O que vamos fazer amanhã?
O que fazemos todos os dias.
O quê?
Tentar dominar o mundo.
Legal! Pra quê?
Pra ver se ele melhora.
E como?
Para de encher e vê se dorme, Pink.

Pinky_and_the_Brain_by_predator_fan

Cérebro entra em uma das toquinhas da super gaiola-cidade que divide com nove outros ratos ex-moradores de laboratório, suspira, fecha os olhos e, pensando que desistir seria desertar, começa a meditar para dominar seu desespero.

A angústia que corroía Cérebro por dentro vinha da desesperança. Ele havia nascido e se desenvolvido num laboratório, cercado de cientistas bem informados, criativos, obstinados e malucos, de quem ouvia debates profundos sobre inúmeros temas o dia inteiro. A influência daquela gente sobre ele o transformou num rato determinado a dominar o mundo porque, como na visão daqueles cientistas, o mundo dominado por ele, seria um lugar bom. O conflito de toda sua vida se deu por ele nunca ter conseguido compreender porque ele estava trancafiado na gaiola com os outros indivíduos comuns, se ele era um dos gênios.

Um dia, do nada, outras pessoas, que não os cientistas, mudaram todos os ratos de lugar. O novo lugar parecia uma colônia de férias. A rataiada adorou as novas instalações. Tinha fonte, piscina, túneis, redes de balanço, rodinhas para se exercitarem, rampas de acesso para diversos compartimentos, escorregadores, tocas individuais, para dois, quatro, seis ou oito ratos. Comida à vontade e limpeza a cada 2 horas. Uau! Os ratos que outrora estavam no laboratório realmente não tinham do que reclamar. De uma gaiola metálica e fria para um resort! E realmente, a maioria deles estava eufórica. Mas não o Cérebro. Ele era um gênio, ele queria trabalhar, criar, desbravar, desenvolver. Pra ele, tanto fazia gaiola metálica ou resort. Ele era inspirado pela máxima “dominar o mundo”, e ter sua liberdade cerceada, mesmo que com todas suas necessidades básicas garantidas, incluindo, supostamente, diversão, o revoltava. A revolta era tão extrema, que ele não sabia se tinha mais vontade de exterminar os humanos, que os prendiam, ou os seus semelhantes, que, em sua maioria, comemoravam a “segurança”. A situação dele o oprimia mais ainda quando ele observada seu comparsa, o desmiolado Pink. O Pink era feliz. Se divertia com os humanos cientistas, depois com os humanos provedores do resort, com os ratos vagabundos aproveitadores e oportunistas que usufruíam felizes do tal resort e ainda conseguia se empolgar com os planos profundos de dominação e melhoria do mundo. Claro, afinal, quando o Cérebro olhava pro mundo, queria dominá-lo porque a verdade dele era, sem sombra de dúvida, a verdade certa. A verdade boa. A verdade justa. A verdade melhor. A verdade onde todo mundo encontra o equilíbrio, a dignidade e a decência, porque seguiu as idéias e instruções dele.

Era verdade que o Cérebro era “melhor” que os outros. Ele era racional, inteligente, culto, observador, correto, efetivamente comprometido com o benefício coletivo, todos o reconheciam como líder, se bem que, quando ele exigia comprometimento e trabalho de todos, eles recuavam nesse reconhecimento… o Pink sempre voltava, pois, apesar da desmiolice, ele sabia que deveria confiar no Cérebro. Tudo o que ele falava sempre fazia sentido… era meio estranho o aspecto absolutista, mas, tirando isso, as estratégias, táticas, metas e objetivos eram legítimos e consistentes. O Cérebro era coerente em seus posicionamentos e atitudes. Assim como os humanos do laboratório frio, assim como os humanos do resort divertido. Afinal, esses humanos simplesmente tinham objetivos ao cercearem a liberdade dos ratos, é verdade que objetivos bem diferentes já que o primeiro grupo usava os ratos para se sentirem bem com a humanidade por supostamente fazerem novas descobertas para benefício da mesma espécie e o grupo do resort cerceavam a liberdade para preservar os ratos dos perigos do mundo e então se sentirem bem porque conseguiram ser heróis de alguém.

Por tudo isso, por todos os questionamentos do Cérebro diante dessa situação. Ele meditava. Meditava pra se acalmar, para cessar as interrupções que o emocional causava ao racional e então poder pensar com clareza para decidir com firmeza. Embora ainda revoltado por estar preso, mesmo que preso num resort, mesmo que reconhecendo que preso num resort é bem menos horrível do que preso num laboratório, ele estava agradecido por ter uma toca individual para poder meditar.

A meditação daquele dia foi diferente. No momento seguinte ao da parada dos pensamentos, se deu uma revelação: um ponto em comum entre ele, humanos do laboratório, humanos do resort e tantas outras pessoas e animais que tinham a coragem de se movimentar para dominar o mundo de alguma maneira eram parte de uma comunidade energética. Havia um código sistematizado de rituais que os possibilitaria manipular os outros, abrir portas entre os mundos, nunca estarem sozinhos,  possuírem corações. Todos conectados por uma linguagem específica e codificada só deles. Todos sob um fardo pesado da responsabilidade do conhecimento. Todos sem acordo moral comum. Todos violentamente conflitantes e oprimidos por quanto mais conhecerem, mais vazios de certezas, e, por isso, mais equivocados.

Quando ele voltou da sua meditação, saiu da toca, olhou no resort que estava calmo, pois todos os ratos estavam dormindo e para os dois humanos que observavam a calma do resort enquanto acariciavam um gato. Nessa hora ele decidiu que o próximo plano seria sair do resort e ir encontrar a liberdade na boca do tal gato no dia seguinte.

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