Por Priscila Tessuto

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Eram quase 20h. Marta estava aflita com a demora do marido. Sérgio chega em casa, normalmente, entre 18h e 19h, nunca demorou tanto…  Ah, não…

Outras vezes já havia apresentado este comportamento. No início do casamento, Marta sofreu para manter sua vida, seu trabalho. Engravidou cedo, e foi nesta situação que conheceu outra face do marido. Sérgio não permitia que Marta trabalhasse fora, que saísse com amigos sem ele e chegou a controlar suas roupas. Nada de decotes ou a saias curtas demais, enfim. Mostrou-se o macho alfa, pronto a castrá-la. Marta largou o emprego para dedicar-se à vida de mulher de casa, mãe, esposa e boa cozinheira. Sérgio trabalhava muito e chegava tarde, algumas vezes bem bêbado.  Perto dos quatro meses de gestação, perderam o bebê. Foi um momento delicado no casamento. Havia muitas expectativas para esta criança que já tinha posses. Sérgio havia comprado berço, e esvaziado a biblioteca de Marta para o quarto da criança: “Será menino!” Afirmou enquanto pintava as paredes de azul.

Marta não estava satisfeita. Se culpava por ainda não amar aquele organismo que se formava nela. E que ao mesmo tempo lhe arrancava, junto ao pai, qualquer possibilidade que havia imaginado. O aborto lhe foi agressivo, mas dentro dela havia um verdadeiro alívio, que guardou com ela! Para Sérgio, a pancada foi dura demais. Passava mais tempo fora de casa, e já não havia comunicação. Marta passava muito tempo dentro de casa, acostumada com a limitação que lhe foi imposta.

Nesta vida por quase dois anos, Marta pediu o divórcio. Sérgio não aceitava aquilo. Casou para a vida. E ambos concordaram que a perda do filho foi catastrófica para o casal. Conversaram e viajaram juntos, a fim de se redescobrirem e voltaram apaixonados. Com novas regras para a relação Marta voltou a trabalhar, mesmo sem toda aprovação de Sérgio, mas que também não a impediu. E desde então, almoçam juntos quando dá, e jantam juntos todas as noites. Encerrando o dia com uma taça de vinho na cama.

Nesta manhã, Sérgio descobriu que Marta tomava pílulas, e saiu sem acorda-la. Pensando em todas as conversas que tiveram, respirou para não brigar. Mas não conseguia entender a opção de Marta. Culpava o trabalho, as novas relações… Ás 11h. ele ligou para almoçarem juntos. Marta estava encerrando uma reunião, onde propuseram-lhe uma promoção, e ao telefone,  aceitou rápido, com um sorriso largo no rosto.

Marta caminhava para o restaurante pensando em como contar ao marido que teria que viajar esporadicamente, mas o quanto aquela conquista representava pra ela, fora do mercado de trabalho por tanto tempo. Estava em êxtase! Não era a toa que ele a chamou para almoçar.

Sérgio segurava o volante com as duas mãos e o corpo inclinado pra frente, tentando encontrar respostas para suas perguntas. Às vezes socava o painel do carro, para aliviar a tensão. Como escolher trabalhar fora a ser mãe? Por que ela se negava a lhe dar um filho? Haveria outro homem? Foi ela responsável pela interrupção da gravidez, anos atrás?

 O almoço foi um desastre. De longe, perceberam que havia no outro algo estranho. Marta se calou e deixou Sérgio desabar. Ele se controlou até o pedido, mas antes da comida ser servida ele jogou na mesa a embalagem da pílula. Ela, sem graça, tentou explicar porque não havia comentado sobre o anticoncepcional, mas ele não a deixava falar. Era uma grande safada, mentirosa! Marta se levantou e saiu chorando do restaurante. Não voltou ao trabalho.

Sérgio também não voltou ao trabalho. Parou num bar e bebeu a tarde inteira, sentindo-se traído, desrespeitado. Foi frouxo de ter deixado sua mulher assim tão solta no mundo, optando por prioridades que não fosse à família… O que estava acontecendo com as mulheres de hoje em dia? Certamente reflexo da falta de atitudes de homens como ele, fracos. Sérgio virou a cadeira do balcão e começou a encarar as mulheres em volta: “Todas vadias. Que merda fazem num bar, em grupos ou sozinhas, ou invés de cuidar de suas famílias?”. Tornou a cadeira para o balcão, virou mais um copo e retomou a posição para o corredor, passando a mão na bunda da garota que passava, sussurrando: “Vagabunda”.

Em casa, Marta refletiu sobre seu erro e conversando com uma amiga ao telefone, concordou que deveria ter sido honesta com o marido. Afinal, passaram por tantas coisas juntos, e se superaram. E haviam coisas boas acontecendo, não poderia deixar este fato estragar tudo.

– Prepara um jantar – Sugeriu a amiga.

Mas já estava tão tarde… Ele poderia chegar a qualquer momento:

– Vou pedir comida. Assim a surpresa pode chegar depois dele, não tem problema. Uma pizza??

– Pede algo mais quente, diferente… Ah, espera aí!

A amiga logo indicou um lugar novo, de carnes exóticas.

– Acabei de comer uma de carne de javali. Delíciosa!!

– Uau! Será que tem de anta? Já comi anta uma vez…

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