Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Apocalypse_vasnetsov.jpg
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I.

Eu passo vinte dias sem dormir e percebo que está na hora de partir. Eu levanto da minha rede e vou até meu armário tateando pela escuridão rubra do acampamento. Tomo cuidado para não pisar em ninguém ou fazer muito barulho. Não adianta. A ferrugem não ajuda e um guarda se aproxima. Ele pergunta o que estou fazendo de pé. Eu vou embora, Caio. Esperança morreu, chega desse lugar. Caio diz que já estava na hora, e sorri. Depois me entrega o revólver e pede para eu não demorar muito. Vá para o inferno Caio. Ele se pergunta se já não estamos nele.

Saio do acampamento antes do amanhecer, levando apenas o que cabe na minha mochila. Evito despedidas. Caminho sem destino pelo esqueleto da cidade, tentando respirar um pouco de ar fresco.  O vento da noite está cheio de vozes, mas nenhuma delas parece estar muito interessada em mim. Quando o acampamento se esvai no horizonte, eu deixo chover. Levanto a cabeça e procuro o céu entre os arranha-céus torcidos pela ferrugem. Vocês estão felizes, desgraçados? Caio de joelhos. Vocês mataram Esperança! Vocês mataram meu mundo! Não ouço nenhuma resposta. Continuo a encarar a criação até que a raiva dá lugar à saudade.  Ainda sinto falta da lua amarelada e das estrelas prateadas de antigamente. As memórias me fazem levantar e caminhar.

Quando o dia começa, já estou em um abrigo improvisado, um apartamento em um prédio abandonado. A fome chega logo. Não abro minhas rações. A sujeira por toda parte deixa claro que não sou o único a morar lá. Puxo minha faca e espero. Logo um grupo de morcegos volta da sua caçada noturna. Consigo abater dois antes do resto do bando fugir. Começo a limpar minha comida. É um trabalho lento, delicado, cortesia dos nossos vizinhos estelares. Quebrar a carapaça, tirar as vísceras catar cistos. Tenho que ficar concentrado.

Uma voz me interrompe e sinto algo frio na minha nuca. Meu coração dispara. Não vou morrer de novo. Tento me acalmar. Se ele quisesse me machucar de verdade, não teria me avisado. Eu solto a faca e levanto. Meu suposto captor é um rapaz que mal saiu da adolescência. Cabelo moicano, roupa de couro decorada com ossos, óculos escuros. Mais um legionário. O garoto começa a gritar e aponta um rifle para mim. Eu retribuo o favor. Você é bem lento, não é? Quer dizer, ao invés de atirar em mim pelas costas, e de longe, você… Ele range os dentes e tenta atirar em mim. E consegue a façanha de errar um tiro à queima roupa. Eu desvio da mira do rifle e o acerto no queixo,  derrubando-o no chão. Chuto o rifle para longe, e ponho o pé no meu algoz.

O rapaz me manda sair de cima dele. Diz pertencer ao maior acampamento da cidade e que seu eu o matar ele irá voltar atrás de mim com reforços. Eu começo a rir. Não tente me tapear meu chapa, eu venho do ultimo bastião de civilização nesta cidade.  Algo brilha nos olhos dele. Eu não devia ter dito isso, não é?

II.

O rapaz não diz nada, apenas continua com um sorriso no rosto. Tenho que improvisar. Tiro meu pé do peito dele. Levante, você vem comigo. Ele se põe de pé em um pulo e me ataca ao mesmo tempo. Dou dois passos para trás. Acho que você vai dar um bom companheiro, garoto. Você tem vigor a bastante para ajudar, mas é incompetente demais para me trair. Ele avança para cima de mim. Ergo a arma, o fazendo parar por um momento. Suor começa a escorrer da sua testa enquanto ele balbucia que não posso matar ele só com uma pistola. Dou o braço a torcer. Realmente, eu não posso te matar, não com uma pistola. Mas a recíproca é verdadeira. Ademais, imagine o estrago que uma bala poderia fazer! Se eu acertasse algum órgão vital, você ia ficar a mercê dos fantasmas. E mesmo um tiro de raspão iria acelerar sua transformação.

O garoto fica em silêncio por alguns momentos. Eu jogo o rifle para ele, tentando quebrar o gelo. Isso vai dar certo. Ele pergunta para onde vamos. Apenas vá por onde eu mandar. Para começar, vamos sair desse prédio. Você vai na frente.

Sou forçado a reconhecer que o dia está bonito do lado de fora. Não fosse pelo céu verde e o silêncio da cidade até daria para dizer que o dia está bonito. Eu respiro fundo, sentindo a brisa marinha que envolve a cidade. O rapaz se vira para mim, me trazendo de força ao momento. Levanto a arma por reflexo. Ele parece não se importar, apenas pergunta para onde vamos. Digo para ele seguir em frente. Tenho que me concentrar em sair dessa furada. Começo a puxar conversa na esperança de que ele fale algo importe por acidente. Qual é sua idade, garoto? Ele responde que tem dezessete anos. Eu rumino essa informação. Jovem demais. Não pode conhecer a Terra antiga. Você sabe algo sobre o passado? Quer dizer, sobre como era a vida antes da queda? A resposta demora a vir, e vem sobre a forma de comentários desconexos. E sobre a queda? Escuto um monte de besteiras sobre conspirações. Não, não, foram alienígenas. Lançaram um meteoro carregado com a praga no Oceano Índico, e o resto você sabe tão bem como eu. Não tem como – e muito menos porque – um grupo humano ter feito essa praga.  O grupo onde ele está, pelo visto, não está se esforçando muito para ensinar como as coisas eram antigamente.  Você nunca morreu, não foi?  Ele diz que até agora não. Bem, então talvez você seja mais competente do que penso. Eu mesmo já morri três vezes. Uma vez engasgado com uma batata, outra em um acidente de marcenaria e outro escorregando enquanto tomava banho. Isso finalmente faz o rapaz sorrir. Juro. Sou uma máquina dura de matar  quando o assunto é sobrevivência. Mas no dia-a-dia? É uma confusão louca da pesada. Inclusive… Você sabe que monstro eu estou virando?

Ele para. Deve ter tido uma má experiência com fantasmas, ou talvez ele venha de um lugar com uma política de tolerância zero para infectados. Não me abalo. Puxo a manga da minha camisa, expondo algumas manchas rosa no meu braço. Vamos todos virar monstros, garoto, uma morte de cada vez. A não ser que alguém arranque nossa cabeça. Mas por que estragar a diversão? Eu mesmo até que estou curioso para virar um emboscador rosa! Ele pergunta como era minha vida antigamente.

Eu não respondo. O rapaz nota minha apreensão e sugere que almocemos. Talvez ele não seja tão burro mesmo. Abro algumas latas de comida e acendemos uma fogueira. Tão logo começamos, ouço um ruído, o som de algo mole se arrastando pelo chão. Merda. Peguei minha bolsa e me levantei. Temos que sair daqui agora. A resposta não podia ser pior. Ele aponta o rifle para mim e diz para eu ficar parado. Antes que eu possa falar algo, os fantasmas chegam.

Quatro grandes massas protoplásmicas emergem das ruas desertas. A praga afetou cada ser vivo do planeta, mas parece ter tido problemas para exterminar a humanidade de uma vez, precisando de várias mortes para surtir efeito. Cada humano está fadado a virar um fantasma, uma grande ameba ambulante, diferindo-se apenas na cor e nos padrões de caça. As criaturas a nossa frente eram os laranjas, conhecidos tanto pela voracidade quanto pela relativa falta de estratégia.

Espero pelo pior, mas eles não atacam, apenas nos circulam. Uma figura vestida em couro negro se aproxima. O desgraçado já quase virou um fantasma, um caçador vermelho, extremamente agressivo e capaz de controlar outros monstros. A pele e a carne dele são de um vermelho translúcido digno de um rubi, deixando seu esqueleto, nervos e órgãos à mostra. Suas mãos tinham virado garras. Quase todos os traços faciais dele haviam sumido: restavam apenas dois olhos enormes e uma boca repleta de dentes triangulares.

O rapaz o chama de chefe e diz que eu conheço um acampamento. O dito chefe dá um sorriso digno de um tubarão, e diz que já sabia que havia gente na cidade. Por isso que ele estava lá para começo de história: para invadir o lugar com seus fantasmas e capangas. Inclusive, o chefe estava organizando os fantasmas para uma emboscada até que nosso almoço roubasse a atenção deles. Ele suspira e diz que esse é o problema do rapaz: não pensar direito e atrapalhar tudo. Por isso que ele tinha mandado o rapaz andar sozinho: para que ele morresse atacado por um desgarrado ou algum monstro. Mas ele poderia resolver isso agora mesmo, graças aos seus fantas…

Eu dou um tiro na testa do meio-monstro e puxo o rapaz. Nosso algoz se encolhe de dor, e os fantasmas laranjas se aproximam dele, como que para protegê-lo. Continuamos a correr. Tem uma oficina aqui perto com um carro para emergências! Vamos  com ele até o abrigo e avisar o resto! Ele pergunta por estou confiando nele. Por que você não é louco de me trair para aquele cara! Venha!

Logo chegamos ao ponto. Com uma chave escondida em uma pedra próxima, eu abro a oficina, e vemos a nossa salvação: uma grande Kombi amarela, bem como um estoque razoável de armas incendiárias. Não perdemos tempo com preparativos, mas decido tirar uma dúvida do rapaz. Foi pior. Ele pergunta o que eu disse. Foi pior do que você pode imaginar. Não estávamos preparados. Quando os mortos começaram a se levantar dos túmulos, achamos que fosse algum vírus. Tentamos matar os zumbis da maneira errada, fizemos quarentenas contra um inimigo que já estava onipresente… Só pioramos tudo. Nunca tivemos chance nenhuma. Você já nasceu no meio desse pandemônio. Mas eu? Eu era apenas um contador.  Minha filha teve uma reação aos nano-robôs e morreu. E minha esposa… Ela virou um fantasma na semana passada. Tivemos… Eu tive que… O rapaz pergunta se estou chorando. O que? Não, está chovendo. Ele diz que estamos sob um teto. Eu já disse, está chovendo! Já terminou? Então vamos logo!

Tão logo saímos da garagem, vemos um conhecido se aproximar. O chefe, montado em uma motocicleta. Eu piso no acelerador. Mas ao invés de colidir, ele desvia. O rapaz grita que é uma armadilha.

Dito e feito. Dois fantasmas rosas caem sobre nós, me fazendo rodopiar e bater em uma parede com a traseira da Kombi. O cinto nos protege do pior, mas estamos feridos. Vejo nosso rival e seus bichinhos se aproximarem. Pego uma bomba caseira e desço do carro. A minha vista está turva e estou tonto. Liga o toca-fitas! Com um toque, o rapaz liga o aparelho, que começa a cuspir rock no volume máximo. O carro parece tremer a cada acorde. A música – ou antes, as vibrações – tem efeito imediato nos fantasmas. Eles adquirem uma tonalidade azul escura, e caem flácidos, se dissolvendo na calçada. O chefe geme de dor, e sua carne fica roxa. Eu jogo a bomba, e acerto em cheio. O material da bomba reage com a carne mutante do general, criando uma explosão forte o bastante para me arremessar para trás.

Estou morrendo. De novo. Sangue escorre por minha boca e por dezenas de cortes, sinto vários ossos quebrados e tenho quase certeza que meus órgãos viraram purê. Me arrasto até a Kombi. Qual… Seu nome. “Pu-pu-puck, sem-hor”. Mas que… nome horrível. Puck boy… Não… Não se preocupe.  A morte não é tão ruim. O rádio… Vai… Cof Afastar os fantasmas. Vamos nos regenerar… E voltar para minha cas… cof. Vamos Viver. Todos Nós. Puck começa a temer. A chuva cai em nós dois. Eu aperto a mão dele. Esperança… Não é a última que morre… é a única…. que não morre…

III.

A saga continua em  “A Ultima que Morre 2: Uma vingança da pesada!” em breve, em um cinema perto de você!

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