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Você me chamou por vinte anos, com seu amor.

Estou aqui agora. Demorei eu sei. Mas eu vim. Abre a porta que estou aqui. Tem gente na sala. Quem são essas pessoas? Cadê você, meu amor? É a primeira vez que te chamo assim e você não está aqui para ouvir. Está no quarto? Quantas horas passamos aqui trancados! Agora ficarei para sempre. Vim para ficar, meu amor. Venha me abraçar. Cadê aquele teu sorriso com que sempre me recebeu? Que me fazia sentir em casa. Me abrace como fazia quando eu chegava todo arrebentado para você consertar. Me abrace que agora eu que vim consertar as coisas. Estou aqui para abraçar você e te devolver todo o bem que me fez enquanto eu te recusava. Não vim para chorar no teu colo dessa vez, amor. Vim para sorrir para você. Vim para te pegar no colo e te reconfortar de tanta espera. Levanta. Venha ver teu homem. Veja como estou agora, só por tua causa. Quero te contar tantas coisas. De como tudo o que me falava estava certo. E eu precisei ir para tão longe para saber o que você sempre soube. Eu procurei. Rodei o mundo a procurar. E toda vez que achava que não conseguiria mais, voltava aqui para me recuperar. Era aqui que estava. Era aqui que você estava. Aqui sempre foi o meu lugar. Olha, veja as marcas no meu corpo. Cada uma delas me faz lembrar que podia estar com você. Mas agora tudo acabou. A única marca que me importa é a das tuas unhas cravadas nas minhas costas. Quero você toda cravada no meu corpo. Meu corpo que é só teu. Sempre foi. Você chorou tantas vezes por ciúmes dele. Não precisava. Eu sempre fui todo teu. Sempre fui um tolo e demorei para entender as coisas. Não sou como você que logo percebe tudo. Me perdoe não ter percebido antes. Por favor, abra os olhos e diga que me perdoa. Vamos fazer aquela viagem. Que você sempre planejou e eu nunca quis. Lembra? Vamos sair para dançar. Sempre adorou dançar. Nunca dançamos juntos. O que mais nunca fizemos juntos? Me diga. Quero fazer tudo agora. Tudo o que você planejou para a gente fazer. Mas eu sempre estava de partida. Agora não parto mais. Juro. Sente-se. Vamos pegar o mapa. Ou podemos sair sem roteiro. Vamos esquecer o tempo. Vagar sem rumo. Só nós dois. Quero te mostrar os lugares em que estive e que sempre faltava alguma coisa. Era você que faltava. Não, era eu. Eu faltava sempre. Estive em falta. Eu sei. Você sempre esteve. Contei com você para tudo e sempre. Mas nada te dei. Agora vou te dar o mundo. Venha receber, venha. Quer que seja uma festa? Quer que chame as pessoas da sala? Mandarei elas arrumarem a casa para uma grande festa. Tragam as bebidas e as comidas. Quero que todos saibam. Que sempre fomos um do outro. Venha escolher um vestido. Sei que nunca te dei um. Mas vou agora comprar quantos quiser. Vou buscar o que quiser. O que você quer? Me peça o impossível. Eu consigo para você. Consigo qualquer coisa. Lembra como acreditava em mim? Eu sobrevivi da fé que me depositava. Era de você que vinha a minha força. Sempre foi. Eu só não confirmava nunca a tua fé de que seríamos um do outro. Mas você sabe que nunca passei de um egoísta imaturo. Sabe que sou teimoso e difícil de lidar. Sempre teve paciência comigo. Só você me conhece e me entende. E me ama como sou, com todos os meus defeitos. É minha mãe, minha amiga, minha amante, minha cúmplice. Sei que não fui nada para você. Eu mal te olhava. Nunca disse as coisas que admirava em você. Nunca fui bom com as palavras. Nem em ouvir as tuas. Sei que foi difícil para você. Mas vem, torne tudo fácil agora. É só me abraçar e tudo ficará fácil para mim. Conseguirei ser tudo o que esperou por esses vinte anos. Venha. Levante. Abra os olhos que tenho necessidade de seu brilho em mim. Eu te imploro aqui de joelhos, não me deixe no escuro que é o mundo sem você. Por favor, Esperança.

– Senhor, com licença. Temos que levar o corpo agora.

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