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Despedida. Dez anos trabalhando naquela cozinha para ser descartada como se descarta as cascas de cenoura. Entrou lavando os pratos e aprendeu tudo sobre comida chinesa. Fazia cada prato do menu de olhos fechados. Aquilo tinha se tornado sua vida. Aquele porco velho chinês não tinha o direito de fazer isso.

Justa causa? Que boa desculpa. Ele tinha era medo de que ela tomasse seu lugar. Os clientes preferiam seus pratos aos dele. E o corte foi só de raspão. Foi só para assustar. Foda-se. Agora precisava achar um jeito de ganhar a vida. E de fazer justiça. A vida toda fora injustiçada. O mundo era um lugar injusto mesmo. Mas alguém tinha que se inconformar com isso.

Deitada no sofá, ainda com o dolmã sujo de shoyu e sangue e os cabelos cheirando a carne frita, ligou a tv. Pulava de canal em canal para esvaziar a mente. Num canal estatal passava um desenho da década de oitenta com uma musiquinha irritante. Vingadores da pizza. Era uma boa ideia. Estava com fome e não queria cozinhar, hoje não entraria mais em uma cozinha. Ligou para O Barão. Seis queijos e refrigerante grátis.

Enquanto comia no sofá e bebia o refrigerante de dois litros no gargalo, seu gato subia pelas suas pernas, arranhando e miando insistentemente. As vezes esquecia de comprar ração para ele. Jogou um pedaço de massa no chão. Ele comeu desesperado e voltou a escalar sua perna. Depois da terceira vez, jogou logo uma fatia, que caiu sobre a cara do bichano, que indignado, afastou-se para tomar banho. Bicho enjoado. Nem lembrava porque havia trazido aquilo para casa.

Adormeceu no sofá, com a caixa de pizza sobre o peito e o controle da tv na mão engordurada. Os episódios dos Vingadores se repetiram noite adentro. Acordou com o gato sobre sua barriga, lambendo o queijo que restava grudado na caixa. Jogou-o longe. Um miado, o controle caindo no chão e aquela maldita música na cabeça. Se arrastou até o banheiro. Enquanto tomava banho lembrava-se de ter sonhado com alguma coisa.

O sonho foi bem inspirador. Era a ideia que precisava para resolver todos os seus problemas de uma vez. Foi até a cozinha e olhou os armários. Farinha, óleo, sal… tinha um queijo velho na geladeira e uma lata aberta de extrato de tomate. Nenhuma carne para o recheio e nenhum centavo para comprar. Enquanto sovava a massa, o gato apareceu e miou timidamente. Sim, a ideia era resolver todos os problemas de uma vez. E o gato resolvia dois.

Enquanto assava, sentou-se no computador e imprimiu uns cartõezinhos: “Pizza vingadora”. Com o telefone e em negrito “com carnes exóticas”. Saiu pelas ruas do velho centro, onde morava, e ofereceu pizza brotinho com carne de coelho. Vendeu todas. Com o dinheiro comprou mais ingredientes para a massa. Carne. Foi até o chinês assinar sua recisão. Era segunda-feira e ele ficava sozinho às segundas. Voltou para casa horas depois, com o banco de trás do  velho fusca cheio de potes de plástico com mais recheio.

Na cozinha, enquanto sovava a massa, atendia no celular novos pedidos para o almoço. O baixo preço e o diferencial do recheio foi motivo de sucesso imediato. Vendeu todas em menos de meia hora. Ficaria rica e faria justiça ao mesmo tempo. Era uma heroína. Enquanto andava pelas ruas poluídas entregando seus pedidos quentinhos, observava as pessoas. Daria um jeito nesse mundo. Chega de chorar. De agora em diante agiria.

Ao entrar num bar para entregar a última pizza de carne de javali, um homem passou a mão em sua bunda e disse alguma coisa indecente. Ela já ía virar um tapa em sua cara, quando lembrou que agora podia resolver os problemas de forma definitiva. Virou o rosto para ele e piscou. O homem se animou e levantou-se da cadeira, para melhor observar o corpo que prometia estar junto ao seu em breve. Na saída ela entregou um guardanapo com o endereço.

Passou numa loja de embalgens e comprou mais potes. Chegando em casa, afiou as facas, arrumou a cama e fez novas etiquetas: “carne de anta”.

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