carta

Cara Diana,

Eu sou reaça. E não me orgulho.

Sou reaça porque é preciso disposição para o conflito. Não existe evolução sem revolução. A mudança não acontece sem a dor, sem a escolha, sem o abandono do que era antes, sem o rompimento com o que é, por enquanto, normal.

Nem sempre é necessária a porradaria. Pode-se, e deve-se, fazer um gentil convite antes. Infelizmente, se você for mulher, negro, gay, deficiente, idoso, criança ou de outro grupo visto como fragilizado por qualquer razão, a necessidade do conflito se amplia. Recorrentemente, o gentil convite à reflexão vindo de um membro desses grupos perde força porque há um consenso de conforto coletivo mesmo nessa situação de merda.

Mas eu sou reaça hoje. Adotei a atitude reaça de evitar a revolução. Me calei, não gritei o que merece ser gritado, não escancarei o que necessita ser escancarado pra sujeira aparecer e então começar a ser limpa. Calei porque eu tenho dúvidas e medo das dúvidas. Nesse momento, sinto raiva, por isso escolho reaçar para esperar a raiva adormecer. O medo de agir injustamente me faz escolher a reacez. Só por hoje, eu não brigo pelo o que eu acredito porque não se deve agir enquanto o sangue ferve. Aguardo a frieza se instaurar para chamar minha porção revolucionária à ação. E daí, planejar e executar a revolução.

Cordialmente,
Linda.

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Crédito da imagem: Blog “Femiology” <http://femiology.com/the-lost-art-of-correspondence/>

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