O dia estava frio. Num quiosque na Barra, Mateus Topalov desfrutava de drinks tropicais sofisticados, enquanto assistia patos marinhos sobrevoando ondas atrás de peixes. Nuvens gigantescas enrugavam-se no céu e sobre a água, como que posando para os poucos observadores na orla. Uma chuva fina surgia discreta e se intensificava sem pressa, mas sem repouso. Topalov ajeitava seu casaco contra o frio, mas seu interior queimava. Deveria estar satisfeito. Foi à praia para comemorar, mas suas emoções foram mudando.

Há alguns meses, um funcionário de uma plataforma de petróleo manejou displicentemente material químico, que gerou uma pequena explosão. Mateus caiu no mar. O acidente lhe quebrou algumas costelas e quase morreu afogado. O funcionário se desculpou como pôde, mas foi demitido. No entanto, Mateus não o perdoou. Foi o maior trauma de sua vida e justamente por causa do desleixo de um funcionário, que não estudou um terço do que estudara para estar lá. Filho de pais rigorosos, sempre foi estimulado a ter o máximo de desempenho em qualquer atividade. Quase morrer por um funcionário que parecia ter valores opostos lhe foi um ferimento para além do corpo. Desejava puni-lo e processou-o, mas a indenização recaiu à empresa. Pesquisou a rotina do funcionário e conseguiu provocar-lhe um incêndio no barco de pesca onde ele estava com alguns amigos. Queria apenas que sofresse o que sofreu, mas todos os que estavam no barco morreram incinerados.

Suas abstrações na praia flutuavam pela família dos mortos e pelo sofrimento dos queimados. Divagava sobre o inútil e farto mar ao redor, que não pode eliminar o fogo na embarcação, quando um relâmpago o trouxe de volta ao quiosque. O remorso talvez seja mais difícil de suportar do que o ódio. Saiu bêbado cambaleando pela chuva sem a paz dos psicopatas. Policiais ainda talvez o esperassem na esquina.xplatform

Autor: Fábio Terre

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