– Por que você se consome tentando convencer os outros do seu valor?

A pergunta, feita por um dos raros amigos que tivera, e já décadas antiga, ecoava na sua cabeça. “Por que nunca consigo me fazer entender?”, indagou-se intimamente, antes de responder, contrariado:

– Não é aos outros que estou tentando convencer. É a mim mesmo.

Lembrava também das palavras ditas, certa vez, por sua psicóloga:

– Você tem que entender, meu caro, que a vida não é uma sinfonia. Ela não se constrói lindamente, coerentemente, rumo a um final perfeito e belo. Em meio a lampejos de harmonia, ela é também desafinada, tumultuosa, imprevisível, dolorosa. Você bem o sabe, mas não aceita, e sofre dobrado por isso. A vida é diferente da arte: não se pode controlá-la. A vida é um esboço. O ser humano é um ensaio.

Ele foi ainda pequeno considerado um prodígio, com um futuro brilhante. A carreira acadêmica parecia o desaguadouro natural para o fluxo caudaloso de suas ideias, e foi aceito no doutorado com uma hipótese ousada. Tudo que precisava fazê-lo era demonstrá-la. Reescreveu a tese duas vezes. Parou no meio da terceira tentativa, inseguro da firmeza de seus argumentos.

– Foda-se! O que interessa é defender a porra da tese! Entrega do jeito que tá! – disse seu orientador num rompante, após dois anos de discussões infrutíferas.

Mas ele não poderia contentar-se com uma solução tão simples e pragmática. Perdeu o prazo. Teve de devolver todo o dinheiro da bolsa de estudos. Queimou para sempre seu filme na academia. Pouco importava, aquele não era seu lugar.

Entendia o mundo com bastante clareza, e estupefava-se com os diagnósticos e prescrições simplistas que proliferavam entre aqueles que queriam transformá-lo. Despretensiosamente, começou a escrever textos onde tentava coordenar seu forte senso de justiça com uma filosofia coerente e um raciocínio estratégico claro. Seus escritos circulavam entre os pares e eram sempre cumprimentados como o novo estado-da-arte da crítica social. Talvez demasiadamente “arte”. Horrorizou-se quando, em meio à convulsão política, suas palavras eram distorcidas para justificar a execução de estadistas, altos servidores do Estado, pequenos burocratas, autoridades religiosas, criminosos, direitistas, esquerdistas, dissidentes e, por fim, ele mesmo. Ninguém entendera uma só palavra do que havia escrito.

Exilou-se, trocou de identidade e decidiu jamais voltar a dizer um “ai” sobre política. Pensou em empregar seu talento para combinar as palavras para desenvolver suas ponderações existenciais de modo mais poético. Talvez sensibilizar, e não convencer, fosse sua tarefa. Era por demais intuitivo para se expressar da forma técnica e minuciosa que a ciência exigia, e por demais sensato para se restringir à maneira direta e reducionista do discurso político. Esqueceu-se das teses e panfletos. Escreveu dois romances que foram recusados pelos editores. Destruiu-os, junto com o terceiro, inacabado. Entendia o mundo com bastante clareza, mas não sabia como comunicá-lo.

Sobrevivia de migalhas. Não conseguia engatar num emprego. Este demandava muito trabalho repetitivo, que não se coadunava com sua mente criativa; aquele requeria muito contato humano, para o qual nunca foi talhado.

Amizades e relacionamentos foram poucos e breves, extintos, apesar dos seus melhores esforços, com as mais duras palavras. O momento chegou em que desistiu de se comunicar, não mais por não se conseguir fazer entender, mas porque não entendia mais a si mesmo. Não mais se enamorava da própria sensibilidade. Tudo que nele fora ternura transmutou-se em amargor.

Tentou isolar-se, mas a realidade batia à sua porta. Seu estoque de batatas esgotava-se, sua conta bancária estava zerada e não tinha pessoa física ou jurídica a quem pedir um empréstimo. Agora, a notificação de despejo chegava pelo correio.

Um esboço? Isso era muito menos do que estava disposto a aceitar da vida.

Enfim, deu-se uma última chance de convencer a si mesmo, deixar um legado. Mas há tempos não conseguia mais pensar com clareza. Desenhou bem grande numa folha de papel ofício:

Nunca mais

Testou a resistência da corda antes de posicionar sua cabeça na abertura do nó.

Testou errado. Bateu com a cabeça sobre o piso frio.

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