A Incompreendida

Eu… tava ficando chateada com esses caras que tavam vindo. Por que eles não me deixavam brincar? Tudo o que eu queria era brincar. Com o meu cachorrinho, o Bob. Porque as outras crianças não queriam brincar comigo mais. Eu não entendia o porquê. Quer dizer, parecia que elas me ignoravam. Fingiam que não me viam. E, quando eu ia levar algum brinquedo pra elas, pra mostrar como eu queria ser amiga, elas saíam correndo. Será que eu era tão indesejada assim?

E aí as coisas pioraram ainda mais quando começaram a vir esses caras estranhos. Um mais estranho que o outro. Veio até… Ei, para, Bob, para! Hahaha! Desculpa, o Bob quer brincar. Peraí.

Pronto. O Bob é um fofinho. E é meu único amigo. Faz muito tempo já. E mesmo quando as outras crianças pararam de falar comigo, e até papai e mamãe sumiram, Bob foi o único que continuou do meu lado. Eu gosto muito dele. Eu amo o Bob.

Então, aí eu queria brincar mas esses homens me atrapalhavam. Eu não sei porque, mas tinha alguma coisa que eles faziam que me deixava fraca. Eles gritavam umas coisas, jogavam uns trecos no chão. Aí eu precisava ir embora. Eu não sei porque eles faziam isso comigo. Nunca fiz mal pra ninguém. Sou uma menina boazinha.

Mas eu sempre voltava. Porque o Bob gosta de brincar ali, sabe? E eu também. Foi ali naquele parquinho, acho que chamam de playground, né?… Foi ali que a gente sempre brincou. Mas foi ficando cada vez mais sem graça, porque as outras crianças pararam de ir… Ou foram cada vez menos. Aonde será que elas estavam indo? Por que será elas não queriam mais ir? Eu gostava de brincar com elas também… principalmente antes, na época que elas não me ignoravam ou fugiam de mim.

*

Teve uma vez que veio um padre. Um padre que eu tinha até conhecido. Meu pai me levava na missa dele. Mas parecia que ele não se lembrava de mim… Ele falava umas orações, Pai Nosso. Eu até aproveitei e rezei com ele. Fez o sinal da cruz. Eu fiz junto. Aprendi tudo isso com papai e com ele mesmo.

O padre falou até em uma outra língua estranha, parecia italiano, mas eu não conhecia não. Falou de montão. Andou pra lá e pra cá. Mostrou a Bíblia. Leu versículos. Leu do Evangelho de Mateus, leu do Êxodo, e até do Apocalipse. Eu ficava só lá olhando do lado dele.

Ele falou coisas como que “não permitiria que aquela comunidade continuasse sofrendo com o espírito maligno”. Eu não entendia do que ele tava falando. Ele falava em “feras que rugem e objetos possuídos, terreno assombrado”. Exigia “em nome do Senhor Jesus Cristo que o ser maligno se afastasse”. Não devia estar falando comigo, porque eu nunca fui maligna. Mas aquilo tudo me assustava. E ia me deixando cansada. Até que eu peguei no sono.

Quando acordei, o padre não estava mais lá. E as crianças tinham voltado. Mas logo, alguma coisa parecia que as assustava de novo. Os adultos vinham pegá-las e levá-las para dentro do prédio. Não sei se eu tinha ficado muito ansiosa pra brincar, e tava fiz muita bagunça brincando com os brinquedos do parquinho antes delas, e elas queriam ter ido na minha frente… Ou se o Bob latiu muito alto… Ele também queria brincar. Mas todo mundo ia embora… Eu ficava triste.

*

Então vieram três caras juntos, que desceram de um carro que tinha na porta um símbolo vermelho que parecia “proibido estacionar”, mas no meio tinha algum desenho branco que não entendi direito. Do carro, ficava tocando uma musiquinha bem animada. Os três pegaram umas armas esquisitas. Parece que eles queriam ser ameaçadores, mas tinham umas caras meio de bobos.

Usavam um tipo de mochila nas costas, mas que não parecia muito confortável. Calçavam umas botas pretas e vestiam uns macacões que pareciam de bombeiros, mas não eram vermelhos ou amarelos, eram meio cinzas, azuis, bem sem graça. Ligaram um aparelhinho com um reloginho que ficava apitando. Parecia que eles tavam procurando alguma coisa.

Aí eles chegaram perto de mim e começaram a atirar na minha direção com aquela arma estranha. Não saía tiro de verdade daquela arma, e quase nunca os raiozinhos de lá chegavam em mim pra valer, mas alguns me acertavam e me davam uns choquinhos. Eu não tava gostando disso, e fui saindo de perto.

Fui procurar meu cachorro, que não tava mais comigo nessa hora. Ouvi latidos, e encontrei ele correndo atrás de um bicho verde com mais cara de bobo ainda que os três carinhas, que parecia só uma cabecinha voadora verde. E meio gosmenta.

Os três me acharam de novo, e foram me dar mais choquinhos com os raios das arminhas esquisitas deles. Que carinhas chatos! Logo em seguida, veio um quarto carinha que saiu do carro de repente, que eu não tinha visto ainda. Ele jogou no chão perto de mim um negócio com fiozinho que parecia um estojo, uma caixinha que abriu as duas portinhas.

Aí começou a fazer um barulhinho e um vento, como se fosse um ventilador ao contrário. O vento ficava me puxando pra dentro. Parecia um aspirador de pó pequenininho, mas bem forte. Eu tava ficando preocupada, até caí no chão. E meu cachorrinho tava lá perto latindo, também preocupado. O Bob pulou em cima do homem que tinha jogado o aspirador de pó estranho, e esse carinha caiu no chão. Quando o Bob foi chegar perto dessa caixinha, ele também levou um tombo, tadinho.

Até que vi eles preocupados com outra coisa, olhando não sei o que no celular e falando de alguma coisa de marshmallow. Entraram no carro correndo, levaram tudo e foram embora. Eta, nem parecem adultos. Correr desse jeito só por causa de doce. Que gulosos.

*

Lembro que depois vieram dois carinhas, em outro carro. Eles eram um pouco parecidos, será que eram irmãos? Mas o que tava no volante tinha mais cara de malandro – parece que chamava Dinho, pelo que o outro falou. O que parecia irmão dele tinha mais cara de bonzinho. Mesmo assim, os dois não foram legais comigo.

Pra começar, eles jogaram sal em cima de mim. E foram tacando sal no parquinho inteiro. Que maluquinhos! E que desperdício de tempero. Ou por acaso eles queriam comer a grama do playground?

Então eles foram falando umas palavras esquisitas, lendo de algum livro com desenhos estranhos que eu fui olhando do lado deles, mas eu não conseguia ler. Tinha vários monstros assustadores nesse livro! Que horrível.

Eles também perguntaram pras pessoas que tavam assistindo se tinham visto ossos por aí, que precisavam queimar. Ossos? Só se for pro Bob. Ele gostava de osso. Mas faz tempo que eu não acho osso pra ele. Eles telefonaram pra um tal de Bob, e eu falei que o Bob já tava aqui, mas não usa celular. Ficaram lá conversando por um tempo. Até que falaram de um tal de Lúcifer assustados e foram embora também. E nem pra dar tchau.

*

Depois vieram ainda pessoas colocar uns buquês de flores num canto do parquinho e rezar. Fizeram até uma missa lá, acredita?

Outro dia, botaram uns alhos em cada canto do parquinho, e depois umas pirâmides pequenininhas que pareciam de prata brilhante… Sei lá, que povo doidinho. Primeiro é sal, depois alho, estão pensando que aqui é cozinha? E ainda umas pirâmides. Que eu soubesse, eu não tava no Egito não…

*

Até que veio uma mulher. Ela não gritou nada nem jogou trecos no chão. E ela falou comigo! Fazia muito tempo que ninguém falava comigo. A nossa conversa foi mais ou menos assim:

– Oi, menina.

– Hum… Oi. Oi! Nossa! – eu respondi, surpresa.

– Nossa o quê?

– Nossa… você tá mesmo falando comigo?

– Isso. Estou mesmo – ela respondeu, rindo. – Por quê? Ninguém fala com você?

– Não. As pessoas só me ignoram, fogem, gritam ou tacam coisas pra cima de mim.

– Imagino que isso seja triste – ela comentou, finalmente alguém que me entendia.

– É, sim. Mas… tudo bem! O Bob cuida de mim!

– Bob? Que Bob?

– Este, ó! – eu mostrar pra ela o meu cachorrinho, que estava do meu lado. Mas…

– Não vejo.

– Puxa – não entendia por que ela não via o Bob.

– Sinto muito.

– Ele é meu único amigo.

– Que bom que vocês têm um ao outro – ela respondeu, parecendo querer ser amiga, apesar de parecer não ver o meu cachorro.

– É!

– Bom, menina, escuta – nessa hora, ela mudou o tom de voz. Parecia que ia falar alguma coisa mais séria e chata.

– O que foi? – fiquei assustada.

– É o seguinte, sabe… Por que você não tenta brincar em outro lugar?

– Por quê? Você também quer me mandar embora? – fiquei triste. Eu sabia. Sempre as pessoas querendo me mandar embora.

– Não é isso. É que chegou a hora de você brincar em outro lugar, entende?

– Mas por quê? Eu sempre brinquei aqui com o Bob. Ele gosta daqui. E eu também. – Nem essa mulher entendia?

– É que as crianças daqui, e também os adultos… Eles moram por aqui, e ficam assustados muito fácil com algumas coisas… As crianças gostariam de continuar brincando no parquinho, e os adultos gostariam de tranquilidade pra dormir e pra passar perto do parquinho, que fica junto do estacionamento.

– Mas por que as outras crianças não podem mais brincar comigo? Antes a gente brincava todos juntos! Por que os adultos não ficam mais tranquilos comigo perto? Eles gostavam de mim! Eu sempre fui uma boa menina!

– Eu sei que é difícil pra você entender isso… Tenho certeza de que todo mundo gostava muito de você. Eu mesma, agora conversando com você, posso dizer que você é uma menina linda e doce.

– Então…? – Perguntei, desconfiada desses elogios.

– Mas… eles estão com medo, sabe… Você deve ter percebido que as crianças não podem mais te ver. Não é que elas te ignoram ou não gostam de você.

– Eu… – não sabia mais o que responder. A mulher falou muita coisa horrível e que eu não queria aceitar.

– Nossa, nem perguntei o seu nome. Olha, o meu é Sandra.

– O meu… é Alice.

– Então, Alice… É difícil dizer isso, mas o seu lugar não é mais aqui.

– Por quê??? – No fim, era isso. Ela queria me mandar embora, como todos os outros.

– Por que o seu parquinho agora fica em outro lugar.

– Outro lugar? – Eu não sabia que tinha parquinho em outro lugar.

– Isso.

– Onde? – Eu não queria sair de lá, mas pelo menos tinha que entender o que aquela mulher tava tentando me dizer. Ou se era só mais um truque barato.

– Eu não sei, Alice – ah, tá vendo? Era só enrolação, pelo visto. – Mas o importante é que… este parquinho é das crianças…

– E eu não sou criança?

– É, mas este é das crianças… que ainda não subiram de série, como você.

– Subiram de série?

– É. Lembra quando você fez as provas na escola e passou de ano? Então, teve colegas suas que não conseguiram, e ficaram de recuperação, não foi?

– Foi… Mas o que tem a ver?

– Au! Auauau! Auuuu! – Meu cachorrinho tava ficando impaciente com toda aquela conversa, ele queria brincar. – Arf, arf!

– Nossa, agora eu ouvi seu cachorrinho! Não o vejo ainda, mas estou ouvindo! – falou a mulher.

– Ah, tá vendo! Vem, vem fazer carinho nele! – ofereci pra mulher, a tal de Sandra.

– Eu… posso?

– Claro que pode, vem cá.

A Sandra agachou e levou uma mão pra perto do Bob. Ele ficou curioso e abaixou a cabeça. Eu fui guiando a mão dela e fazendo carinho nele pra ele ficar calminho.

– E então? – Perguntei pra moça.

Ela sorriu e respondeu:

– Ele é fofinho… Mas também sinto como se fosse parecido com uma gelatina. – E riu.

– Gelatina?

– É.

– O Bob não é gelatina! – reclamei.

– Eu sei que não é, Alice. Desculpe. Mas é como eu sinto.

– Você… sente? E eu?

– Você o quê?

– Também pode me sentir? – perguntei, entre o medo e a coragem.

– Podemos tentar – ela respondeu.

E ofereceu suas mãos. Ainda agachada, me estendeu as mãos, com as palmas pra cima. Eu coloquei as minhas mãos nas dela. E senti as mãos dela. Mas não durou muito. Elas atravessaram minhas mãos.

– Você… sentiu? – Perguntei.

– Sim – ela disse. – Também senti agora umas mãozinhas meio gelatina. – E riu baixinho.

– Eu também não sou gelatina!!! – reclamei.

– Sei que não é, querida. É só como eu sinto.

– E eu sinto as suas como se fossem de pedra! – Me vinguei. – Até a hora em que elas vão sumindo… E vou afundando dentro delas… Como se a pedra estivesse derretendo.

– Você vê, Alice… É difícil, até pra gente que consegue conversar…

Fiquei triste. Sem palavras.

– Deixa seu cachorrinho te levar.

– Pra onde?

– Ele sabe o caminho.

– Ele gosta de brincar aqui – expliquei.

– Ele gosta de brincar aqui… porque é só aqui que você parece estar contente, Alice.

– Mas…

– Lembra do que eu tava falando sobre passar de série?

– Lembro.

– Vocês dois já passaram desta série, querida. Continuar aqui não vai fazer bem nem pra você nem para os outros. Você e o Bob já têm outros desafios a cumprir. Outras brincadeiras pra brincar e lições pra fazer. As crianças que estão aqui… não entendem você mais. Você já está num nível muito avançado pra elas. Essas crianças vão chegar ainda aonde você vai, Alice. Mas elas têm ainda um tempo aqui.

– E você também?

– Eu… também. Mas eu em breve também já vou partir.

– Então… é só deixar o Bob me levar?

– Isso. Os animais frequentemente têm mais consciência do que nós, humanos… sobre o que é preciso ser feito.

– Mas ele parece que tá bem aqui…

– Pode ser… É que ele está perto de você. Pra ele, o importante é manter você feliz. Mas repare como eu não consigo mais enxergá-lo. É porque ele já está querendo ir embora.

– Então… Como eu faço?

– Joga um gravetinho pra ele, algum brinquedinho. Ele vai brincar de pegar com você. E vai te levando aonde ele sabe que é pra ir.

– Parece que ele vai gostar! Ele gosta de brincar de pegar.

Então, a moça me ofereceu um brinquedinho de plástico, que parecia um osso. Era como os que o Bob gostava. Fiquei triste de pensar que ia precisar abandonar o parquinho. Mas ela pareceu confiável. Aliás, fazia muito tempo que não vinha falar comigo alguém que parecesse amigo. Ou fazia tempo que alguém não vinha conversar… Só conversar. Sem querer brigar comigo. Sem querer me dar bronca. Ou me mandar embora. Me botar de castigo. Ou me bater.

E a Sandra me abraçou. Durou pouco a sensação de pedrinha do abraço dela. Mas foi bom assim mesmo.

– Auu! Arf-arf!

O Bob já tava agitado de novo, ele queria brincar. E já tava indo embora. E…ele parecia um pouquinho mais alto. Não, devia ter subido em algum lugar, alguma pedra. Não, ali não tinha pedra nenhuma… Ele tava tipo voando. Nossa, nunca vi cachorro voador. Olhei pra mulher, ela sorriu pra mim. E fez um sinal com a cabeça pra eu brincar com o meu cachorro.

Eu joguei o brinquedinho pra ele ir buscar. Ele virou a cabecinha pra lá, foi correndo e pegou. Voltou correndo pra mim, fez como se oferecesse pra mim, tentei pegar, desviou e continuou andando para o outro lado. Quer dizer, ele não andava mais, ele voava. Ou andava no ar. E agora? Ele começava a subir muito alto.

– Vai com ele, Alice – a mulher me disse.

E eu fui. E me dei conta que eu também podia andar pra cima. Fui subindo. Me senti leve, cada vez mais leve.

Chegou uma hora, quando eu já tava bem no alto, na altura acho que do 13º andar do prédio, em que me lembrei de alguma coisa… ou quase. Não sei o que era, só sei que não era uma sensação boa. Não sei se o pior era olhar pras janelas do prédio, que me dava aquela sensação ruim – até de dor, na boca, no braço, no bumbum, na perna, na cabeça – ou se era só essa sensação de estar no ar… Lembrei de um bigode grosso e mal cuidado.

Deu vontade de voltar lá pra baixo. Mas olhei pra baixo, e aquela mulher sorriu pra mim, me encorajando, com um sorriso bonito. Eu não lembrava também direito porque, mas naquele momento, aquele sorriso começou a me parecer bem familiar. Eu conhecia aquela moça? Ela me dava uma sensação de alívio.

– Auauauuuu! Au!

O Bob me lembrou que ele queria ir pra algum lugar. E eu não ia deixar ele sozinho. Deixei pra lá qualquer coisa de ruim que eu estivesse sentindo. Parei de olhar pro prédio. Olhei pra baixo uma última vez, mas aquela mulher não estava mais lá.

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