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Ele esperou mais vinte dias até fazer o pedido.

E o abraço foi tão forte que emocionou os passantes daquela rua. Que calou as risadas e conversas dos adolescentes da pequena igreja. Quando, ao fim do culto, ele procurou-a com lagrimas nos olhos, um rosto desesperado e a viu franzir a testa confusa e surpresa, foi estendendo os braços em sua direção. Num súbito rompante, tirou-a de sua roda de conversa e a envolveu com seu corpo, por todos os lados.

Ao mesmo tempo em que ela correspondia ao abraço, ele soluçou baixinho em seu ouvido, as pessoas viraram seus pescoços para observar aquele casal. Alguns secretamente sorriram, alguns engoliram em seco, alguns se prepararam para as tão desejosas conversas de fim de culto, onde a vida de outras pessoas é levada em tão alta conta. Após alguns segundos de respiração suspensa, ela se viu livre de seu captor, que tinha se afastado o suficiente para segurar seus braços e teimava em não tirar os olhos dos seus. Seu rosto era todo feito de uma ternura, e um sorriso começava a crescer nos lábios, quando ela o puxou para longe da multidão.

– Alan, o que foi isso?

– Deus falou comigo, Caterina. As orações da minha mãe chegaram ao Seu trono e Ele a atendeu. Ele me mostrou algo que eu vinha pedindo há meses.

– E o que você pedia?

– Eu pedia direção. Na verdade, eu perguntava se podia seguir em sua direção.

– Minha direção? Eu provavelmente estou tão perdida quanto você!

– Eu quero caminhar com você, Caterina. Eu fiquei com medo de confiar depois de tudo que nós passamos. Mas Deus me mostrou que sim, é com você que eu quero e devo estar. Eu não sabia que ainda te amava tanto até sentir a alegria da confirmação dEle. Até sentir tanta vontade de vir correndo te encontrar e contar das coisas que Deus me disse e dos Seus planos.

A esperança pairava no ambiente como uma presença. Ela envolvia o casal há muito separado, ela fortalecia a voz embargada do garoto e o enchia de coragem para olhar naqueles olhos tristes de menina que Caterina tinha.

Com a noite de inverno, vem também o vento gelado e os arrepios nos pelos e dentes, mas ele não sentia os efeitos naturais da época invernal. Cada fibra sua estava presa àquela presença que flutuava ao seu redor, mostrando-o cenas passadas, lembranças de tanto tempo atrás, promessas de um futuro bom logo a sua frente.

Cada segundo passado esperando por uma resposta de tão desejados lábios, o coração apertado dos incentivadores destes amantes, ate as corujas pararam de piar, esperando que a sofreguidão de Alan fosse extinta, com um mero sorriso da garota parada a sua frente. Mas mesmo com a eternidade se arrastando, esse momento não chegou. O sorriso dele foi esmorecendo conforme o silencio doía em seus ouvidos. O coração passou de um agitado compasso para uma dolorosa marcha lenta em questão de segundos. Agora sim, o frio atingiu seus braços nus e, inconscientemente, sentiu vontade de envolver Caterina em seu abraço mais uma vez, unindo pele com pele, esfregando seu rosto no dela, enchendo suas mãos com aquele cabelo cheio. Não se moveu, no entanto. Mesmo que quisesse, seus pés provavelmente não obedeceriam ao comando, lembrando-o de que talvez se não se mexesse, obtivesse uma resposta mais rápida. Afinal, se qualquer ação sua distraísse Caterina, findaria o encanto de tão singela declaração de amor professada por ele.

Achando que já passara tempo o bastante, ele se preparava para perguntar o que ela achava disso tudo. Como em um passe de mágica, antes que ele pudesse se expressar, a boca dela se abriu lentamente, deixando tempo para que ele estudasse sua expressão.

– Eu não esperava por isso.

– Eu também não.

Mais alguns momentos de silencio atormentaram o pobre coração do rapaz, mas sua espera durou pouco e seu coração voltou a acelerar ao ver brotar nos lábios da menina um sorriso tímido. Era a Esperança voltando e aquecendo tudo.

– Eu passei dois anos esperando ouvir isso, Alan. Dois anos cheios de dor, esperando e orando para que pudéssemos ficar juntos. Isso é como um sonho. Você, aqui, agora. Não parece real.

– Parece milagre – entoaram os dois em uníssono.

Ele sorriu, tomando sua mão e trazendo-a para junto de seu rosto.

– Agora é real. Eu estou aqui com você e vou ficar aqui até quando Ele nos permitir viver.

O rosto dele só sabia sorrir e brilhar, com aqueles lábios e olhos que pareciam tomar toda sua face. Ela sorria com o canto da boca e gentilmente retirou sua mão do rosto dele.

– Foram dois anos, Alan. Isso é bastante tempo.

– Se o amor foi forte o bastante, isso não tem importância.

– E se o amor não for o bastante? E se, apesar de nossos esforços, percebermos que estamos tentando retomar o relacionamento que tivemos na adolescência? Não somos mais adolescentes. O amor não voltará a ser puro e inocente como antes, virá salpicado de experiências e lembranças, do mundo, de outras pessoas, da vida! Será que teríamos força para aceitar que não somos mais as mesmas pessoas, que os sonhos mudaram, que o jeito mudou? Você não sabe quem eu sou e eu não sei quem você é. Como espera que após dois anos eu aceite embarcar em uma promessa de Deus com alguém que eu passei tanto tempo lembrando e sofrendo por não ter mais ao meu lado? Mas eu sonhava com aquele Alan, de tempos atrás. Há alguma maneira de recuperar a inocência do nosso relacionamento com tudo que passamos até hoje? Há como afirmar haver amor por alguém que existe apenas nas suas lembranças? Ficar com você não é mais uma opção. Seria voltar atrás e tentar lutar por algo morto. E depois do que aconteceu com… com o Marcos, não quero te magoar mais.

Caterina estava para virar as costas, não sabendo se choraria ou se caminharia tranquilamente até sua casa, aproveitando os últimos minutos desse vento no rosto. Olhou as estrelas no céu negro, e o espaço parecia infindável. Estava mesmo frio.

Esperou que Alan respondesse, tentasse convencê-la. Mas nada emitiu som, nem mesmo sua respiração gelada.  Resolveu sair. Antes olhou nos olhos dele, como quem se despede, como quem deseja uma boa vida, um bom retorno para casa. A expressão em seu rosto não parecia alterada, se mantinha intacta, digna de cavaleiros cuja vitória já está certa. Olhava com seus olhos ainda mais tranquilos que antes para o rosto dela, impassivelmente. Mas algo em seu olhar queria dizer tanta coisa que foi impossível para ela, naquela fração de segundo, decifrar.

Virou-se e saiu, deixando-o encostado na parede da igreja velha. A Esperança, figura etérea, seguiu Caterina, apenas o frio acompanhava Alan em sua estada silenciosa. Suspirou devagar, acompanhando com o olhar o lugar pelo qual ela passara há poucos minutos.

Sem explicação, sorriu.

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