este estúdio é um dos mais prestigiados desta dimensão! – emendou Bóris.

– Heim? Desta dimensão? Como assim?

– Oras, vai dizer que o senhor não sabe que estamos na Dimensão da Criação Literária? – responde Bóris, meio indignado.

– Estamos? O que é isso?

– É uma dimensão em que se cria literatura.

– Ah.

– Seu bobinho, deixa eu tentar te explicar melhor então. Pelo visto ninguém te explicou nada mesmo, né?

– Não.

– Esses patifes. Bem, é o seguinte. Vamos começar do começo. Dimensão. Sabe o que é uma dimensão?

– Não.

– Dimensão é como se fosse um lugar. Um lugar beeeem grande onde ficam as coisas.

– É… como se fosse um país?

– É algo assim, mas ainda maior que isso!

– Um continente?

– Mais!

– Um… um… um planeta?

– Ainda mais!

– Eta! Sabe como é, seu Bóris, eu não entendo direito dessas coisas não. Sou gente simples. Nem sei as palavras pra coisa assim tão grande. Maior que planeta? Vixe!

– Olha, senhor Leopoldo. É assim. Uma dimensão é um negócio tão grande, que pode até caber mesmo mais de um planeta na dimensão!

– Nossa! É grande mesmo!

– E o mais interessante… é que as pessoas de uma dimensão geralmente não conseguem saber o que está acontecendo nas outras dimensões. A maioria das pessoas, na verdade, nem sabe que outras dimensões existem!

– Ufa! Então quer dizer que não sou tão burro assim?

– É claro que não é burro, senhor Leopoldo! Pelo contrário, o senhor é muito talentoso, se veio parar aqui, lembra?

– Ah, é.

– Pois bem. Só que esta dimensão é especial! Nesta dimensão nós podemos saber o que acontece nas outras!

– Eta!

– E isso é extremamente necessário para nós. Isso faz parte de nosso trabalho. Porque nós aqui trabalhamos com a criação de histórias! Histórias literárias, para ser mais exato.

– Puxa. Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?

– Oras! É que daqui nós observamos outras dimensões, onde as histórias acontecem! E as narramos!

– Narram?

– É! Contamos e gravamos as histórias! Não qualquer uma, é claro! Mas os nossos aparelhos nos ajudam a selecionar as melhores histórias para enviar para os livros que são publicados na Dimensão do Mundo Real!

– Poxa.

– E é com a ajuda de gente talentosíssima como o senhor que temos livros cada vez mais incríveis indo para as livrarias do Mundo Real!

– Ixe!

– Ixe o quê, senhor Leopoldo? Não me venha de novo com esse papo humilde, por favor…

– Não é papo humilde não. É que tá vindo um negócio esquisito aí atrás de você…!!!

Pre-Boris2

Bóris vira-se e dá de cara com uma geringonça eletrônico-mecânica que parece uma aranha gigante colorida, com o dobro do tamanho do narrador-sênior.

– Aaaaaaaaah! – Espanta-se Bóris – Aiaiaiai! Corre, Manhoso!

– É Leopoldo…!

– Tá, tá, mas vai, corre!

Os dois entram no corredor que dá pela porta oposta ao que a aranha-colorida-gigante tinha entrado. E correm.

“Ai, caramba, o que será isto?”, pensa Bóris, aflito e envergonhado de não receber bem o novo empregado do estúdio.

De repente, diante deles, vindo de um novo corredor pela direita, aparece uma moça. Com cabelos compridos, luvas grossas e compridas até quase os cotovelos. Um tanto mais alta que Bóris, aparentemente bem menos sênior que ele, mas com muito mais jeito de esperta.

– Nita? – Gritou Bóris, preocupado. – O que você tá fazendo aí? Cuidado! Tem uma aranha mecânica colorida gigante aqui atrás!

– Vai ficar tudo bem agora, Bóris. – diz ela. – Calminha. – E finaliza o discurso, firme, com uma piscadinha para ele. Ou seria para o novo funcionário? Nem Bóris nem Leopoldo tinham como saber.

Ela arremessa uma pequena bola escura, que parece piche na direção deles, que ficam meio desesperados. Mas a bolota, que parece teleguiada, avança e vai se abrindo, na direção da aranha. O objeto se abre até ficar com o formato de uma teia, que cai sobre a aranha e a imobiliza.

– Ufa! Nita, o que foi isso?

– Bem, esse é o meu novo desfibrilador-fundidor-de-velhas-histórias-para-formar-novas-histórias, Bóris. Você sabe, é muito difícil achar boas histórias. Então as antigas precisam ser sempre remodeladas.

– Mas por que o seu desfibrilador etc. precisa ter o formato de uma aranha gigante tão perigosa, Nita?

– Bóris, Bóris. Tadinho. Você não entende mesmo o meu processo de trabalho. Um dia eu te explico melhor, mas é muito complicado pra você entender agora, ainda mais que…

Nita é brutalmente interrompida por uma voz irritante e irritada chegando pelo corredor à esquerda:

– EI, EI, EI!!! Que bagunça é essa?

– Chefinho? – Respondem Nita e Bóris, este com um tom de voz mais sumido e medroso, aquela com um tom mais charmoso.

– O que é que vocês estão fazendo aqui? Vamos trabalhar! Bóris, você não tem histórias atrasadas pra narrar? Nita, você não devia estar cuidando das inovações técnicas no departamento? O que é esse trambolho enorme de oito patas ali no chão? E esse outro trambolho aí do seu lado, Bóris?

Leopoldo, ofendido, ia dizer algo, mas…

– Este senhor do meu lado é o Manhoso, chefinho… – Responde Bóris, respeitosamente e tentando consertar o tratamento do chefe. –  Ele é novo funcionário, encaminhado pelo Carlitos, e eu tava contando pra ele sobre as coisas do estúdio, mas aí…

– Rá! Manhoso, heim? – Ri o chefe, com cara de mau. – Carlitos, heim? Você vai ter muito a aprender aqui!

[Prólogo para “A Menina que Ouvia Demais”, pequeno romance do mesmo autor escrito a partir de 2010 e previsto para publicação em 2014 pela Editora Multifoco. Não perca as outras aventuras de Bóris e sua turminha do estúdio em seu super épico livresco multidimensional!]

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