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Estava arrasado. Andou a esmo por algumas horas. Não podia acreditar. Luíza era sua família, era tudo o que tinha. Depois de tanto tempo, de tanto amor, como podia abandoná-lo? Nada mais importava. O dinheiro, o sucesso, o status. Não queria mais voltar para casa. Entrou num pé-sujo de esquina, comprou uma garrafa de caninha das mais ordinárias e saiu tonto, com os olhos ofuscados pelas lágrimas a molhar o peito com aquele cheiro de ruína.

 Alta noite viu uma plaquinha num portão de balaústres, numa ruazinha de terra. “Mãe Francisca”. Qualquer pessoa com essa palavra antes do nome poderia ser boa nesse momento. Entrou e bateu na porta. Uma senhora negra, corpulenta e amarrando o roupão sobre a camisola apareceu desconfiada na janela. Já devia estar acostumada com bêbados batendo à sua porta em horas impróprias. Tinha cara de mãe de todos os desvalidos das redondezas. Abriu a porta sem espanto. Ajudou-o a subir os dois degraus de piso de vermelhão e se afirmar no assoalho encerado coberto com tapetes de barbantes.

 A casa cheirava a incenso. Era de madeira, e o frio parecia entrar pelas frestas. Mas nada poderia esquentar mesmo o coração daquele homem. Nunca mais conseguiria se equilibrar no mundo. Chorava e contava pequenos episódios que provavam que Luíza o amava. Como e por que o havia deixado? Mãe Francisca foi até a cozinha enquanto ouvia e preparou-lhe um café. Ah, Luíza adora café! E o choro recomeçava.

 Quando se acalmou pediu para ler sua sorte. Mãe Francisca sentou-se, abriu uma caixinha, tirou um baralho de dentro e espalhou sobre a  mesa. Perguntou o que ele queria saber. Queria saber se Luíza voltaria.

Se conseguiria voltar a se concentrar em sua carreira ou se estava tudo perdido. Era rico, bonito, famoso, querido e feliz. De repente via tudo se perder. Sem o amor de sua vida, não sabia como continuar. Sentia que perderia tudo.

 Mãe Francisca coçou a cabeça, sem saber por onde começar.

  – Olha, vamos deixar as cartas e os búzios de lado um pouco. Vamos falar como mãe e filho.

 – Sim, mãe… – precisava ouvir qualquer coisa.

 – Qual é o teu nome? Me fale um pouco de você.

 – Meu nome é Marcelo. Sou um músico famoso. Tinha tudo o que desejei na vida. Vivia feliz. Tudo perfeito. Quando pensei que estava no auge da felicidade, ela, minha amada Luíza, me deixou. Agora não sei o que fazer… estou perdido.

 – Como é Luíza? Me fale dela. – perguntou enquanto segurava as mãos trêmulas e frias do homem e lançava um olhar para a mesinha ao lado do sofá puído, onde tinha uns três ou quatro livros de romance do tipo Sabrina.

 – Ah, ela é perfeita!… Linda, inteligente, maravilhosa. Loira, alta, magra, olhos azuis, pele perfeita, corpo perfeito. Era minha companheira, minha mulher, me dava apoio em tudo, sempre concordava comigo, me admirava… Mas de repente.

 – E onde a conheceu? Se lembra? – Ajeitou-se na cadeira onde equilibrava seu enorme quadril e olhou bem nos seus olhos.

 – Foi… Mas isso pouco importa agora. Por que estamos falando do passado? Quero ela de volta. Leia a minha sorte, por favor. Veja se ela vai voltar para mim.

 – Pois bem, vamos. Espere um pouco, que eu preciso dar um telefonema.

 Esfregava as mãos nas pernas enquanto ouvia o cochicho de Mãe Francisca no telefone, no quarto ao lado. Ela voltou para a sala e sentou-se à sua frente. Pegou novamente em suas mãos e tentou ser o mais maternal possível.

 – Marcelo, vejo que ela não voltará.

 – Mas a senhora nem jogou os búzios ainda… nem olhou as cartas.

 – Não preciso fazer isso para saber. Ela não voltará e você perderá tudo o que tem.

  – Eu sabia… como a senhora sabe?

 – Sei porque fui eu quem te deu tudo isso. E agora estou tirando. Sei porque ela nunca foi tua de verdade. Você nunca teve nada…

 Arregalou os olhos. Não podia compreender. Do que aquela charlatã estava falando? Estava confuso. Não tinha como responder, só podia xingar a mulher à sua frente, que aproveitava seu momento de fragilidade para zombar dele, talvez vislumbrando alguma forma de lucrar com sua desgraça. Nem sabia mais por quê entrara naquela pocilga.

 – Sim, você tem razão, Marcelo. Engano as pessoas, me aproveito de suas fragilidades para iludi-las e tirar proveito disso. Mas agora, nesse momento, estou fazendo o contrário. Estou tentando desfazer o mal que te fiz. Teu nome não é Marcelo. Você se chama Cleovaldo, é baixinho, careca, gordo, feio, pobre e trabalha numa fábrica de graxa. Mora sozinho numa pensão, vive sozinho, não tem ninguém. Tua vida é insuportavelmente chata e triste. Por isso me procurou. A primeira vez por curiosidade. Depois passou a vir semanalmente. Não tinha capacidade para mudar sua vida, então pedia para que alguém te iludisse que ela mudaria como mágica. Eu fiz o que me pedia. Previ que você teria tudo o que sonhava. Te disse que todos os teus sonhos se realizariam. E você foi acreditando em tudo. Tua vida era tão insuportável que trocou-a pelas mentiras que eu te dizia. Luíza? Eu a tirei daqui – mostrou o livro empoeirado, que deixava na mesinha para os clientes lerem enquanto esperavam – Ela não existe. É só uma personagem de um livro.

 – Pára! Pára! Cale a boca! – gritava de olhos fechados, recusando-se a olhar para a foto que não fazia jus à beleza de Luíza.

  – No começo eu gostei da tua viagem, pois estava gostando de ganhar dinheiro fácil. Mas de uns tempos pra cá você surtou. Largou o emprego, gastou todas as economias, pensa que é músico e  vive num mundo que só existe na tua cabeça. Me arrependi… e por isso chamei ajuda para você. Já estão chegando. Me desculpe…

  – Não! Não!- gritava enquanto avançava para cima da mulher que, de pé do outro lado da mesa, tentava remediar o estrago que fizera.

 Dois homens seguraram seus braços e o forçavam a se retirar da sala. Ele se debatia, como um criança, chorando compulsivamente e com o nariz escorrendo. Depois de descer a escadinha, parou de se remexer, pediu com sinais para que o soltassem. Entrou de volta, enxugando o nariz na manga do pulôver cinza, suspirou e, sem olhar para Mãe Francisca, pegou algo da mesa. O livro. Apertou-o contra o peito e foi caminhando sem resistência até a ambulância. Sorriu ao sentar-se calmamente. Luíza o amava. Sim, ela o deixou para salvá-lo.

– Luíza…

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