Disponível em:   http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cartomante.jpg
Disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cartomante.jpg

A sala cheirava um incenso forte, doce, estonteante. Era escura o bastante para passar o clima de mistério necessário, e de quebra, esconder as teias de aranha. Dona Margarida tinha melhores usos para seu dinheiro do que a limpeza do local.

Em algum lugar, um sino dos ventos liberava uma melodia suave. Ao mesmo tempo que Cristina sentia uma sonolência, Margarida abriu uma porta anexa e com o mover de um dedo, chamou-a à sua sala.

Não falaram nada. A menina sentou-se em frente à senhora, que passava os dedos velhos pela bola, fazendo a névoa interna girar rapidamente.

– Estás aqui por algum motivo muito especial, não é, pequena?

É claro que estava. Ninguém ia até um lugar daqueles para buscar boas noticias, do mesmo jeito que ninguém vai a um médico para contar vantagem sobre a própria saúde.

– Sim… Eu… – chorou ela, tentando se controlar. – eu…

– Eu vejo uma grande tragédia. – Mentiu a suposta vidente. Dona Margarida cuidava da sua rede de fofocas com o esmero de uma artesã. Jornais, amigos, a internet e às vezes até detetives… Mas daquela moça, a vidente nada sabia.  – Seja forte, minha pequena.

Bem, um desafio era sempre bom de vez em quando.

–  Eu não sei o que  fazer… você sabe, não é? – disse a garota, trêmula. –  O desgraçado… Morreu… Ele era tudo que eu tinha…  – Você… É muito forte. Eu, eu, eu… Queria ser assim. – Por um momento, um sorriso resplandeceu na ruína borrada do seu rosto – Como você aguenta lidar com a morte cara a cara?

Dona margarida, mais que uma vidente, se considerava uma curandeira. Todo tipo de alma quebrada entrava na sala dela e saía são. Sanar os outros. Esse era seu motivo de viver. Sanar os outros, zelar pelo seu filho perdido e viver para fumar mais um dia. Essa era sua desculpa.

– Pequena, não temos que temer a morte, nem chorar pelos mortos. A vida não é uma chama que se apaga em cinzas. É flor que só murcha para poder brotar de novo. Eu vou lhe mostrar.

Dona Margarida fechou os olhos, enrugando ainda mais o rosto vincado. Apertava a bola de cristal até a ponta de seus dedos ficarem brancas. A névoa mudava de cor.

– Minha criança, ele… está quase fora de contato. Estou buscando aproximação, mas ele é como bichinho assustado, foge de mim…

– Ele… Ele era um teimoso desgraçado… Morreu por causa disso.

Era tudo que Dona Margarida precisava ouvir.

– Minha pequena, ele diz que não deve conversar com você. Que… Está com vergonha do que fez. Que sabe que foi um idiota.

– Ele sabe o sofrimento que ele causou? Viu o que aconteceu com o coitado com quem ele brigou? Viu a noiva grávida dele tentar…

– Ele sabe e diz que foi muito ruim ter causado tanto sofrimento – interrompeu Dona Margarida.

– Não parece algo que ele diria…

– Claro que não parece, ele lá está vivo agora? Quando a morte vem, minha filha, só nos resta inquietação, o arrependimento e a saudade.

– Por favor, Dona Margarida, diga a ele que me perdoe. Não posso ir embora daqui sem isso, sem o perdão, não consigo seguir em frente, foram tantas mortes…

– Não comece a chorar, pequena, eu…

E a possessão veio. Ou o que Dona Margarida gostava de considerar, um alter ego. Deu uns tremeliques na cadeira, as luzes piscaram repetidamente até se apagarem por completo. Enquanto a menina olhava assustada, Margarida cogitou bater a mão na bola de cristal para que se espatifasse no chão. Mas ela se absteve. A menina já estava chocada o bastante, e de qualquer formar ela não parecia ter a verba para pagar por uma bola nova.

– Querida. – Margarida imóvel na cadeira, com sua própria voz.

– É você?

– Querida, está tudo certo. Eu fiz o que fiz, e não há mais volta para mim. Não queria que fosse assim, mas não adianta chorar por mim. Siga em frente, arrume alguém que mereça mais seu amor do que eu.

– Eu… não acredito que…

– Chega – Interrompeu Dona Magarida. Ela tinha errado na dose, pelo visto. – Não precisa me perdoar, mas ao menos perdoe a si mesma. Agora é hora de recomeçar sua vida, de sair do passado. E eu… Eu tenho contas a pagar.

Antes que a menina pudesse dizer algo, as luzes se acenderam e Dona Margarida levantou-se de um sobressalto.

– O que aconteceu?

– A senhora não se lembra do que aconteceu?

– Sim, me lembro.  Um pouco – Disse ela, pondo a mão na cabeça. – É muito curioso deixar alguém falar com seu corpo e sua voz. Mas estamos aí pra isso – Se espreguiçou.

– Eu… não sei o que houve, desculpe.

Dona Margarida sentou-se e tomou as mãos de Cristina, olhando fundo nos seus olhos.

– Não há por que se desculpar – disse ela, sincera. Nada pior do que ver alguém sofrendo por uma pessoa indigna de qualquer martírio.  – Está bem, querida?

A garota suspirou aliviada, encheu os pulmões com o ar viciado da sala, mas que agora parecia tão puro, tão limpo.

– Acho que sim…

– Muito bem – a velha deu-lhe um tapinha no ombro – a sessão custou 600, mas para você eu dou um desconto de dez por cento, está bem.

***

Na saída, Dona Margarida percebeu uma coisa: ela não tinha perguntado quem a garota tinha perdido.

– Pequena… O espírito que eu contatei estava um pouco revolto. Ele me usou para falar com você, mas não quis revelar a sua identidade. Perdoe a curiosidade de uma velha, mas… Com quem você estava falando?

– Ele… Ele não te falou quem era?

– Fazer o quê? Os mortos são tão caprichosos quanto os vivos.

– Teimoso até depois do fim… – Disse ela, olhando para algumas ervas-daninhas que cresciam na calçada. – Ele era meu namorado.

– E qual seria o nome dele?

Por um momento a garota gelou.

– Ele nunca te falou de mim não foi? Nem… Nem agora… Era seu filho, Jesus Margarida.

A vidente, ao ouvir isso, teve um pequeno big crush no coração. A garota falou algo, mas ela não ouviu. Avançou sem rumo pela calçada, olhando para o nada, tentando pela última vez achar o deus que dividia o nome com seu filho. A algumas ruas de distância, um carro importado andava a esmo, fadado a conceder em poucos instantes a Dona Margarida a sua hora da estrela.

Anúncios