Fonte: Wikimidia Commons
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acabou não fazendo muita diferença. R. foi convocado a assumir um cargo administrativo em um escritório aos vinte e três anos de idade. Se bem que convocado talvez não seja o termo certo, tendo em vista que R. não recebeu nenhum comunicado ou memorando o informando que ele deveria abandonar toda a esperança e se apresentar nos portões do escritório. Um dia sua mãe foi ao trabalho, e não voltou de lá – o que não era incomum, dada a natureza inerentemente caótica da sua função.

Quando essa ausência passou dos três dias, todavia, a família R. começou a temer pelo pior. Alguns dias depois um pedaço de papelão com palavras cortadas a estilete chegou na casa da família, confirmando a catástrofe.

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Seguindo as instruções do aviso, R. e a família juntaram suas coisas e partiram para o escritório na mesma noite. A cerimônia ocorreu por volta do meio-dia em um dos vários galpões do escritório, um lugar amplo e vazio que os estudiosos suspeitavam ter sido planejado para ser um hangar, mas que agora assumia o papel de mortuário naquela cidade sem cemitério.

O lugar não tinha nenhuma maquinaria ou enfeite, salvo a esteira central, criando um contraste bem vindo com a arquitetura da cidade, apesar de ser ligeiramente reminiscente da planície e do mar da região. Após um pequeno discurso por parte de um sacerdote, os falecidos em seus caixões de sucata foram postos na esteira e dragados para as entranhas do escritório.

A cidade não tinha nenhum cemitério. O destino final dos habitantes daquela região era uma incógnita tão insondável quanto a própria natureza do escritório. Os que tentaram seguir os caixões não voltavam. Na falta de indicadores, a maioria pregava para si mesma que os mortos da cidade eram levados para ser enterrados em outras terras ou reciclados para o bem do escritório – ainda que alguns cínicos temessem que eles eram simplesmente pulverizados nas entranhas do escritório.

Após a cerimônia, um pequeno sorteio se seguiu, e R. ficou para trás junto com os outros azarados. Um grupo de burocratas veteranos estava esperando por eles, e os conduziram às suas salas.

O escritório de R. era o mesmo em que sua mãe e seu avô e sua bisavó e incontáveis outros ancestrais haviam trabalhado, e estava uma bagunça completa. As paredes estavam cobertas de fotos, memorandos e outros papéis, fios formavam teias no teto e a cadeira e a mesa disputavam espaço com um cadeirão no meio da sala.

Ninguém explicou a R. qual seria seu papel na organização, até por que ninguém sabia o que devia ser feito. O trabalho no escritório, oficialmente, era de natureza burocrática, mas na prática ele possuía um aspecto extrativista. Pois como a cidade estava cercada por uma planície cinza e por um mar morto, seus habitantes não tinham escolha a não ser canibalizar o escritório para sobreviver.

O trafico de mantimentos da cafeteria e material de escritório era apenas a prática mais comum e menos lucrativa desse ramo. Havia também o cultivo e caça de outros alimentos, bem como a coleta de sucatas e máquinas. R. em particular usava uma receita de família para fazer sopa dos ingredientes disponíveis em sua sala de trabalho, que ele então vendia para seus colegas.

A cidade ao redor era inteiramente dependente do escritório, e o parasitava. A relação, todavia, era de duas mãos, de modo que não havia maiores rivalidades. Quando necessário, os agentes do escritório atacavam a cidade em busca dos recursos necessários, de qualquer maneira, o escritório tinha uma ameaça maior com que se preocupar.

Tão logo R. se viu em seu “cargo” – que consistia em vender sopa e assinar papéis que chegavam à sua mesa – ele tentou buscar informações sobre a origem do escritório.

Os burocratas de nível mais elevado tinham por tradição que o escritório tinha sido uma criação do governo e que, por extensão, a cidade tinha originalmente alguma função nobre – ou ao menos alguma função. Uma parcela mais fervorosa desse setor chegava a afirmar que o escritório já havia funcionado bem, mas decaiu após uma traição interna. Outros – baseando-se no fato que os pisos inferiores do escritório eram escavados na pedra – defendiam que o escritório já existia antes, e que o governo não fez nada além de assumir o lugar. Algumas almas mais febris chegavam a crer que o escritório era uma prisão. E por fim, havia aqueles que achavam que o escritório era um bastião contra o mundo externo – e não sem um pouco de razão.

Era verdade que nem a cidade nem o escritório pareciam ter sido projetados para atender às necessidades da vida, mas todo o terreno ao redor parecia ser ativamente hostil a todo o tipo de existência. Pois a cidade era cercada por uma planície dura e seca coberta por uma camada de cinzas e era banhada por um mar estagnado e cinza como o céu.

Não havia plantas na terra, aves no céu ou peixes no mar, e muito menos qualquer sinal de civilização. No passado houve tentativas de domar ou ao menos atravessar esses vazios, mas todas elas terminaram ou com os exploradores desistindo ou desaparecendo na vastidão cinza. Para piorar, as redondezas pareciam nutrir uma espécie de rivalidade cega contra o escritório e seus habitantes, como se a mera existência dele fosse uma afronta à sua paz silenciosa, e aos poucos mastigava o lugar com seus ventos e sua maresia. Essa erosão lenta, mas contínua e implacável, iria algum dia reduzir o escritório e seus habitantes às cinzas que recobriam toda a área.

A busca de R. parecia fadada ao fracasso. Todavia, em uma noite de inverno, quando ele repousava deitado em sua mesa, um grande “OI” o perturbou, tirando-o de seus sonhos inquietos e o fazendo cair no chão de susto. R. olhou em volta, e se deparou com uma garotinha que ria pela traquinagem. Ela agarrou a mão de R. com firmeza e o puxou do chão; falava com euforia, era preciso esforço para entendê-la, mas o que ela disse

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