Fulano viu uma pesquisa que o deixou enraivecido. Quase 70% dos entrevistados responderam que mulheres mereciam ser estupradas se não usassem roupas adequadas. Para piorar, a campanha “Eu não mereço ser estuprada” foi vandalizada por uma série de reafirmações do direito masculino de violentar quem não estivesse vestida à maneira taleban. Para estes seres, a culpa seria das mulheres, que incitariam os desejos dos machos.

Essa situação não estava acontecendo nos países mais frequentemente acusados de conservadorismo e submissão das mulheres, como pela religião. Não, era no Broxil, considerado moderno e liberal, das praias e carnavais.

Seja como for, Fulano, como homem bem-intencionado, precisava dar um jeito nisso. As soluções eram simples:

* Todas as mulheres teriam obrigação de passar por cursos de defesa pessoal israelense krav magá e de técnicas japonesas ninjas. Além disso, teriam porte obrigatório de spray de pimenta e facão de cozinha.

* Os homens que fossem desrespeitosos com as mulheres seriam castrados e espancados.

 

Sicrano achou até que interessantes as ideias de Fulano, apesar de um tanto violentas e selvagens. Mas acabou propondo um plano considerado ainda mais infeliz:

* Os homens que infringissem regulamentos de respeito ao gênero mereceriam ser estuprados pela polícia gay. Mas estes teriam o direito de escolher o tipo de punição. Se o criminoso fosse considerado bonito, poderia merecer a punição estupratória pela seleta guarda gay – todos devidamente concursados. Se fosse considerado feio, quem aplicaria a estrupatória punição seria outro homem considerado culpado por infrações.

Representantes da comunidade gay protestaram e o acusaram de ser homofóbico e desrespeitoso. Por acaso ele achava que eles fariam sexo com qualquer um? Que sua vida sexual poderia ser encarada dessa maneira funcional, como punição?

 

Beltrano, apesar de afirmar que compreendia o mérito das propostas anteriores, disse que tinha bolado outras que, segundo ele, seriam mais eficazes e não-ofensivas:

* Reciprocidade no modelo de vestimentas: se as mulheres não podiam mostrar os peitos, as bundas e as coxas, os homens também não poderiam. Aliás, como compensação por tantas centenas de anos consideradas inferiores, os homens deveriam passar a usar burcas.

* Os homens, para merecer viver entre as mulheres, primeiro precisariam passar por uma treinamento, até serem aprovados pelo conselho de preparação à convivência feminina ou núcleos regionais. Uma das provas seria o candidato observar uma mulher muito bonita passar diante dele e cumprimentá-la, sem utilizar expressões ou condutas ofensivas. Haveria também o teste da simulação do metrô lotado. Até lá, eles viveriam em guetos preparatórios. Caso demonstrassem atitudes desrespeitosas, voltariam aos guetos para reciclagem.

Ah, Beltrano tinha certeza que seu plano estava certo. Só faltava aplicá-lo. E tudo ficaria bem. Ele proporcionaria a devida segurança às mulheres. Infelizmente, seu modelo também não foi aceito. Diziam que suas ideias eram distriminatórias e segregacionistas. As principais opositoras… sim, eram elas, as mulheres!

Claro que elas rejeitaram as ideias idiotas de Beltrano, mas também de Fulano e Sicrano. Não era esse o caminho, elas diziam.

 

Fulana, espantada, disse que, apesar de ela também imaginar ideias violentas de vez em quando, ao testemunhar ou saber de comportamentos machistas, jamais as levaria a sério como propostas. A solução, ela explicou em suas propostas, necessariamente passava pela educação, pressão e conscientização:

* Considerando que todo homem tem mãe, e muitos têm irmãs, filhas, namoradas ou esposas, caberá a elas pressionar seus entes queridos machistas contra suas ideias discriminatórias e agressivas, lembrando-os da existência delas.

* Respeito ao gênero vira disciplina obrigatória nas escolas. Como parte das novas atividades curriculares, os meninos e as meninas precisam escrever na lousa 20 vezes todos os dias: “Não pode estuprar nem estrupar as meninas pequenas ou crescidas, não importa que roupa elas estejam usando, ou até mesmo se estiverem peladas.”

* Os homens e as mulheres já formados também vão precisar passar por um cursinho similar, incluindo dinâmicas de grupo, caso contrário não vão poder pedir passaporte, carteira de trabalho, abrir conta em banco ou linha telefônica.

 

Beltrana nem Sicrana conseguiram explicar suas propostas. Fulana acabou ignorada. Afinal, os homens já estavam brigando para decidir, entre as propostas de Fulano, Beltrano e Sicrano, qual ou quais eram as melhores.

A esta altura, as propostas de Fulano, Sicrano e Beltrano, já tinham começado a despertar a atenção de pessoas ricas e influentes, que foram colocando em prática estes respectivos planos. Justiceiros foram treinados e armados e passaram a atacar, com variado arsenal, todo homem que demonstrasse atitudes suspeitas. Assim como mulheres que estivessem vestindo roupas em excesso ou parecessem conservadoras e machistas.

Tudo isso ocorria a despeito de discussões e opiniões mais cautelosas e civilizadas, que se tentava fazer circular pelas redes sociais e comissões parlamentares.

Fulano foi castrado e assassinado por ultramachistas. Mas, formou-se um exército de seguidores, lembrando dele como mártir, cujo movimento ficou conhecido como Força de Defesa das Mulheres.

As ideias de Sicrano, buscando não constranger a comunidade gay, foram adaptadas por um grupo detentor de tecnologias avançadas, que se denominou Vingadores por Elas. Androides másculos e grossos foram produzidos para a aplicação de punições estupratórias nos considerados culpados. E passou-se a suspeitar que punições estrupatórias foram cometidas e recebidas por centenas dos homems entre os que sumiam e reapareciam, mas emudeciam quando questionados sobre suas lembranças.

Os Amazonos Cobertos seguiram as ideias de Beltrano, apesar de ameaçado por não ter dado o exemplo ao usar a burca primeiro. Eles começaram a criar ecovilas no interior e núcleos populacionais metropolitanos segundo as diretrizes de seu inspirador. Fulana passou a sentir falta de seu amado pai, marido e filhos, segregados e acusados de desrespeito pelos guardiães antimachistas. Ela protestou, mas eles mencionavam critérios confusos de reprovação.

O fato é que não havia tempo para esse tipo de discussão sobre critérios de desrespeito… Seria irrelevante, segundo eles; pois os Amazonos estavam em guerra contra a Força de Defesa das Mulheres e também contra os Vingadores por Elas.

Enquanto isso, as mulheres tentavam insistir nas técnicas educativas e de conscientização. Fomos também obrigadas a desenvolver técnicas reprodutivas por clonagem, porque os homens em conflito foram entrando em extinção. E tivemos que buscar outros destinos para além de Broxil e além da Terra.

 

– Prezadas senhoras, posso dizer que são bem vindas a este planeta e vamos lhes prestar auxílio para aprimorar ainda mais seu sistema de clonagem. Nossos homens e mulheres vão lhes receber em paz. Só tem um detalhe que para mim ainda é difícil de acreditar.

– Sim?

– As pessoas em sua terra natal realmente achavam que a culpa das agressões masculinas às mulheres… eram das roupas que elas usavam? E isso era um problema difícil de resolver? Desculpe, mas é difícil acreditar nisso.

[Contribuições de Renata Milan ao texto, homenagem às mulheres… e aos homens sensatos]

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