– Mãe? Por que Pauli não pode ressuscitar, como Jesus?

A menina comia com a mãe na mesa da sala, grande demais para apenas elas duas. A pergunta parece coisa de criança, mas a verdade é que Cris já era maior de idade. Perguntou pois o dia era propício, um domingo de Páscoa, alguns meses após a morte de sua irmã mais velha, Pauli. A mãe suspirou nervosamente e pousou o garfo ao lado de seu prato.

– Por favor, não comece.

– Você acha que foi por que ela se envolveu naquele acidente? Por isso não pôde viver conosco mais algum tempo?

– Você já viu alguém ressuscitando, Cristina? Viu seu pai se erguendo do túmulo e jogando na nossa cara o dinheiro que ele devia ter deixado de dar para as putas amantes dele e pagado as dívidas? Você viu isso acontecer?

Cristina abaixou os olhos, remexeu seu purê, pensativa.

– Você acha que tem alguma forma de falar com ela?

A mãe tinha o olhar fixo, perdido no horizonte. Levantou-se devagar e se encaminhou para a porta. Ao chegar a ela, virou-se com os olhos estreitos.

– Jesus ressuscitou porque era santo. Nós todos merecemos o inferno. O desgraçado do seu pai, que o capeta o tenha, que o diga.

Cristina não acreditava em inferno. Pensava acreditar em Jesus, mas talvez porque fosse mais cômodo, devido à fé de sua mãe. O interessante foi que contrariou suas crenças em busca de alguma resposta que apaziguasse sua alma inquieta. Perdera o pai há muitos anos, mas a perda recente da irmã vinha perturbando até mesmo seus sonhos. Sua mãe acreditava em alguma maldição sobre a família do noivo de Pauli, pois todos foram morrendo após o suicídio da garota. E se tivesse alguma forma de comprovar essa teoria, ela poderia descobrir. Procurou cartomantes, e mulheres de todo tipo, até que conheceu Dona Rosa, impostora de mão cheia, que ganhava dinheiro mentindo profissionalmente. Claro que, como vidente respeitosa, tinha bola de cristal, toalhas coloridas e enfeitadas; enfim, todo o aparato. Cristina a conheceu como que por passe de mágica, um sinal, como gostava de pensar. Passou em frente à porta dela e viu o anúncio. Entrou.

A sala cheirava um incenso forte, doce, estonteante. Era escura o bastante para passar o clima de mistério necessário, e de quebra, esconder as teias de aranha. Dona Rosa tinha melhores usos para seu dinheiro do que a limpeza do local.

Em algum lugar, um sino dos ventos liberava uma melodia suave. Ao mesmo tempo que Cristina sentia uma sonolência, Rosa abriu uma porta anexa e com o mover de um dedo, chamou-a à sua sala.

Não falaram nada. A menina sentou-se em frente à senhora, que passava os dedos velhos pela bola, fazendo a névoa interna girar rapidamente.

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– Estás aqui por algum motivo muito especial, não é pequena?

Cristina gelou. Marcos, o noivo de sua irmã, costumava chamar Pauli de pequena também.

– Ahn… sim. Minha irmã. Se matou. Queria ter algum… quero dizer, se é possível, algum contato com ela. Do Além?

Dona Rosa fechou os olhos, enrugando ainda mais o rosto vincado. Apertava a bola de cristal até a ponta de seus dedos ficarem brancas. A névoa mudava de cor.

– Minha criança, sua irmã… está quase fora de contato. Estou buscando aproximação, mas ela é como bichinho assustado, foge de mim… algum motivo para crer que ela não queira conversar com você ou alguém da sua família?

– Bom, talvez. Minha mãe e eu nos distanciamos dela depois do acidente em que ela matou um rapaz, o irmão do noivo dela…

– Claro, claro minha filha, vejo tudo! Ela está me dizendo que era noiva de Marcos Rumbla, não é isso mesmo? Filho do advogado da Rumbla & McKey?

– Isso! Que mais ela está dizendo?? – Cristina torcia as mãos suadas no colo, ansiando pelo momento que a irmã tomaria o corpo de Dona Rosa e então ela poderia pedir-lhe desculpas pela distância nos últimos anos, por tê-la chamado de assassina, por tê-la deixado morrer sem a paz necessária entre pessoas de família. Talvez assim ela pudesse descansar em paz, e não ficar vagando no purgatório… no além. Mas pra onde iria? Céu, inferno? Isso existia mesmo?

– Minha pequena, ela diz que não deve conversar com você. Que sabe que foi considerada assassina por todos na cidade e que você e sua mãe não facilitaram sua culpa. Que por isso, por toda pressão, ela acabou se matando da maneira trágica como foi.

– Ela sabe que todos da família de Marcos se mataram também? Os viu?

– Ela sabe e diz que foi muito bom que não sofresse sozinha.

– Não parece algo que ela diria…

– Claro que não parece, ela lá está viva agora? Quando a morte vem, minha filha, só nos resta inquietação, vingança e ódio.

– Por favor, Dona Rosa, diga a ela que me perdoe. Não posso ir embora daqui sem isso, sem o perdão, não consigo seguir em frente, foram tantas mortes…

– Não comece a chorar, pequena, eu…

E a possessão veio. Ou o que Dona Rosa gostava de considerar, um alterego. Deu uns tremeliques na cadeira, as luzes piscaram repetidamente até se apagarem por completo. Enquanto Cristina se levantava e gritava, Rosa bateu a mão na bola de cristal até que se espatifasse no chão. A menina correu à porta, mas estava trancada.

– Irmã. – Rosa imóvel na cadeira, com sua própria voz.

– Pauli? É você? Por favor, me perdoe…

– Irmã, está tudo certo. Marcos morreu, todos eles morreram. Não queria que fosse assim, mas pelo menos agora a família está livre da Maldição dos Rumbla.

– Que maldição é essa, Pauli? Você sabia disso?

– Essa maldição veio há quatro gerações, quando o tataravô do Marcos traiu a mulher com uma das criadas e ela engravidou. Sua mulher, que mexia com bruxaria, rogou uma praga em todo filho homem a ser gerado a partir do primeiro bastardo. Determinou que mulheres os decepcionariam tanto que os levariam a morte. Marcos morreu, assim como seu irmão e seu pai. Os três, por causa de mulher.

– Pauli, isso é terrível… eu… não acredito que se envolveu com eles, eu…

– Cristina, chega. Te perdoo. Agora é hora de voltarmos para casa. Ficarei bem.

Antes que Cristina pudesse dizer algo, as luzes se acenderem e Dona Rosa levantou-se de um sobressalto.

– Ora ora, isso foi muito interessante, não?

– Não tenho palavras… A senhora se lembra do que aconteceu?

– Sim, me lembro. É muito curioso deixar alguém falar com seu corpo e sua voz. Mas estamos aí pra isso – Se espreguiçou. – Ora ora, vejo que quebrou minha bola.

– Eu… não sei o que houve, desculpe.

Dona Rosa sentou-se e tomou as mãos de Cristina, olhando fundo nos seus olhos.

– Está bem, querida?

A garota suspirou aliviada, encheu os pulmões com o ar viciado da sala, mas que agora parecia tão puro, tão limpo.

– Estou – sorriu como há muito tempo não sorria.

– Muito bem – a velha deu-lhe um tapinha no ombro – a sessão custou 540, mais a bola de cristal que é uma relíquia, boa mesmo, uns, digamos, 400?

– …

– Cheque?

***

Dona Rosa fechou a porta após a saída de Cristina. Limpou os cacos de vidro do chão e recolocou outra bolinha de névoa colorida no lugar. Escondeu melhor os jornais antigos sobre a morte muito comentada dos Rumbla por causa da menina Pauli, assassina de Fernando Rumbla e posteriormente, suicida. Foi à pequena cozinha no fundo da sala de vidência e sentou-se no degrau que dava para o jardim. Acendeu um cigarro e alisou seus cabelos grisalhos, suspirando. Tragou uma. Gostava de se considerar não impostora, mas mulher necessária ao bem estar de pessoas desesperançadas. Como agir com uma menina desolada com a morte da irmã após tanta tragédia? Será que fingir que recebera a presença da morta para perdoar-lhe os pecados era tão errado assim?

Olhou o cheque de quase mil reais. Pensou em sua janta, pão velho com ovo das galinhas de seu próprio quintal. Tragou de novo, bem fundo, e jogou o cigarro na terra. Levantou-se sofregamente e foi ao banco, depositar todo dinheiro na conta de seu filho drogado e violento, mas que no momento, era tudo que ela tinha. Sim, família era tudo. Paz de espírito também.

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