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O sinal de alerta tocou por vinte dias antes que Bar´bo-sa acordasse do seu sono.

Após dois anos trabalhando em uma operação de mineração de água de asteroides, ele relutava em acordar ou sair da sua rota para sua casa, mas ele tinha um dever contratual a cumprir. Os computadores de bordo o informaram que se tratava de um pedido de socorro, ecoando das profundezas do mar de estrelas. Estando a míseros quinhentos bilhões de quilômetros da fonte do sinal, não havia tempo hábil para frear. O minerador teve que desacelerar aos poucos, navegado em espiral até a fonte do sinal, uma manobra que levou uma semana para ser efetuada.

Quando ele finalmente chegou à nave que tinha emitido o chamado, ele quis ter um rosto para gritar. No centro do seu veículo, soterrado entre fios e gel, o coração de Bar’bo-sa acelerou, alheio ao fato de que a maior parte do corpo do seu dono não dependia mais dele para funcionar.

À sua frente estava uma esfera verde, uma bionave da aliança. Bar’bo-sa hesitou por um momento, incerto do que fazer, enquanto suas centenas de mãos e pinças limpavam e acariciavam a nave semente como se ela fosse uma bola de cristal.

Em seu sistema solar natal o império, a aliança, a rebelião e a própria guerra civil galáctica não passavam de lendas, histórias que as mães e os políticos contavam para assustar, respectivamente, os filhos e os eleitores. E ainda assim, não havia nada que ele pudesse fazer ou deixar de fazer que não tivesse consequências graves para ele ou para seu mundo natal.

Explodir a nave chamaria a atenção do império das máquinas para ele e seu planeta, que acabaria reduzido a um protetorado em questão de horas.   Resgatar a nave, por outro lado, iria fazer com que Bar’bo-sa virasse um herói aos olhos da aliança… O que seria péssimo. Na melhor das hipóteses, ele ainda assim seria esterilizado. Na pior, todo o seu povo o seria. Deixar o artefato solto no abismo, por fim, iria enfurecer as duas facções.

Após horas de angústia, uma decisão. Ele se afastou, e disparou um canhão de fótons no seu achado – o que nada fez além de impulsionar o objeto para longe. Pior, os sensores indicavam que o trauma tinha feito a nave começar a retomar as atividades.

O minerador começou a rezar, e, implorando por um milagre, cortou o vácuo melancolicamente até alcançar a nave-semente. Agora era tarde demais para voltar atrás, e onde a força bruta tinha falhado, a insistência poderia vencer. Sem ideias, ele a envolveu dentro de si, encheu o compartimento de ar neutro, adequado a qualquer espécie humana, e começou a fatiar a embarcação, camada por camada, como uma pétala, até chegar ao núcleo onde o seu piloto repousava, ainda meio grogue pela hibernação forçada.

O aesiriano começou a gritar e espernear assim que despertou. Bar’bo-sa não conseguia compreender o que seu tripulante estava berrando, mas seus gestos não mostravam medo, apenas ira e prepotência. Era impressionante como aquela coisinha não mostrava temor nem mesmo perante um adversário milhares de vezes maior do que ele.  Dezenas de garras tentaram contê-lo, enquanto tantos outros olhos o observavam de todos os ângulos mesmerizados com o que viam.

O passageiro tinha pouco menos de dois metros de altura, dois braços e duas pernas relativamente longos, cabelo rosa e uma pele e carne de um verde translucido como o de uma esmeralda, deixando o esqueleto e outros órgãos visíveis. Para efeito de comparação, seu anfitrião semi-involuntário, uma vez livre de todos seus apetrechos e implantes, media mais de dez metros de comprimento, tinha dois membros que culminavam em cinco mãos, se locomovia como uma serpente e possuía uma pele azulada e grossa.

E pensar que aqueles dois descendiam da mesma espécie, do primordial Homo Sapiens, que reinou pelas estrelas por milênios antes de ter seu domínio estilhaçado pelos rivais e se ver forçado a se modificar para sobreviver em seus novos ambientes. Era tão estranho pensar que aquela coisinha frágil, que lutava inutilmente com as garras que… Que arrancou uma de suas garras com as mãos nuas e estava começando a soltar esporos para todas as direções.

Ao notar que sua vida estava em risco, o minerador não hesitou. Seus apêndices soltaram o aesiriano ao mesmo tempo em que o corredor onde ele estava se abriu em dois, ejetando o passageiro indesejado e seu veículo de volta para o espaço profundo. Aliviado e cansado demais para se preocupar com o que viria a seguir, Bar’bo-sa se limpou com um banho de micro-ondas, calibrou os computadores de bordo para a viajem, e então finalmente voltou a tranquilidade do sono criogênico… Sem muito sucesso. Havia um motivo para as naves aesirianas serem tão temidas.

O minerador acordou poucos dias depois, novamente pelos alarmes. Colônias de fungos haviam crescido e tomado controle dos seus circuitos. Antes que ele fosse tomado de vez, Bar’bo-sa desligou os sistemas e soltou um S.O.S – e só então percebeu o que tinha feito, que tinha condenado outro viajante ao mesmo destino que agora o consumia.

Ele gritou pelo transmissor por vinte minutos antes de ser remodelado por completo.

Crédito da Imagem:

Foto 1: Rocket Ship Mod, disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:TZ_Rocketmod.jpg

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