Clarissa Pereira era uma jovem médica bem credenciada, estudiosa dos casos de estresse pós-traumático, famosa pela sua empatia. Com esses predicados, ela parecia a escolha certa para tratar da mais nova paciente que adentrara o hospital psiquiátrico. Isadora Duarte Soares, 42 anos, cuja filha se suicidara havia duas semanas. Não saía da cama e recusava comida.

Clarissa era jovem, mas não inexperiente. Já vira de tudo, nada a surpreendia. O novo caso não era mais grave do que os demais que ela estudara ou testemunhara na clínica. No quarto, encontrou uma pessoa que aparentava pelo menos uns dez anos a mais, muito abaixo do peso. O soro levava nutrientes direto ao sangue. Desde que chegara, Isadora estava em estado quase catatônico. Não reagia aos estímulos, quase nada dizia. Parecia resignada.

– Bom dia, dona Isadora, meu nome é Clarissa.

Isadora sustentava um olhar circunspecto, o qual não evitava nem encarava a interlocutora. Enxergava Clarissa como mais um dos escassos mobiliários do quarto.

– Eu vim conversar com a senhora – insistiu a médica num tom de voz acolhedor. Ainda sem resposta.

– A senhora não quer conversar?

– Eu não sei – disse Isadora sem emoção na voz.

– Acredite-me, poderá lhe ajudar.

– Eu não sei…

– Vamos tentar? Se a senhora se sentir desconfortável com alguma pergunta, não precisa responder. Se a conversa estiver lhe incomodando, basta dizer. Nós interrompemos e retomamos outra hora. Pode ser?

– Está bem.

– A senhora quer começar me falando um pouco de si?

– Meu nome é Isadora Duarte Soares, tenho 42 anos.

Clarissa aguardou alguns segundos, na expectativa de que a paciente precisasse de tempo para narrar sua história. Logo ficou claro que este não era o caso, e ela voltou a encorajá-la:

– A senhora sabe por que está aqui?

– Eu não sei…

– A senhora lembra como foi trazida para cá?

– Minha irmã apareceu na minha casa e me trouxe para cá.

– Mas por quê? O que houve?

– Não houve nada. Bem, a casa estava meio empoeirada. Mas é normal, não é? Afinal, eu não fiz faxina. E não, eu não tenho apetite. Isso também é normal. Eu nunca fui de comer muito, aliás.

– E por que a senhora está sem apetite?

Isadora silenciou. Clarissa hesitava em fazer uma pergunta frontal, esperava ouvir da própria paciente, com suas palavras, as razões que a levaram àquele quarto.

– Por que a senhora não me conta um pouco da sua vida?

– Eu nasci em 1972. Tive uma vida normal. Fiz faculdade, casei, tive uma filha. Meu marido morreu há quatro anos. Minha filha se suicidou.

– E algum desses eventos está relacionado com a sua vinda para cá?

– Minha filha se matou há duas semanas, mas não, esta relação não existe para mim. Foi a minha irmã que inventou.

– Sim. E como a senhora se sentia depois da perda da sua filha? Triste?

– Eu não… Eu não sentia.

– Insônia?

– Eu dormia… umas catorze horas por dia.

– Perda de apetite?

– Como disse… eu nunca fui de comer muito.

– A senhora não quer me contar como era sua relação com sua filha?

– Isabel era uma boa menina. Carinhosa, atenciosa. Um pouco temperamental. Parecia viver de extremos. Ela não ria, gargalhava. Mas também chorava muito. Era a pessoa mais doce do mundo, mais gentil… Mas quando ficava brava, perdia a cabeça. Nunca vi alguém assim.

– E como era a relação entre vocês?

– Eu casei com Jorge aos 20 anos. Engravidei aos 21. Eu larguei o emprego para cuidar de Isabel.

– O que representou para a senhora abdicar da carreira para cuidar da sua filha?

– Não foi difícil. Eu queria cuidar da minha menina.

– E o seu esposo…

– Jorge me tratava bem. Era um bom marido.

Até aquele ponto da conversa, Isadora não deixara trair nenhuma emoção profunda.

– A senhora diria que amava seu marido?

– Eu… Eu diria que sim.

– A senhora disse que ele já faleceu…

– Ele sofreu um acidente de carro. Um caminhão desgovernado que vinha na direção contrária. Não foi algo esperado.

– E como a senhora se sentiu?

– Foi duro para Isabel. Ela piorou depois disso.

– E a senhora?

– Eu… – calou-se.

– Como era sua relação com seu marido?

– Dra. Clarissa, eu sei onde você quer chegar. Posso-lhe assegurar que Jorge era um bom homem – ela falava sem aparente nervosismo. – Também tive uma boa relação com meus pais. Nunca sofri violência sexual, nem decepção amorosa. Eu tive uma vida confortável, até onde posso dizer. Também tinha boas perspectivas profissionais. Eu era uma arquiteta muito talentosa, aliás, devo dizer sem falsa modéstia. Mas nada disso importava.

– E a Isabel?

– A Isabel era minha filha. Era algo pelo quê viver.

– A senhora se sente deprimida pela perda da sua filha?

– Deprimida? Isabel tinha depressão. Acredite-me, doutora. Se eu tivesse depressão, eu saberia.

– O que a senhora descreve para mim é um quadro depressivo, dona Isadora. A depressão nem sempre se manifesta numa forma de melancolia clássica, aquela tristeza e desespero terríveis, resistentes… Às vezes é uma sensação de vazio, uma indiferença…

– Isabel sofria na escola. Ela sofria com os coleguinhas que a maltratavam. Eu cheguei a mudá-la de escola várias vezes, mas ela nunca se adaptou a nenhuma. Eu levei ela nos psicólogos e psiquiatras… foi tudo inútil. Ela teve uns namoricos, e sempre terminava se debulhando em lágrimas. Na maioria, não eram maus garotos, sabe? Simplesmente ela não conseguia tolerar a decepção. Quando Jorge morreu… foi demais pra ela. Eu fico surpresa de ela ter suportado tantos anos. A morte dela não, isso não foi surpresa para mim.

– Como aconteceu?

– Ela estava na faculdade. Atirou-se do alto de uma das passarelas. Eu sempre achei que não era sensato deixá-la estudar num campus vertical.

– A senhora se sente responsável por isso?

– Manter Isabel foi a tarefa que eu assumi. Como não me sentir responsável? Eu falhei.

– Dona Isadora… É humanamente impossível…

– Dra. Clarissa – ela lhe interrompeu – eu sei o que a senhora vai dizer. Que é humanamente impossível vigiar uma pessoa o tempo todo, cuidar de uma pessoa o tempo todo. Eu sou uma mulher escolada. Como lhe disse, eu fui uma arquiteta talentosa. Eu tive de lidar com o sofrimento da minha filha desde a infância. Eu fui uma mãe zelosa, eu a levei nos psicólogos, psiquiatras, e eu estudei o assunto quando percebi que nenhum deles tinha uma solução para o problema da minha menina. A senhora não está falando com uma imbecil. Por favor, me poupe do seu discurso pré-fabricado.

– Está bem, dona Isadora. A senhora então, como uma mulher escolada e inteligente, deve saber também que, se os psiquiatras não conseguiram encontrar uma solução, não seria justo exigir tanto da senhora.

– Os médicos e psicólogos têm um ofício. E a maioria deles não é bom nisso, diga-se de passagem. Mas é somente um ofício. Eu tinha uma missão. E falhei.

– Dona Isadora…

– Dra. Clarissa, estamos ambas perdendo nosso tempo. Não há nada o que fazer no meu caso. A senhora vai dizer que é o trauma, que é passageiro. Quem sabe com a ajuda de remédios… Quem sabe se eu me dedicar novamente à carreira, ou um hobby, ou um amor… Eu devo assegurá-la: é tudo fútil. Não foi difícil abdicar da vida para cuidar da minha filha, doutora. Não foi um sacrifício. Pode-se chamar de renúncia abrir mão do que nunca se teve? Não. Eu não abdiquei da vida, eu abracei uma missão. E eu falhei. E agora, nada mais importa. Na verdade, nunca importou. Eu já esperei muito, só me resta esperar mais um pouco.

Clarissa ficou pensativa. Já possuía um diagnóstico, uma prescrição e uma metodologia. Agora só faltava encontrar um sentido, algo que não estava no manual. A médica engajou-se no tratamento. O enigma lhe encantava, e foi nele, aos poucos, se apegando. Era estranha a indiferença com que falava do marido. Será que eles realmente tiveram uma vida feliz, até onde essas palavras pudessem se aplicar a Isadora? Será que não havia algo de errado na sua história familiar, na sua trajetória? Aventou mesmo a hipótese de que a narrativa da mãe zelosa fosse uma farsa. Conversou com psicólogos e familiares, jamais descobriu algum indício de abuso físico ou psicológico na relação com seus pais, seu marido, ou entre mãe e filha.

Clarissa admitiu que sua obsessão com a origem era fútil. Mesmo que a descobrisse, as raízes estavam por demais entranhadas. Não havia como prover ou impor a Isadora um conceito que esta sequer parecia conhecer – não por uma fraqueza intelectual ou moral, mas puramente existencial. Mas Clarissa não se entregou. Na ausência de uma vontade, ainda restava preservar a máquina. Um insumo aqui, uma resposta ali. Uma dose, um ajuste, uma alteração, uma nova abordagem. Química. Conversa. Atinha-se ao manual. Aquela era sua missão. O resto não importava. Nem a paciente, nem o enigma. Nem a origem, nem o sentido.

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