borboleta

Dois mil, cento e noventa e cinco dias e seis horas. Nunca esqueceria esse número , mas marcou no caderninho antes de guardá-lo na mochila surrada. Sentiu uma angústia ao se levantar da cama suja pela última vez. O som da porta se abrindo pareceu diferente naquele dia. Mais suave. Caminhou pelos corredores em silêncio, procurando ouvir o som dos passos. Não poderia anotar o som, mas também pensou que nunca esqueceria. Na rua, o sol parecia mais claro que nos banhos de sol. Nunca entendeu porque chamavam de banho de sol…

Ficou parado no meio fio, sem saber que direção tomar. Ninguem o esperava ali, tampouco deveriam estar esperando em algum lugar. Nem ele esperava mais nada, depois de tanto tempo esperando. Não queria chegar com aquela roupa, com aquele cheiro, com aquela cara. Olhou no retrovisor de um carro, estava muito feio. Sempre fora vaidoso. Já não tinha mais nada do que se envaidecer. Suspirou. Lembrava-se do caminho de casa. Não houve uma só noite em que não o percorresse mentalmente. Mas em sua imaginação o percorria alegre, dando pulos no ar, livre.

Tomou coragem e foi. Não sabia direito para onde, o endereço lembrava, mas não sabia mais o que ele guardava. Quatro anos sem visitas, nem cartas. Sentia um oco no peito, um hiato, entre o que tivera e o desconhecido. Caminhava encolhido, mais do que nos últimos anos. Não conseguia ocupar o espaço todo que seu corpo ocupava na rua, como se aquele não fosse seu direito. Sentia-se observado. Como se tudo tivesse olhos. Os carros pareciam passar mais devagar por ele. As pessoas pareciam falar dele. Como se alguém tivesse apertado a tecla slow motion. Suava. Corava. Corria.

Do pé da ladeira não viu dona Maria esperando, como sonhara. Nem na porta. A porta só estava encostada. A sala escura e fétida. Ainda se lembrava onde ficava o interruptor. Mas não tinha energia. Parecia uma casa abandonada. Teriam ido embora? Sentiu um frio no estômago. Medo de ser pego em casa de estranhos, ser acusado de novo…Pensou em correr, quando ouviu um palavrão. A voz de Naldo. Mas o corpo estava bem mudado. Uns vinte quilos a menos. “O que quer, filho da puta? Ver se conseguiu? Pois fique à vontade. Tá esperando o comitê de boas vindas? Vá ao centro espírita.”

Nunca mais veria o irmão. Abriu a janela. Fechou os olhos. Viu dona Maria, como a chamava quando a abraçava, sentada na sala, de frente para a TV, bordando depois de deixar a casa brilhando e as panelas cheias. Estava sempre bem arrumada, bem penteada e dando um conselho. Deitou em seu colo. Nunca precisara tanto de um conselho e de perdão. Sentira raiva quando as visitas cessaram. Egoísta. Como será que acontecera? Sofrera muito? Adormeceu no sofá, banhado em lágrimas, com a cabeça no colo da mãe que não tinha mais.

Acordou assustado. Um chute na porta. Seis homens o seguraram. “Estupradorzinho de merda! Vamos ver se ele gosta.” Arrancaram sua calça, Um deles sentou em sua cabeça. Não podia respirar. Revezaram-se sobre ele, deitado de bruços, imóvel e sufocado. Não sabia se morreria de dor ou asfixiado. Sentia o sangue escorrer pelas pernas, pelas costas, inundando o sofá, entrava pela sua boca, seu nariz, afogava-se. Tentou debater-se. Acordou! Recobrou o fôlego com dificuldade. Nunca mais deixaria de sonhar com aquilo. Continuaria sendo violentado todas as noites.

Saiu para respirar. Os vizinhos cochichavam. Mas era como se falassem em megafones. “Olha quem voltou” “Feche a porta, ele é perigoso” “Matou a mãe de desgosto”. Queria sumir. Desaparecer. Mas não havia lugar no mundo onde não o reconhecessem, pois estava escrito em seus olhos o que era, no que se tornara. Lembrou de Simone. Ela que sempre adivinhava seus pensamentos. Nunca o perdoou. Nunca o visitou. Foi até sua casa. Ainda morava lá. Viu-a de longe com uma criança nos braços olhando para um menino pendurado em sua saia. “Será meu mesmo?” Assim que o viu, arrastou o menino para dentro e bateu a porta, como se o protegesse do demônio.

Sentia-se o próprio demônio. Tinha horror de si mesmo. Olhava no espelho e nada mais via de belo, de sedutor. Não tinha mais nada para oferecer nem a Simone, nem ao filho que poderia ser seu, nem a si mesmo… Como se nunca tivesse existido o cara cheio de amigos, o rei do baile que comia todas, que vivia sorrindo. Letícia. Soube seu nome só quando foi interrogado. Nunca havia pego uma branca bacana. Tão linda, tão cheirosa. Ela queria tanto quanto ele. Se esfregou nele no baile. Se não pegasse seria trouxa. Treparam a noite toda e sabia que ela tinha gostado. Só se a tivesse matado de prazer. Deu o que ela queria. Quando arrombaram sua porta e o esculacharam dentro do camburão, ainda tinha seu cheiro na boca.

Tentou arrumar a casa. Tentou arrumar um emprego. Depois de vender tudo o que tinha dentro da casa, não tinha mais o que comer e ainda não tinha um emprego. “Já contratamos ontem”. Era o que costumava ouvir antes de ter essa marca. Agora nem se davam ao trabalho de dar desculpas, falavam logo a verdade, ou o expulsavam sem dizer nada. Já não era mais a favela, a cor da pele, era o tipo de ser humano. O tipo que deixava de existir. Tinha vergonha de pedir esmola. Pensou em assaltar. Mas não poderia voltar para aquele lugar. Esperar mais seis anos sem julgamento. Letícia foi morta oito horas depois. Mas era o único preto que a tinha comido. Para que julgamento? Para que a pressa em investigar o caso? Já temos um culpado. Culpado de comer uma moça rica, branca e bonita! Pronto. Sentia vontade de assaltar, matar e incendiar todos os brancos. Mas não tinha coragem. Sentia vontade de nunca ter nascido.

“Se tu ficar do nosso lado, ninguém mais te fode”. Lembrou-se do Comandante quando era moleque, fazendo a mesma proposta. Esquivou-se dele com esperteza. Ninguém o perseguia e nao precisava perseguir ninguém. Mas lá nao teve jeito. Ou aceitava o lado forte ou seria o fraco naturalmente. Agora, em casa, concluía que sempre fora o fraco, não importava com quem se aliasse. Mas com o Comandante poderia ser um fraco sem fome. Foi procurá-lo. Por sorte, não o encontrou. Recebeu só o aviso. Que o morro não era lugar de estuprador. Se fosse pego pelo Comandante saberia o que a moça sentiu.

Sozinho não sabia como fazer. Não tinha mais a ginga e nem a agilidade que tivera para jogar bola, dançar e pegar mulheres. Capaz que gaguejaria ao dizer que era um assalto. Não convenceria ninguém. Perambulou, chutou pedras, chorou. Nunca acreditou que homem não chora. Já tinha chorado muito escondido e sabia que era homem. Mas agora não sabia mais o que era. Tudo o que o fazia homem foi pelo ralo. Do que é feito um homem? Talvez de liberdade. Tentou lembrar de quando fora livre. No morro? Lá? Aqui na rua? Estou livre para fazer o que quiser, pois nada mais me resta. Nada tenho a perder e nem a ganhar. Liberdade deve ser isso. Sentiu-se leve enquanto seu corpo flutuava viaduto abaixo.

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