Por Nicole Siebel

Angélica seguia pelo corredor imaculadamente branco, enquanto ajeitava o jaleco. Tinha nas mãos o prontuário do paciente que dera entrada na noite anterior. Lera as observações iniciais que tinham sido passadas no momento da internação, mas agora precisava conhecê-lo e fazer a primeira análise de seu comportamento para definir a gravidade da patologia e como ocorreria o tratamento.

Pelas informações iniciais, fornecidas pela pessoa responsável pelo contato com o hospital e com a solicitação da internação, apostava num quadro de psicose que começara a se manifestar com o incentivo de uma vidente. Dessa forma, Cleovaldo da Silva Santos acreditava chamar-se Marcelo e ser um músico de sucesso e que recentemente estivera envolvido com uma moça chamada Luíza, que nada mais era do que a personagem de um romance de banca.

Finalmente, chegou ao quarto de Cleovaldo. Tudo estava silencioso por ali, mas um dos enfermeiros aproximou-se.

– Bom dia, Doutora. Vai conhecer o novato?

– Sim.

– Precisa de ajuda? – perguntou prestativo. Angélica gostava daquele enfermeiro. Era sempre muito simpático, e tinha aquele sorriso… Era bobagem pensar nisso, quando o relacionamento entre os profissionais do hospital era proibido, mas adoraria beijar os lábios que continham aquele sorriso.

Abandonou esse devaneio antes que pudesse parecer idiota e ficou na ponta dos pés, observando pela pequena janelinha da porta o comportamento do interno. Estava sentado na cama, olhando para a capa de um livrinho surrado, feito de papel jornal num tamanho diminuto.

-Hum… Acho que não será necessário. Esse aqui parece tranquilo – declarou por fim ao colega.

-Como quiser… Qualquer coisa é só me chamar, vou estar por aqui.

Como era prestativo… Por um instante observou-o deixar o local e então retomou a compostura, ajeitando os cabelos loiros num rabo de cavalo baixo, antes de entrar.

Fechou a porta atrás de si, mas isso não fez Cleovaldo tirar os olhos do livro que tinha em mãos, então, decidiu se apresentar e ver como ele reagiria.

-Bom dia, Cleovaldo – colocou gentileza na voz. Era sempre bom começar o contato com sutileza, especialmente em casos como os dele, em que um delírio ganhava uma proporção de realidade.

– Como se sente? – continuou, quando não obteve resposta dele.

Por fim, ele levantou os olhos, fitando-a. Os orbes estavam esbugalhados, quase assustados, mas quando a fitaram, se iluminaram. Com a mudança, a mulher pôde notar o quanto aquele pobre homem era feio. Acima do peso, careca e com uma face mal-desenhada, parecia o oposto do enfermeiro gentil com quem ela conversara segundos antes.

 

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– Você… Você voltou pra mim! – ele declarou, exultante.

Angélica ficou confusa por um momento, mas não demorou a perceber que deveria se parecer com a projeção feminina do paciente. Com toda a calma do mundo, continuou a conversa.

– Sinto muito, senhor Cleovaldo, mas ainda não nos conhecemos. Eu sou Angélica, sou médica aqui e cuidarei do seu tratamento.

– Por que está me chamando de Cleovaldo? Você me conhece, sabe que eu sou o Marcelo. E você voltou pra mim! Eu sabia que voltaria – ele se levantou, fitando-a com fome nos olhos.

Angélica suspirou. Pelo visto o caso era mais grave do que previra.

– Senhor Cleovaldo, peço que se sente para conversarmos – continuou a abordagem. Começava a recear que conversar com ele não funcionaria, mas aquela era a sua profissão e ela nunca falhara com um paciente antes.

O homem, no entanto, não obedeceu ao seu pedido e se aproximou, devagar. Devia estar ainda meio sedado pelos calmantes que lhe haviam ministrado, mas ainda assim era assustador.

Ela deu alguns passos lentos para trás, sem desejar irritá-lo. Teria que chamar algum enfermeiro ou segurança… No entanto, no momento em que tentou abrir a porta, ele a segurou pelos braços, com força.

– Olhe pra mim, Luíza. Está vendo? Está vendo? Sou eu, o seu Marcelo. Eles… Aquela velha charlatona me mandou pra cá porque não suporta saber da nossa felicidade. Ela deve ter visto que você ia voltar pra mim e me colocou aqui pra separar a gente.

Enquanto ele disparava esses absurdos, Angélica tentava se soltar. Sacudiu-se, remexeu o corpo e por fim, chutou-o nas partes íntimas.

Isso fez com que a soltasse e se ajoelhasse no chão, com um resmungo de dor, mas antes que ela conseguisse abrir a porta, foi puxada para trás.

-Não vá embora! Não outra vez! – disse o louco.

Pela primeira vez desde que começara a exercer a profissão, Angélica não sabia o que fazer para lidar com o paciente. Arrastou-se para o lado da cama, tentando chegar à janela. Não podia fugir por ali, mas podia gritar por socorro.

– Você tem que ficar… Você é minha, Luíza! – Cleovaldo resmungava e ela se arrastava. Ficou de pé junto à janela e virou a cabeça para fora.

– Socorro! – gritou. – Sou médica aqui e preciso de ajuda!

Isso foi o suficiente para fazer o homem ficar irritado. Se até aquele momento seu desejo psicótico pela sua personagem dos sonhos fora o que o fizera tentar mantê-la ali, agora ele estava mortalmente irado por ela ter gritado para que fossem resgatá-la.

– Por que você fez isso? Não vê? Eles vão nos achar… Eles vão tirar você de mim! – ele a segurava pelos ombros e a sacudia.

A essa altura, o medo dominara a mulher, que se sentia choramingando baixinho. Será que morreria ali, presa com aquele louco? Devia ter aceitado a ajuda do enfermeiro…

– Precisamos ficar juntos!

– Pare, por favor – ela choramingou.

Estavam tão perto da janela… Ela podia sentir a brisa em sua nuca e colocou a mão para trás, para se segurar no parapeito. Havia grades do lado de fora, mas será que aguentaria o peso daquele homem?

Olhou para o rosto maníaco dele, sentindo todos os seus instintos impulsionarem seu corpo. Ele não iria largá-la. Estava tão preso a sua fantasia que não poderia mais voltar a enxergar a realidade ou as consequências do que fazia. Então, teria que tomar uma providência.

Suas mãos eram pequenas e ela arremessou uma delas, com o punho cerrado, na direção do vidro. Ele deveria ser de material mais resistente, mas na segunda investida se partiu em pedaços, uns grandes outros parecendo com pó.

Cleovaldo parecia indiferente ao fato de que a janela se espatifara atrás de Angélica, enchendo-a de cortes nas mãos e no braço. Continuava a segurá-la com força. E ela segurou firme um dos cacos, sentindo-se ao mesmo tempo assustada e corajosa. Não pensava demais quando afundou a lâmina de vidro no pescoço do homem. Só queria estar livre dele. Enquanto o sangue começava a jorrar, ele disse, engasgado, pela última vez, o nome do seu delírio.

-Luíza… Por quê?

 

 

 

(imagem: http://www.deviantart.com/?q=broken+glass&offset=480)

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