Ó, liberdade. Quantos crimes não se cometem em seu nome nome!
(Marie-Jeanne Phillipon Roland, conhecida como Madame Roland, revolucionária executada em 1794 na Era do Grande Terror, durante a Revolução Francesa)

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Quando certa manhã Gregório Sant’Anna acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num reaça. Enxergava tudo vermelho. Os impostos crescentes, assim como o custo da folha de pagamento; a taxa de lucro decrescente; seu dinheiro conquistado com muito trabalho e suor sendo usado para sustentar vagabundos e criminosos, isso sem falar na imoralidade pública galopante, dos políticos corruptos aos casais homoafetivos despudorados exibindo-se por todos os cantos, demandando privilégios da lei – casamento, herança, direito de adoção! –, afrontando as leis de Deus – fez o sinal da cruz – e a base moral e psíquica da sociedade, a família. Tudo isso só podia ser sinal de uma conspiração narcoterrorista da Nova Ordem Mundial, capitaneada pela ONU, para instaurar o comunismo no Brasil. Felizmente, Sant’Anna era um homem de conexões. Fora omisso por muito tempo. Não mais. Fez algumas ligações e transferências bancárias. O gigante acordou.

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“Um fantasma ronda o Brasil. O fantasma do gayfemiveganazicomunismo.”

– Horrível!

– É mesmo? Por quê?

– Querida, existe um motivo pelo qual histórias de fantasmas nunca são políticas. As primeiras são sobrenaturais, e não existe nada mais mundano do que a política.

– Linda, se eu me ativer a velhas fórmulas, jamais deixarei minha marca como escritora.

– Diana… Você tem um talento raro. Por que não frutificá-lo, em vez de quebrar a cabeça tentando empenhá-lo para mudar o mundo? Não é essa sua função.

– Um artista não tem função! Esse é o ponto! Ninguém tem o direito de me dizer sobre o que escrever. Nenhum tema é banal para um escritor de verdade. Tudo que existe é fogo para sua criatividade. Eu só preciso encontrar o tom adequado…

– Cansei dessa conversa. Boa sorte na sua missão…

Enquanto Diana queimava os neurônios em busca desse tal tom adequado, Linda, enfastiada de um relacionamento que se transformara num eterno debate político, vestiu-se, pegou uma mala de mão que havia aprontado no dia anterior e saiu de casa sem ser notada, deixando uma carta sobre a mesa da sala.

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– Bom dia! Vocês devem ser Lucca e Tientsin! Eu sou o Cerqueira, gerente do hotel. O Sr. Sant’Anna fez a reserva pelo telefone. Reservei um dos nossos melhores quartos, sejam bem-vindos!

– O Sr. conhece o Dr. Sant’Anna?

– Ah, sim! Há vinte anos ele faz reserva no nosso hotel. Acabamos por travar amizade. Excelente cavalheiro.

Lucca ligou o rádio na estação cristã. Tientsin reclamou.

– Jesus, você nunca relaxa?! – e sintonizou uma estação de dance music, mais de acordo com sua animação para duas semanas de “folga” – ele podia estar a serviço, mas era só uma parte do tempo. Ademais, estava livre da noiva e poderia curtir à vontade as possibilidades oferecidas pela metrópole paulistana.

Lucca fez uma careta quase imperceptível. Não gostava de blasfêmias. Mesmo as mais inocentes. Estava acostumado com o jeito desleixado de Tientsin, porém. Ele era trabalhador, honesto, escrupuloso. Já até fizera com ele um programa a quatro, Lucca e sua esposa, Tientsin e sua noiva. Além disso, aquela já era a terceira ou quarta vez que viajavam juntos. Orientava-o quando passava dos limites. Assim ainda esperava atraí-lo para a Igreja. Em suma, além do salário, a simpatia levava Lucca a ser tolerante com o rapaz, a quem via como uma espécie de protegido.

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A empresa de Sant’Anna passava por dificuldades, e a viagem era longa – duas semanas para uma feira de negócios. Por isso, dessa vez, os colegas ficaram num quarto único. Com camas de solteiro, claro. Como já se conheciam bem, exceto pela música no rádio, e o linguajar às vezes inapropriado de Tientsin, não haveria conflitos.

Lucca era um robusto de trinta e tantos anos, respeitável, bem vestido, barba bem desenhada, não bebia, nem fumava. Foi militar, era atleta e estava acostumado com vestiários. Por isso, esquecia a porta aberta quando ia tomar banho. Numa dessas ocasiões, sob um pretexto qualquer, Tientsin puxou assunto e esgueirou-se banheiro adentro. Em meio às diatribes sobre o mercado financeiro, escaneava de cima a baixo, através do vidro do box, o corpo nu e apolíneo, detendo-se com particular esmero na região do baixo ventre. As ações de Lucca estavam em alta.

Lucca enrolou-se na toalha e postou-se diante do espelho. Foi quando sentiu uma mão alisando delicadamente seu peito e tateando seu caminho pelo abdômen e além. Deteve-o na região do umbigo. Havia algo de errado ali. Algo de pecaminoso. Toda a semana Tientsin o supreendeu com olhares e insinuações suspeitas. No entanto, foi só quando a coisa chegou no umbigo que ele sentiu um mal estar – era o fogo subindo de suas entranhas.

No sábado, 22 de março de 2014, não conseguiram ir à feira de negócios. As ruas do centro de São Paulo foram tomadas pela Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Confrontos com grupos desordeiros foram registrados, e a polícia teve de interceder. Agoniado e zeloso, Lucca foi tranquilizado pelo Sr. Sant’Anna, que disse que coisas mais importantes estavam por vir, e relaxou nos braços de Tientsin. Na semana seguinte, em meio ao burburinho paulistano, o casal viveu, condensadamente, seu pequeno idílio, laivos de paixão, momentos de incerteza e conflitos existenciais. No domingo, assaltado pela culpa, Lucca foi à missa, comungou e confessou. Na segunda-feira de manhã, dia 31 de março, foi a polícia que veio acertar contas com os seus pecados.

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– Sr. Lucca Prieto?

– Sim.

– O Sr. está preso. Queira por favor seguir-me.

– Isto é ultrajante! Sob qual alegação?

– Atentado violento ao pudor.

– Ah, é? E como?

– Prática de sodomia.

Lucca corou.

– Isso é absurdo! Ninguém tem o direito de se imiscuir na minha vida particular!

– Praticando sodomia nas áreas públicas do hotel?

Lucca sentiu por um átimo o impulso de evadir-se, mas logo lembrou-se que era um homem respeitador da lei, e recordou as palavras de seu pai:

– Quem não deve, não teme. Só criminosos fogem quando são presos.

– Eu não sou criminoso! – disse com convicção.

– Isso quem diz é a Constituição.

Dois homens cercavam Lucca.

– Vamos, Sr. Prieto. Fui alertado que o Sr. é um cavalheiro. Estou apenas cumprindo meu dever.

Olhou para os lados e viu que Tientsin, ciente da própria culpa, havia desaparecido.

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O movimento vinha sendo coordenado há algum tempo, e por isso a intervenção foi rápida e de precisão cirúrgica. Gregório Sant’Anna organizou pessoalmente a Restauração da ordem na sua cidade. Como por lá não havia uma atividade terrorista organizada, a ação se concentrou em alguns poucos indivíduos subversivos. Patriotas e homens tementes a Deus ajudavam a purgar o país do comunismo neoateísta. A notícia viera em rede nacional: tanques e o exército tomaram as principais capitais do país e destituíram do poder todos os governantes civis. O Movimento da Família, com Deus, pela Liberdade, fora bem sucedido.

– Graças a Deus! – bradou Sant’Anna. – Graças a Deus!

Ajoelhou-se e rezou um Pai Nosso, para agradecer.

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Lucca sempre fez parte da maioria silenciosa. Até se envolver com um colega de trabalho, no meio de uma viagem de negócios. Ele esperava poder ao menos integrar-se à minoria silenciosa. Se vivesse sua vida de aparências, estaria salvo. Mas ele foi imprudente, e cedeu à luxúria no banheiro do restaurante do andar térreo do hotel. O gerente testemunhou a cena e os denunciou.

Todo tipo contestador, desajustado ou de outra forma fora dos padrões estava, agora, sendo preso. A cadeia da delegacia próxima estava já lotada. Enquanto esperava para ser fichado, viu um rosto familiar na multidão de detidos.

– Dona Diana, o que está fazendo aqui?

– Não sabe? Eu sou uma das subversivas.

– O que a Srta. fez?

– Eu publiquei uma paródia desse movimento ridículo. Claro, não ajudou também o fato de eu ser lésbica. Agora eles têm vários elementos para me implicar.

– Eu pensei que este fosse um movimento pela restauração da moralidade pública, defesa dos valores tradicionais e proteção da liberdade dos cidadãos ordeiros, como eu.

– Pois espero que agora você saiba que qualquer movimento que se diga “com Deus” e conclame as Forças Armadas nunca, jamais será “pela Liberdade”.

– Não se preocupe, Dona Diana. O Dr. Sant’Anna jamais irá permitir que sua filha fique muito tempo na cadeia. Ele é muito bem relacionado e vai tirar nós dois daqui.

– Ah, Lucca, como você é ingênuo! Não espere misericórdia de ninguém. Nem do papai. A despeito dos ideais hierárquicos dos reaças, nos calabouços políticos, todos são iguais. Igualmente desumanizados.

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Duas semanas depois da Restauração, com um presidente militar, o Congresso fechado, os partidos proscritos, diversos corruptos presos, políticos cassados, os movimentos baderneiros na ilegalidade, as leis contrárias à ordem divina suspensas, a ralé posta pra trabalhar (ou obedientemente disciplinada num exército de desempregados) e o salário mínimo congelado, Sant’Anna não entendia por que sua visão rubra persistia. Inquieto, foi ao médico. Feitos os exames, veio o diagnóstico. Tumor cerebral. Alterações de personalidade, irritabilidade, capacidade de empatia afetada, crenças de tipo binário eram comuns nesses quadros. Mas o pior não era isso. Sant’Anna tinha apenas três meses de vida. Não teria tempo para testemunhar a utopia conservadora que ajudou a construir.

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Pena de morte; linchamento de criminosos; fim de quaisquer políticas de redução das desigualdades sociais, bem como dos subsídios do Estado às pessoas carentes, inclusive na forma de escolas e hospitais públicos (mas não dos incentivos e renúncias fiscais às grandes indústrias, monoculturas agroexportadoras e empreiteiras, que geram emprego e renda, e fazem a grandeza deste país); revogação de leis de proteções das minorias. A política é purgada de todos os indivíduos e movimentos contestadores. A obrigatoriedade da educação religiosa é restituída. As leis se tornam mais abrangentes e mais duras; o Estado, mais vigilante quanto às virtudes do cidadão de bem. Lentamente, o analfabetismo e a pobreza multiplicam-se, com o abandono dos sonhos totalitários da educação e prosperidade universais. Pouco a pouco, até a servidão é restaurada. Os privilegiados se sentem habitantes de uma Nova Atenas. O fantasma do comunismo é exorcizado e, com ele, o frágil edifício da liberdade.

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