baixo-cama

Ele a chamou por vinte minutos, com solos de baixo.

Luísa rodopiava, uma lata de cerveja na mão, a saia girando numa altura estratégica que despertava a curiosidade sem revelar nada ilícito. As finas alças da camiseta desnudavam o colo reluzente do suor resultante da atividade física e da temperatura ambiente, cálida como era de se esperar numa noite de verão, agravada pela energia térmica concentrada da proximidade de muitos corpos humanos. Ela foi lentamente se afastando do grupo de amigas que a acompanhava naquele evento num dos endereços mais alternativos da cidade, e abreviando sua distância em relação ao palco, encarando o solista ao longo de todo o processo. Não demorou para que ele desvendasse as intenções por trás do olhar insistente. As notas, arpejos e acordes saíam menos melodiosos, menos técnicos, menos virtuosos, e tornavam-se mais rítmicos, insinuantes, sensuais. A fricção dos dedos nas cordas reverberava das caixas acústicas direto para os ouvidos interessados da estranha. Ele fitou-a de modo mais desafiador enquanto improvisava um jazz bem funkeado. Ela apertou os olhos e os lábios em reciprocidade. O suor na testa dele era mais profuso. Não advinha da sua pegada no baixo, que era fluida e aparentemente sem esforço. Era a expectativa de demonstrar sua pegada noutro instrumento, tocando o corpo dela, fazendo-a soar as cordas…

O baixista encerrou a jam session e decretou um intervalo. Confiante e algo atrevido, ele atraiu Luísa para a bancada do bar apenas com o olhar – sem palavras ou acenos. Confiante e algo atrevida, ela entendeu o sinal e foi atrás.

– Prazer, eu sou o Augusto.

– Oi, eu sou a Luísa.

– Reparei que você gostou do meu som. Fico feliz.

– Gostei. Eu sempre venho aqui. Mas nunca vi nada igual. Digo… Eu não sou muito entendida de música, eu apenas deixo fluir. E o que você tocou fluiu em mim de maneira muito especial…

– Eu espero que não tenha sido apenas porque você gostou dos meus olhos, e isso te fez gostar do meu som.

– Não, eu gostei do seu som. Isso me fez reparar nos seus olhos.

– Podemos conversar mais tarde? Me espera depois do show.

Luísa desculpou-se com as amigas e dispensou a carona de Nanda.

– Mas como você vai voltar pra casa?

– Eu não sei. Não importa.

Nanda fez uma expressão forjada de escândalo.

– Sua doida! Depois conta tudo, viu?!

* * *

Augusto saiu leve e desimpedido pela porta de serviço do bar. Onde estava o baixo? Luísa não entendia nada sobre a infraestrutura de uma banda. Só sabia que ficou levemente decepcionada. A decepção foi-se apagando à medida que ele falava e sua voz, embora meio atrapalhada, por vezes gaga, soava-lhe como música.

– Eu sempre admirei criadores… Músicos em particular. Quanto tempo você estudou pra chegar nesse nível?

– Eu sou naturalmente habilidoso – disse ele alcançando a mão de Luísa, que caiu numa gargalhada espontânea. Ele ficou sem graça. Ela nada disse. Queria que ele transpirasse mais um pouquinho, mostrasse um pouco da mesma dedicação que o levou a dominar todos os segredos do baixo elétrico. Ele retrocedeu.

– Na verdade eu sempre fui introvertido. A música é minha forma de expressão. É como eu me comunico com as pessoas. Entre nós, no bar, havia o baixo. Isso me deu confiança para me aproximar de você. Aqui, sem esse recurso, eu me sinto perdido.

– E o que você estava tentando me comunicar no bar?

Augusto pensou muito e respirou profundamente antes de responder:

– Eu não sei…

– Pois eu vou lhe dizer. Havia uma vibração ao mesmo tempo gentil e sensual, sensível e selvagem. Uma sensação de liberdade tomou conta de mim. Confiança e liberdade.

– Liberdade… Talvez eu consiga expressá-la com a música porque, intelectualmente, essa palavra não faz o menor sentido, pra mim.

– Eu acredito que a liberdade é um estado de ser, de existir. Ela está lá latente, desde quando nascemos, mas que somos nós que a conquistamos, ao longo da vida. A liberdade não está só no seu corpo, está também na sua mente.

– Ser eu mesmo é estar longe dos efeitos nefastos da vida social. Para um criador como eu, a liberdade só existe no isolamento. E eu crio justamente por saber que o que você chama de liberdade não passa de uma ilusão.

– Pois meu movimento em sua direção foi um movimento em direção à liberdade. Eu me aproximei porque senti que com você eu poderia ser eu mesma. Ser livre.

– Eu entendo… Vindo de você… – Sem se dar conta, Augusto olhou-a de cima a baixo, de uma forma intimidadora, inquisitiva. – Dá pra perceber que você vem de outro mundo, que não é o meu. Não sabe o que é passar necessidade. O que é ser olhado com desconfiança nas ruas, parado pela polícia numa blitz, não conseguir emprego simplesmente pela cor da pele.

– O que você está dizendo? Que eu sou uma patricinha?

– Seu mundo é um mundo de sandálias rosas com bolinhas e enfeites de borboletas. Eu preciso tocar em duas, três bandas, em três, quatro bares, toda semana, pra comprar arroz e feijão. O que não é o meu caso neste momento. Tive sorte de conseguir duas refeições e uma temporada nesse bar durante os fins de semana. Mas não vai durar muito. Fim do mês acaba. Nem lembro há quantos anos tenho esse tênis puído que estou calçando. E nem se eu tivesse grana poderia usar o calçado da moda. Eu estou acostumado desde criança a ser parado pela polícia ou pela milícia, imagine se estivesse com sapato de gente bacana.

Luísa ficou ainda mais ofendida.

– Olha aqui, cara. Eu não sou psicanalista, eu pensei que a gente estivesse aqui pra conversar. Se você quer tratar dos traumas da sua vida, deveria procurar ajuda especializada. Se te maltrataram, não desconte em cima de mim. Você nem me conhece, me toma pelo que eu não sou.

Levantou o braço e pediu a conta. Dividiu a despesa até o último centavo. Ainda não chegava às quatro da manhã e ela não tinha dinheiro para um táxi, e as linhas de ônibus que levavam ao seu bairro não mais circulavam. Perambulou a esmo até o dia amanhecer.

* * *

No dia seguinte, ao chegar no bar para a refeição da tarde, Augusto viu um par de sapatos iguais aos que descrevera na noite anterior na sua conversa com Luísa, estrategicamente encostados no primeiro degrau da escadaria que levava à entrada dos fundos. Os sapatos que ela calçava. A princípio não atinou para a coincidência, depois pensou que fosse só isso mesmo: coincidência. A curiosidade levou-o a inspecionar o par, entretanto.

shoes

No fundo de um dos pés havia uma folhinha de papel dobrada com uma simples inscrição numa das faces:

“Antes de me julgar, tente andar com os meus sapatos.”

Abrindo o papel dobrado, outra mensagem:

“Liberdade é ter escolhas. E se todos estão contra você, você ainda pode escolher não se conformar.”

Augusto levou o par consigo na volta para casa, que ficava bem próxima.

À noite, durante o show da banda, lá estava ela de novo. Dessa vez não dançava, nem lançou olhares sedutores, embora tenha se certificado de ter sido vista. Recostada na bancada do bar, bebericava Wild Turkey com gelo e pareceu indiferente quando Augusto se aproximou dela durante o intervalo.

– Oi.

– Oi.

– Eu vi seu bilhete.

– Aham.

– Me desculpa, você tem razão.

– Aham.

– É verdade, eu te julguei sem te conhecer. Não foi por mal. Às vezes, quando nos tocam num ponto sensível, não enxergamos a pessoa na nossa frente, nem suas intenções, nem mesmo o sentido das suas palavras, mas todos aqueles que nos negaram e nos decepcionaram.

– Eu sei.

– O que há, não gosta mais do meu som?

– Não gosto mais dos seus olhos.

– Não acredito. Por que está aqui então?

– Pra te mostrar o quanto você me magoou – ela respondeu, e deu as costas, com a aparente intenção de deixar o recinto. Augusto não tentou alcançá-la. Sabia que tinha cometido um erro e aceitava a punição. Era hora de voltar ao palco. Lá pela metade da segunda sessão, porém, ele reconheceu com bastante nitidez a silhueta de Luísa na plateia. Em meio à instrumentação, ele improvisou também com sua voz, límpida e bela, bem diferente de como soava no trato direto.

Baby I have been here before
I know this room, I’ve walked this floor
I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a victory march
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah…

Luísa sabia que era para ela. Ao fim da apresentação, sua fachada desmoronou. Ele ainda guardava seu instrumento de trabalho quando sentiu algo retendo e puxando seu braço. Era a mão dela.

– Eu te perdoo.

Beijaram-se. Ele levou-a para sua casa, e só pôde descansar depois de fazê-la gozar por vinte minutos. (Sim, parece inverossímil. Eu também achava que era.) Não é que ele fosse o mais habilidoso, tivesse o maior dos volumes, ou o que se mexesse mais desenvolto. É que havia algo a mais nele. Havia algo a mais entre os dois. Sentimentos afluíram e ganharam seu corpo. Sensações físicas expandiram sua consciência. Fora isto que Luísa buscara à primeira audição de Augusto.

A transformação em Augusto não foi menos radical. Após o último soar das cordas vocais de Luísa, instaurou-se um silêncio de magnitude que ele jamais experimentara. Percebeu que podia enfim deixar de lado traumas, neuroses e paranoias. Derrubar as defesas que os afastaram um dia antes. Abandonar os arquétipos e estereótipos do passado. Enxergar a pessoa à sua frente. Dizer o que pensava, o que gostava e o que sentia. Com ela, podia ser quem realmente era. Liberdade… Então era aquilo ser livre?

* * *

Crédito das imagens:

Foto 1: Ilustração de Maurício Kanno

Foto 2: Maurício Kanno

*A letra citada é um trecho da canção Hallelujah, de Leonard Cohen.

Anúncios