Abotoou as calças, vestiu o blusão, colocou o boné vermelho e branco, com dizeres alegres “Pizzaria O Barão! Sua melhor companhia para a noite de sábado!”. Montinor achou aquilo deprimente. Suspirou ao fechar a porta de seu apartamento, comprado a muito custo com o dinheiro de entregador de pizza. Tudo o que possuía era aquele lugar, enfiado no meio de dois predinhos, vista para a parede e o quintal do vizinho, no Centro de Porto Alegre. Isso e uma espada, passada adiante há tanto tempo que Montinor não recordava a origem exata, apesar de já estar no centro de treinamento naquela época. Montou na motoca. Colocou o capacete, com ares de homem com uma missão, um objetivo para aquele sábado. Deu partida e seguiu roncando pelas ruas movimentadas do centro, em direção a um lugar específico.

Enquanto parava nos intermináveis sinais, pensava na vida. Em flashes, via seu nascimento em algum país distante, provavelmente com nome irreconhecível nos dias atuais; seus pais sendo mortos à espada, pessoas gritando e correndo, homens o olhando com admiração e medo… a espada não funcionara com ele. Sua cabeça permanecera intacta, ele a colocara de novo em cima do pescoço, com um resmungo de dor. Depois de perder mais de setecentas namoradas, aprendeu que relacionamentos interpessoais não eram uma boa ideia quando não se podia morrer. Não havia paz. A dor da perda de cada uma delas era como punhal em seu peito, tornando-o frio e mais frio à medida que se deixava envolver. De todas as mulheres, Jaci era em quem ele mais pensava. Quando ela morreu vítima de tuberculose em 1828, Montinor esfregou sua língua na dela, buscando o contágio e a morte; porém, após duas tossidinhas, percebeu que nada aconteceria. Já tentava o suicídio há quatro centenas de anos. Mudou-se para São Paulo. Após décadas, com a morte de um amigo muito querido, foi para Porto Alegre. Lá, decidiu-se por não travar mais contatos além do estritamente necessário para ganhar dinheiro e ter uma vida ordinária; resolveu que seguiria os passos de seu avô, outro Escolhido. Quando fora recrutado para o centro de treinamento, séculos antes, descobrira que seu avô também tinha as mesmas habilidades que ele. Provocava a morte, teimava com ela. Montinor sempre enxergara essa habilidade como maldição. Mas não ali. Naquele lugar, no norte da África do Sul, Montinor aprendera a saber diferenciar os verdadeiros imortais dos reles sortudos. Dos que possuíam poucos genes da imortalidade, não o suficiente para serem de fato condenados a uma vida como a que ele tinha. Grande demais. Aprendeu a lutar, ganhou sua espada, fez o juramento dos Escolhidos. “Entre eu e você, um deus imortal e um verme, só pode restar um”.

guerreiro imortal

Voltara para o Brasil. Conheceu muitas mulheres, bebeu, farreou, esqueceu o juramento e toda aquela baboseira, curtiu por alguns anos. E aí veio Jaci. Ele se esqueceu de tudo para ficar com ela. Mas agora, muito tempo depois, cansado de tanto sofrer pela morte de seus amigos e amores, decidiu que viveria para matar aqueles que cortejavam a morte. Aqueles que se sentiam poderosos por demorarem a morrer, mas que sabiam que este dia chegaria. Era só usar a espada certa, no ângulo certo e acabou-se. E talvez aquelas pessoas até preferissem morrer a viver presas numa vida eterna tediosa e sofrida. Montinor acreditava estar privando o mundo de vermes, mas sobretudo ajudando-os a encontrarem paz. Se não houvesse Escolhidos no Brasil, talvez os meio-humanos vagassem como sombra inútil por aí.

Antes de sair de seu apartamento, pegara a espada há muito guardada. Sua bainha era cravejada de rubis e, naquele momento, um nome refulgia em sua lâmina brilhante, nunca desgastada pelo tempo. A espada era como o próprio Montinor, não perdera o objetivo ou a utilidade, mesmo esquecida. Ele não perdera sua missão, mesmo esquecendo-se dela.

O nome brilhava dourado, como fogo. Após uma rápida pesquisa na internet, Montinor guardou-a nas calças, abotoou-as e saiu de casa. Era para o endereço encontrado online que se dirigia agora. Tocou e Jéferson deixou-o subir, afinal, quem desconfiaria de um entregador de pizza? Talvez coincidentemente, o rapaz estivesse esperando uma. Sendo O Barão a pizzaria de mais renome nos sábados à noite, devido a sua famosa pizza de seis queijos e sua promoção de refri grátis, era possível.

Montinor não matava alguém há muito tempo, desde quando fugira dos índios no sul do Mato Grosso. Apertou a bainha da espada enquanto aguardava o rapaz abrir a porta. Aparentemente ele estava no telefone com sua namorada. Ele não parava de falar. Montinor sempre achara o sotaque dos gaúchos meio irritante.

Quando Jéferson abriu a porta, viu apenas um homem pardo de aspecto cansado, porém relativamente jovem. Cabelos compridos no ombro, boné da pizzaria. Segurava algo como uma espada nas mãos, abria a boca veementemente e parecia querer gritar algo. Começou baixo “Entre eu e você, um deus imortal e um verme…”. Ao ver o desespero no rosto do menino, pobre criança, Montinor sentiu que ele queria morrer. Queria se livrar do peso da eternidade. Gritou “SÓ PODE RESTAR UM!”.

espada-plata-onix

Who wants to live forever, do Queen, tocava no computador de Jéferson. Montinor passou por cima da cabeça decepada do garoto, conservando para sempre sua expressão de espanto e gloriosa paz. Invejou-o. Desligou o telefone, ouvindo gritos femininos do outro lado. Limpou a lâmina da espada na camiseta, e ela sem demora brilhou um outro nome.

Ia desligar o computador e sair em perfeito silêncio. Mas a música era como boa despedida.

“There’s no chance for us… It’s all decided for us…”.

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