– Toma, garoto.

– Hum? O que é isto?

– Vai te ajudar.

– Em quê?

– Cê vai ganhar super-poderes com isso.

– Rá! Como é que eu vou ganhar super-poderes com um livro? Livro é coisa de escola. E super-poderes é coisa de histórias em quadrinhos.

– Você que sabe. Tô falando que funciona.

– E por que você tá me dando?

– …

O menino Léo não soube bem o que fazer com aquele livro, que ganhou no sebo a caminho de casa, do estranho homem corpulento e bigodudo. Levar para uma biblioteca? Pedir a opinião de seu amigo Bernardo? Do pai? Da mãe? Da professora de Ciências?

Resolveu dar uma lida antes de mais nada. Ler não faria mal algum. Os pais sempre o ensinaram que a leitura dignifica o homem. E os meninos também. E que os livros iriam salvar o país. Alguma coisa assim. Então, tudo bem. Apesar que os pais sempre disseram pra ele não aceitar nada de estranhos. Ah… mas isso não deve se aplicar a livros! Ainda mais um que… rs. “Dava super-poderes”.

Ao folhear, dava pra ver que o livro era bem velho. As páginas estavam amareladas e com poeira. Tinha até umas beiradinhas comidas por insetos. Por mais que o garoto não acreditasse nesse papo de super-poderes, a verdade é que ele estava curioso. Ainda mais que havia várias estranhas e coloridas figuras no livro. Umas delas lembravam as aulas de geometria, com várias pontas e traços se cruzando. Outras lembravam livros de história, com índios, faraós, coisa assim. E outras… lembravam filmes de terror. Eram figuras escuras, com criaturas estranhas e deformadas, cheias de sombras.

“O que você tem em mãos é uma relíquia compilada por pessoas que se sacrificaram para preservar um conhecimento e um poder quase perdido.”

“Use este ritual para manter quem você deseja para sempre junto de você.”

“Abra as portas entre os mundos com estes sinais.”

“Com estas palavras, você jamais estará sozinho.”

O menino lia sorrindo as frases espalhadas pelo livro e não sabia se ria daquilo. Ou experimentava. Não teve como evitar de rir um pouco. Mas resolveu tentar alguns daqueles “truques”. Decidiu que, seja como fosse, não podia deixar os pais saberem daquilo.

Resolveu começar com o papo de “manter quem você deseja para sempre junto de você”. De fato, tinha uma garota, Andressa, de quem ele gostava muito. Mas tinha vergonha de chegar perto dela. Quem sabe isto ajudasse?

Em resumo, precisava de uma foto dela [que ele já tinha tirado sem ela perceber, com a câmera do celular…], escrever uns negócios numa folha, embrulhar tudo, falar umas palavras numa língua estranha, amassar tudo com as mãos, e então tudo devia dar certo. Ah, e tinha que deixar um pedacinho disso com ela. Putz. Isso parecia difícil. Ela ia achar ele um maluco. Mas quem sabe, se ela não reparasse?

Bom, isso só daria pra fazer depois. À noite, deixou pronta em casa a primeira parte do tal “ritual” pra Andressa. Sua querida e linda Andressa. E na escola, no dia seguinte, completaria. E resolveu tentar ainda outro truquezinho. Afinal, estava curioso se alguma coisa disso tudo ia funcionar mesmo.

“Abra as portas entre os mundos com estes sinais.” Isso era estranho. Mas o que não era estranho neste livro? Só que, além de estranho, não dava pra entender direito. Ah, que fosse. Mal não ia fazer. Sempre ouvia as pessoas usarem essa expressão, “abrir as portas” como uma coisa boa, que traria paz entre os povos. Então também podia ser uma boa experimentar.

Só que desta vez não bastavam sinais numa folha. Eles precisavam ser feitos em uma superfície vertical. Como as portas, né? Elas também são verticais. Mas… onde ia ser? Na parede não podia ser. Senão sua mãe ia ficar doida com ele. Dentro do guarda-roupa? Só se fosse. Mas como ia escrever lá? Ah, seja onde for, era só escrever numa folha e deixava lá com durex. Os sinais… pareciam de uma língua muito estranha. Japonês? Árabe? Egípcio? Sei lá. Mas foram feitos, na medida do possível. E ficaram no guarda-roupa. E Léo terminou com as palavras para “jamais ficar sozinho”. O livro dizia pra esperar dois dias. Assim seria feito.

*

Na escola, na manhã seguinte, era a hora de testar o lance do livro na Andressa. E lá foi o garoto. Tinha levado só um pedacinho do papel que tinha amassado com uma foto dela. Se qualquer pedacinho bastava, ele pegou um pedaço em branco mesmo. Mas como deixar isso com ela?

O menino começou a se sentir idiota por se preocupar tanto com essas besteiras de um livro maluco. Mas, agora que tinha começado, iria até o fim. Pensou então em levar o tal pedacinho pra carteira dela, na hora do intervalo. Se ficasse no estojo dela, estaria “com ela”, certo?

E assim fez.

– Ei! O que você tá fazendo aí?

Alguém perguntou, logo depois de Léo ter cumprido sua missão secreta e idiota. Era Marta, amiga de Andressa.

– Eu… Só tinha esquecido uma coisa – respondeu ele, bobamente.

– Sua carteira não é pra esse lado, tonto.

– Puxa, é mesmo, né? Acho que eu tô meio com sono ainda, hehe.

Pronto. Cumpriu as instruções. Agora era só esperar, pra ver se alguma coisa ia acontecer de diferente. Vai que acontecia um milagre?

Ao voltar pra casa, encontrou no seu quarto, em sua mesa, alguma coisa diferente de fato. Uma bonequinha. Será que isso era brincadeira de alguém, querendo tirar uma com ele? E a boneca era parecida com… a Andressa! Na verdade, era muito parecida, era igualzinha à Andressa. Linda e doce como ela. Isso não fazia sentido. Pensou em perguntar aos pais se alguém tinha colocado a boneca no quarto dele. Mas achou melhor não. Podiam achar graça daquilo, de ele ter uma boneca. Ainda mais, com a cara da menina que ele gostava. Resolveu esconder.

*

Na escola, no dia seguinte, não achou Andressa. Marta, a amiga dela, estava visivelmente abalada, como se tivesse chorado muito. O garoto foi perguntar a ela o que aconteceu.

– A Andressa morreu – respondeu ela simplesmente. – Eu nem sei como consegui vir pra escola.

– Morreu? Como? – retrucou ele, assustadíssimo e chocado.

– Não sei! Só sei que foi ontem, indo pra casa! Parece que os pais acharam ela caída no caminho de casa. Sem respirar nem nada…- Marta interrompe-se. – Olha, eu vou embora. Não tô aguentando ficar aqui.

O menino não podia acreditar. Será que ele tinha alguma coisa a ver com isso? Ele e aquele livro? Não podia ser. Pior que ele nem podia ir ao velório. Ele não era assim tão próximo dela pra isso. Só em seus pensamentos…

Mas caramba! Se fosse por causa do livro, Léo tinha feito aquilo pra ficar com ela pra sempre! E não perdê-la logo de uma vez! E o menino chorou. E foi ao banheiro chorar mais, muito mais.

Quando chegou em casa, foi procurar a boneca que tinha cara da Andressa. Ele tinha deixado no armário de brinquedos, com os bonecos de super-heróis e animê. Ela estava lá. Claro que estava. Onde mais estaria? E a boneca deu uma piscada para ele, com o olho esquerdo. Assustado, o menino fechou a porta do armário. E tentou desistir de pensar nela. Sem sucesso.

De madrugada, o menino acordou com um barulho. Parecia alguma coisa que tinha caído no chão. Era seu skate. E também o capacete. Os dois deviam estar em cima do guarda-roupas. Franziu as sobrancelhas, levantou-se, e os guardou de volta no lugar.

*

Ao acordar, Léo viu que a boneca estava na sua mesa de novo. Caída de lado, com os braços como que estendidos na direção dele. O garoto ficou aflito. Mas simplesmente guardou de novo a boneca com os outros brinquedos.

Foi se arrumar. Na hora de buscar os tênis, reparou que eles não estavam no lugar de sempre, perto da sapateira. Procurou, e encontrou perto da janela. Calçou e teve uma sensação bem desagradável. Estavam molhados por dentro. Mais do que isso, estavam é gosmentos. Urgh! O que era aquilo? O menino nem teve coragem de ver o que era. Tirou rápido os pés dali de dentro, botou as meias e os tênis pra lavar e foi buscar os tênis que tinha de reserva. Eram mais velhinhos, mas serviam.

Na escola, a morte de Andressa foi publicamente anunciada. Parece que a família não queria divulgar. Mas não teve jeito. Ainda mais que ela era uma menina até que popular. Assim, a classe foi toda convidada para ir ao enterro dela. O diagnóstico ainda não era claro, mas falava-se em infecção múltipla e parada cardíaca. Por mais estranho que fosse, não se conseguia entender a morte da menina, antes bastante saudável.

À noite, enquanto Léo tentava estudar um pouco no quarto, começou a ouvir um ruído. Parecia de algum animal estranho. Ou de uma pessoa mesmo, que já estivesse morrendo, em desespero. Um som que dava a impressão de vir profundo, tremido e abafado da garganta. O garoto levantou da cadeira e tentou saber de onde vinha o barulho. Era estranho. Tinha hora que parecia vir de perto da TV; mas quando chegava lá perto, já parecia vir de perto do guarda-roupas. E quando chegava lá perto, parecia vir de perto do armário de brinquedos. Ele ficou aterrorizado.

O garoto se lembrou dos “dois dias” que o livro mencionava. Já tinham se passado dois dias. Agora era o terceiro desde que ele fez o que estava lá escrito. Teve uma ideia. Foi ao guarda-roupas arrancar da parede interna o papel com os sinais que ele tinha desenhado lá! Mas não tinha mais papel lá dentro. No lugar, parecia que a madeira do móvel estava meio queimada.

Foi buscar o livro, então. Lá estava ele, junto com os materiais de escola. Enfim alguma coisa que não tinha saído do lugar sozinha. Foi ver se achava alguma coisa que cancelasse o que tinha feito. Não achou. Encontrou as palavras e gestos para “nunca mais ver alguém”. Ou ainda para “ficar com o coração de alguém”. Mas não achou nada parecido a cancelar rituais já executados. Ou mandar embora o que estivesse no seu quarto. Ou… trazer alguém de volta à vida. E se ele jogasse o livro fora? Não… provavelmente não iria funcionar.

De madrugada, acordou de novo. Agora era alguma coisa espinhuda e gosmenta que estava nas suas pernas. Doeu. E deu uma sensação de nojo horrível. Levantou e pulou da cama imediatamente. Estava com vontade de chorar. Estava com medo de voltar pra cama agora. Estava com medo de seu quarto. Foi dormir na sala.

*

Acordou. Era manhã de sábado. A mãe tinha ido viajar com uma amiga. Léo ficara só com o pai, que tinha que resolver coisas na igreja. O pai estranha que o filho tenha acordado na sala. Este dá a desculpa que estava mais fresco lá. O pai também estranha que o filho tenha arranhões no rosto. Nem o menino tinha reparado nisso. Não sabe o que dizer. Mas resolve:

– Ahn, acho que tava coçando e devo ter me arranhado.

Vai olhar no espelho. Eram feridas feias, como de unhas. Mas não deviam ser as suas. Era maiores e mais afiadas. Léo fica mais aflito e tem vontade de chorar de novo. Chora, sozinho no banheiro.

Volta ao quarto, na mesa estava a boneca de novo. Sentada, com um braço mais para frente. Aflito e perturbado, tenta ignorar. Vai pegar suas roupas no guarda-roupas para se trocar. Antes de abrir a porta, ouve de novo aquele som tremido e abafado de garganta cadavérica. Percebe que está lá dentro. Desiste de trocar de roupas e fica de pijama. Sai do quarto e vai pra cozinha.

O pai estava preparando o almoço. O menino vê uma sombra enorme atrás do pai. E o som de garganta cadavérica novamente. A sombra toma forma de Andressa. Enorme. Sangrando e de dentes quebrados. De beleza varrida, horrenda. Léo grita. Bem alto. Sai correndo para fora de casa.

– Léo?? O que aconteceu? – pergunta o pai, assustado e correndo atrás do filho.

No caminho para a porta que dá fora de casa, o menino sente pancadas, como que esmurrões. Não sabe bem do quê, não via mais nada. Só que sem dúvida aquilo estava doendo e deixando marcas roxas no seu braço, debaixo de seu peito e também no rosto.

Ao abrir a porta da casa, tropeçou, ou foi empurrado por alguma coisa, e levou um tombo. Ainda na garagem, vizinhos viram seu estado.

*

O pai é acusado de espancar o garoto. Os tipos de lesões, exceto os arranhões, além da situação vista pelos vizinhos, davam isso a entender. O pai é preso preventivamente e o menino fica com a mãe.

Léo tenta jogar o livro fora, assim como a boneca. Eles reaparecem em seu quarto no dia seguinte. Tenta procurar o homem que lhe deu o livro. Quem sabe o reencontrasse no pequeno sebo a caminho de casa. Não encontra. O sebo estava lá, mas ninguém sabia informar sobre aquele corpulento homem de bigode grosso.

Volta pra casa, sentindo-se perseguido por sombras. Em casa, a mãe está caída no chão, perto do sofá. Sem sinal de vida. O pescoço ferido, sangrando. O menino grita, chora e cai sem forças. Alguém toca a campainha. Toca de novo. E de novo. Léo acaba levantando e dá uma espiada pelo olho mágico da porta. Era o homem que lhe deu o livro. O garoto abre a porta disposto a socar o homem com todas as suas forças.

– Você!!! Por que fez tudo isso comigo??? – grita o menino, enfurecido e já batendo no homem.

– Calma, garoto. Calma. Eu não sabia de nada que poderia acontecer com você. Eu sou apenas o Mensageiro.

– Tudo é culpa suuuuaaa!!! – e o menino continua batendo no homem. – Você acabou com a minha vida!!!

– Eu não fiz nada disso. Quem fez foi você.

– Você me deu o livro!

– E você leu.

– Qualquer um pra quem você desse essa porcaria maldita ia ler! Se fosse tão idiota quanto eu!

– Errado. Aquilo está escrito em uma língua que nem existe mais. Ninguém consegue ler aquilo.

Nesse momento, Léo para por uns instantes. E questiona:

– Eu? Por que eu???

– Você é a reencarnação de um sujeito importante e bem antigo, garoto. E, apesar de não ser bem isso, uns chamariam de bem endemoniado também. Hehe.

– Que absurdo!

– Tô te falando. Deu pra ver que você tá realmente sabendo fazer os rituais direitinho.

– Sei nada! Eu fiz tudo errado!!!

– Como errado? Cê não arrancou a alma da menina que curtia… pra ficar sempre contigo?

– Quê?!?!?

– Cê não liberou passagem pra galera arcana conhecer aqui?

– Não sei de nada disso!

– Garoto, falta só capacidade de melhor interpretação pro seu lado. Também atrapalhou que cê fez muito ritual ao mesmo tempo. Assim fica mesmo difícil de controlar. Mas cê é um Soberano e vai se dar bem ainda. Cê é um dos Nossos. Vim te buscar pra se juntar à sua real Família.

– Eu não quero!

– Isso não é escolha sua.

– Vai embora!

– Não tem jeito. Tá destinado pra isso.

O menino se lembra das palavras e gestos do ritual “nunca mais ver alguém”. Executa rapidamente o ritual. E fica cego.

– Tá vendo? É melhor você vir comigo logo, antes que estrague mais alguma coisa.

O menino se lembra das palavras e gestos de “ficar com o coração de alguém”. O homem parece se assustar.

– Não! Isso não! – protesta ele desesperado, enquanto tenta interromper o garoto.

O coração do homem se destaca do corpo e se desloca até as mãos do menino.

*

O cadáver do menino foi encontrado em frente à sua casa. Seu coração estava arrancado e depositado em sua própria mão direita. Diante dele, estava outro corpo sem coração. O órgão caído perto do garoto.

Caído junto aos dois, o livro. Também caída, debruçada sobre o corpo do garoto, a boneca de sua Andressa querida.

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