Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cemetery_in_fog_(335717947).jpg
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– Ei, boneca.  Eu te dou cinco reais por essas flores. – disse o homem, dando o seu sorriso mais maroto.

Em resposta, a viúva cuspiu no rosto dele, e então seguiu seu caminho.

O homem soltou um palavrão e limpou o rosto. Por que tinha sido logo ele o sorteado para por flores no túmulo do bisavô? E por que diabos o seu ancestral tinha que estar enterrado em um cemitério que proibia vendas nos arredores? Não era mais simples…

– Te dou um buquê de graça se você for meu acompanhante – disse uma voz fraca.

O homem se virou e viu um rapaz vestido em couro preto sintético, que estava com um carrinho cheio de buquês em mão.

– Olha cara, nada contra, mas essa não é a minha praia. Na verdade, eu…

– Não é disso que estou falando, imbecil! – disse o rapaz, pondo um pouco de vontade na voz – Eu vim visitar minha família, e quero alguma alma viva com quem falar. Por que não ajudamos um ao outro?

– Pois bem. Mas diga… Vai demorar muito?

– Imagina.

– Esse era meu primo – disse o rapaz se abaixando para por um buquê no túmulo – Ele morreu em um acidente de carro. Bem na noite de natal. A Família nunca se recuperou disso, sabe?

– Dureza… – comentou o homem, dando o melhor de si para se importar de verdade. – Se serve de consolo, meu último natal também foi horrível. Eu viajei ao rio, mas bebi tanto que…

– Essa era a assassina do meu primo – disse o rapaz, indo até o túmulo adjacente e depositando outro buquê nele – Ela se jogou de um prédio quando descobriu que o homem que ela havia matado em um acidente de carro era o irmão do seu noivo.

Ao ouvir isso, o homem ficou atônito.

– Vish. Mas que coincidência miserava…

– Esse era o noivo da assassina do meu primo – continuou o rapaz – Ele cortou os pulsos quando descobriu que sua noiva havia se jogado de um prédio quando descobriu que o homem que ela havia matado em um acidente de carro era o irmão do seu noivo.

– Caramba, deve ter…

– Essa era a mãe do noivo da assassina do meu primo. – Ela morreu de tristeza quando descobriu que seu filho cortou os pulsos quando descobriu que sua noiva havia se jogado de um prédio quando descobriu que o homem que ela havia matado em um acidente de carro era o irmão do seu noivo.

– Esse era o marido da mãe do noivo da assassina do meu primo. Ele teve um ataque cardíaco quando descobriu que sua esposa tinha morrido de tristeza quando descobriu que seu filho cortou os pulsos quando descobriu que sua noiva havia se jogado de um prédio quando descobriu que o homem que ela havia matado em um acidente de carro era o irmão do seu noivo.

O homem nem se deu a trabalho de abrir a boca.

– Esse era o irmão do marido da mãe do noivo da assassina do meu primo…

– Ainda falta muito?

– Vai passar mais rápido do que você pensa.

– E essa era a colega da médica do colega de bar do capitão do professor do inimigo do chefe do supervisor da colega da vizinha do namorado da amiga da nora do genro da cunhada da amiga do avô da tia da neta do irmão do marido dá… Ei! Nada de puxar o buque antes da hora!

– Essa, por fim – disse o jovem, puxando o penúltimo buque do seu carrinho – Era a prima do assassino da noiva do pai da esposa da irmã do neto do tio da avó do amigo do cunhado da nora do genro do amigo da namorada do vizinho do colega da médica do colega de bar do capitão do professor do inimigo do chefe do supervisor da colega da vizinha do namorado da amiga da nora do genro da cunhada da amiga do avô da tia da neta do irmão do marido da mãe do noivo da assassina do meu primo. E minha namorada. Ela se matou a colheradas de tanto desgosto quando descobriu que o bolo do funeral estavam meio seco quando…

– Afinal, todo mundo nessa família morreu foi?

– Não – respondeu o rapaz – não enquanto eu ainda respirar.

Vendo que só restava um buquê e que o próximo túmulo estava aberto, o homem resolveu tentar a sorte.

– Olha meu chapa, eu posso pegar meu buquê?

– É claro que não! Ainda falta uma cova!

– Como? Mas ela está vazia!

– Esse, meu caro, é o tumulo do desgraçado que matou todos os que eu conhecia neste mundo miserável!

– Quem? O melodrama?

– Você!

Por alguns momentos, os dois se olharam.

– Então… – começou o homem, entediado demais para sentir medo – posso ir embora?

Em resposta, o rapaz sorriu.

– Você não lembra da viagem para o Rio?

– Cara, aquela viagem foi punk demais. Eu só me lembro de ter feito as malas, entrado no avião… E depois de acordar de ressaca no sertão do Piauí. Merda, até queria tentar fazer um tour no Rio de novo, mas os médicos disseram que meu fígado ia explodir se…

– Silêncio! Não importa se você estava bêbado ou não – Continuou o rapaz – Você terminou com ela… Na noite de natal! A coitada dirigiu a esmo e acabou batendo no irmão do…

– CHEGA DISSO!

– Eu não quero nada de você! Na verdade, eu quero lhe entregar uma coisa… A justiça! – disse ele, apontando a arma para o homem.

Em seu último suspiro, um protesto.

– Isso é papo de escritor russo!

 

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