Disponível em: http://postmediavancouversun.files.wordpress.com/2013/02/heart_shaped_tuscan_pizza_insitu_m.jpg
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– Eu não acredito. Pizza de novo?

– Bem, se você não gosta de pizza, não deveria estar namorando com o dono de uma pizzaria – disse Jéferson, sorrindo.

Joana o encarou sem mexer um músculo no rosto.

– É. Talvez eu não devesse mesmo – disse ela, estacionado o carro, enquanto a expressão do seu namorado definhava.

Jéferson Cebola, sócio da pizzaria Barão e alter-ego do Tremoço-Creme, suspirou. Seus ossos doíam, seus músculos estavam prestes a se dissolver, e seus neurônios estavam exaustos, mas nada disso se comparava ao medo que ele estava sentindo agora.

O casal desceu do carro e andou até a porta do restaurante sem trocar nenhuma palavra. Lá dentro, uma decoração regada a neon, rosa e verde tentava evocar uma versão onírica dos Estados Unidos da década de cinquenta os recebeu. Tudo, desde os pôsteres aos carros de brinquedo até os uniformes antiquados e as músicas antigas lutavam para convencer os clientes que ali eles encarariam os últimos traços de uma era passada, mais simples e honesta.

Onde super-heróis eram problemas só das crianças, pensou Jéferson.

– Sério, você não se cansa de comer a mesma coisa toda vez? – perguntou ela, após um garçom ter deixado cardápios.

Você nem imagina. Pensou ele.

– Bem, é sempre bom ficar de olho na concorrência. E você não precisa comer pizza, tem outras coisas no cardápio.

– Sabe, eu poderia não comer pizza em outro lugar. Um com mais elegância e que servisse comida de verdade.

– Ei! – ele protestou.

O primeiro sorriso que ela deu na noite estava mais ligado ao desprezo do que a felicidade.

Preferia mil vezes lutar contra mil monstros do que aguentar mais um minuto disso.

No final das contas, Jéferson, saudoso, quis aproveitar a fama de exótico do lugar e pediu uma pizza de rã. Joana pediu uma porção de batatas fritas com molho cheddar e alguns sushis de qualidade questionável.

“Um momento, sushi não é japonês?”. Lembrou ele, olhando para o céu nulo das cidades grandes pela janela.

– O que você acha dos Vingadores da Pizza, querida?

– Acho que eles costumam causar menos dano do que os monstros – disse ela entre uma batata e outra.

– Só? Estamos em uma era de milagres, e tudo isso que você tem a dizer? Faz alguma ideia do que os Vingadores representam?

– Pelo visto, não.

Jéferson rangeu os dentes. Quantas noites ele não perdeu com medo de que toda aquela aventura não passasse de um sonho? Quantos momentos de desespero ele não teve enquanto se perguntava que tipo de entidade concederia poderes temáticos a um bando de humanos?

– Não há nada que explique os Vingadores – disse Jéferson. Cada arma, cada poder, cada golpe deles é uma afronta maior à física do que o outro. Eles são a prova viva de que nosso conhecimento sobre o universo é ainda mais precário do que pensamos. Que ha uma força maior nos observando.

E aposto que ela está se estourando de rir.

– Você está passando tempo demais com o pessoal do barão. Em especial com aquela tal de Jéssica. – disse Joana, indiferente ao discurso.

Quando ele estava prestes a protestar, a pizza chegou.

Jéferson se segurou. Era melhor guardar a discussão até depois da refeição. Ademais, ele estava faminto. A rotina de super-herói não é brincadeira.

Eis que na primeira mordida, uma surpresa.

– Isso não é rã – disse ele. – Parece… Sei lá, porco?

– Ora, quem diria? Um restaurante de segunda servindo carne de segunda.

A confusão que se seguiu foi de proporções épicas. Nem o gerente nem o cozinheiro souberam explicar a carne suspeita. No fim, eles cederam e deixaram ele entrar na cozinha.

Lá dentro, uma arma estava apontada para ele. Antes que eles pudessem fazer algo Jéferson apertou o botão, e virou o Tremoço-creme.

– Quem é você – Perguntaram os capangas.

– Eu sou um cara fantasiado de pizza – Disse ele, erguendo a espada, pronto para o combate.

Quinze minutos depois, Jéferson emergiu da cozinha apenas para achar um bilhete de despedida.

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