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Eu chegava em casa, depois de uma longa viagem, decidido. Sabia que as coisas tinham chegado no limite e que teria que enfrentar. Mas sabia que ela não estava disposta a aceitar qualquer mudança. Todas as tentativas tinham se transformado em brigas horríveis. Abri a porta sem saber o que me esperava lá dentro, depois de tanto tempo fora. Me esperava como se nada tivesse acontecido. Mesa posta, vestido novo, perfume, maquiada… Tirando um quadro novo na parede, uma cópia de Delacroix, tudo parecia igual.

Mal podia olhar em seus olhos. Mas ela me abraçou forte, tirou meu casaco, desabotoou minha camisa e seu olhar era mais penetrante do que nunca. Me disse que mandou as crianças para a avó e que teríamos a noite toda. Ótimo, pensei. De hoje não passa. Precisava resolver aquilo. A situação estava insustentável para todos.

Me esperou tomar banho, com uma taça de vinho na mão e jazz na vitrola antiga que comprou para me impressionar. Nunca gostou das mesmas músicas que eu. Quando estava sozinha ouvia pagode, tomava cerveja barata e gostava de falar alto, gritar com a vizinhança e fumar muito. No início isso me excitava. Era o tipo loira fatal, corpão de academia, boca vermelha, não passava despercebida em lugar nenhum. Isso me envaidecia. Orgulho de macho, sabe como é.

Mas depois de oito anos de casado eu já sabia o que queria da vida. Não queria morar na periferia a vida toda. Sempre fui estudioso. Me chamavam de nerd no bairro. O nerd que casa com a gostosa. Para ela era o final feliz. Mas o meu final estava longe de acontecer. Eu queria muito mais que dois filhos, uma mulher que chama atenção e uma casa para pagar em vinte e cinco anos. Ela sabia disso, mas nunca quis me acompanhar, subir na vida. E se ofendia quando eu dizia que se contentava em continuar sendo uma mulher bárbara.

Fiquei por uns instantes observando-a tomar vinho e pensando como começar aquela conversa. Ela jamais aceitaria. Era o tipo de mulher que sempre dá a última palavra. Saber ela já sabia de tudo. Todos sabiam. Mas fazia parte de sua estratégia fingir que estava tudo sob controle e assim continuar no controle. Me aproximei. Ela se levantou e me entregou a taça propondo um brinde. Tinha um sorriso enigmático no rosto. Daquele jeito que se sorri quando se sabe que o jogo está ganho.

Com os braços em volta do meu pescoço começou a dançar. Me neguei a acompanhar. Ela conduziu meu corpo com o dela. O perfume era novo. Cheirou meu pescoço, roçou os lábios sobre os meus e me deixou sentir seu hálito. Eu suspirei. Quando teria uma brecha para começar o assunto? Talvez depois do jantar. Tentei me acalmar e deixei ela conduzir a dança e me conduzir até a mesa.

Tudo será diferente agora. Ela me disse, com um sorriso maternal. Cheguei a abrir a boca, mas calei. Antes de servir o jantar ela disse que queria falar. Imaginei que fosse se declarar, dizer que me amava e que devíamos recomeçar tudo. E jogar na minha cara pela enésima vez tudo o que fez por mim, que antes dela eu não passava de um pobre mané, que ela brigou com a família para ficar comigo, e por causa dela eu era respeitado e invejado agora por todos os caras do bairro… Mas não foi nada disso que ela disse. Disse que concordava com  tudo, que eu devia mesmo me casar com a filha do meu chefe e ocupar o cargo de diretor da empresa. E que eu não precisava me constranger por ela ser agora um empecilho na minha vida. Ela entendia tudo, me amava o suficiente para querer me ver feliz. E se não fosse com ela que fosse com outra, mais inteligente, mais jovem e rica.

Enxugou com um guardanapo delicadamente uma lágrima que rolava pelo rosto, antes que borrasse a maquiagem e sorriu com a boca fechada. Levantou-se para buscar o jantar e senti vontade de abraçá-la. Era assim que eu tinha sonhado, que ela me compreendia, que entendia que era por nossos filhos que eu fazia isso. Não queria brigas. Já tinha tentado antes dizer que poderíamos continuar a nos ver… parece que finalmente tinha entendido.

Fez minha salada preferida. Me pediu para abrir mais uma garrafa de vinho e disse que essa noite seria inesquecível. Seria nossa despedida. Comemos a salada em silêncio. Mas seus olhos estavam úmidos e seus pés acariciavam meus tornozelos embaixo da mesa. Não sabia o que me aguardava, tinha a sensação que teria uma surpresa. Isso me tirava o ar e me excitava ao mesmo tempo. Sim, seria uma noite inesquecível, eu sabia.

Mal podia conter minha alegria. Tudo dando certo. Depois de passar dois meses fora, planejando o casamento que iria mudar a minha vida, estava ali sentado na sala de jantar prestes a resolver da melhor forma o único obstáculo para realização dos meus sonhos. E essa “melhor forma” prometia ser melhor que a encomenda. Ela realmente estava linda. Imaginei que a encontraria arrasada, cheia de olheiras e bêbada. Mas parecia até mais jovem, mais sensual que nunca.

“Calma”, ela disse, segurando minha mão que levava o garfo com voracidade à boca, “tem que me prometer que vai saborear tudo essa noite, como se fosse único”, e sorriu. Me deu vontade de beijar aquela boca, de jogá-la sobre aquela mesa e… Mas ela interrompeu meus desejos me puxando para a cozinha. Disse que tinha feito um assado especial e que precisava de minha ajuda para servir. Me abraçou por trás para amarrar o avental em mim e me beijou o pescoço. Ainda com as luvas de cozinha, brincou com a faca pelo meu corpo enquanto sussurrava coisas no meu ouvido. Meu coração acelerava enquanto eu cortava a carne em pedaços pequenos e ela arrumava numa travessa de prata, que ganhamos de casamento e nunca usamos.

Também nunca tínhamos tido uma noite assim. Por alguns segundos cheguei a pensar se não fora precipitado. Não, ao lado dela eu não chegaria a lugar algum. Da travessa vinha um cheiro bom enquanto ela cobria o assado com o molho e me mandava largar a faca na pia e ajudá-la a levar o prato pincipal para a mesa. Antes de sentar me pediu mais vinho. Eu a servi olhando em seus olhos e já querendo ir direto para a sobremesa. Ela me serviu o assado. Me pediu para comer devagar. Sentir o gosto para nunca mais esquecer dessa noite. “Depois dessa noite poderá ser feliz como quiser.” E saiu rodopiando pela sala, dançando com a taça cheia de vinho tinto.

Obedeci. Saboreei cada pedacinho do prato e cada pedacinho de seu corpo em meus pensamentos, enquanto ela dançava. Disse-me que estava tão em paz que não queria comer mais nada. Só ficar ali me vendo comer e dançando para mim. Quando terminei ela me puxou pelo braço, me beijou desesperadamente e, tirando a minha roupa, me pediu para rasgar seu vestido. E ali no chão da sala tivemos nossa despedida perfeita.

Seu gritos passaram de gemidos para choro e depois para gargalhadas. Riu descontroladamente por muitos minutos e sentou-se no chão, mal podendo se conter. Atônito, busquei água, pensando ser algum ataque histérico, que estava bom demais para ser verdade e que ela iria começar a implorar para eu ficar. Enquanto me vestia, pensando se tinha sido um boa ideia aquilo tudo, ela parou de rir e me pediu a garrafa de vinho que estava na mesa. Eu estava abotoando a camisa com uma mão e segurando a garrafa com a outra, quando ela me abraçou por trás e muito rapidamente segurou minha mão que segurava o gargalo e bateu a garrafa na mesa. Abri a mão assustado. Vinho e cacos de vidro pelo tapete salpicados com gotas de sangue… foi tudo muito rápido.

Ela pegou a garrafa do chão com o vestido rasgado e, nua, fazia cortes em seu corpo com a garrafa quebrada. Ria e chorava ao mesmo tempo. Tentei segurá-la, mas ela ameaçava a própria garganta. Recuei e me sentei no sofá como ela mandava. De pé, na minha frente, com dois riscos pretos de maquiagem borrada escorrendo dos olhos, me disse que eu podia ir embora. Que agora eu estava livre para viver minha vida sem ela, ser feliz sem ela. Mas que também teria que ser feliz sem meus filhos. Eu poderia pensar, naquele momento, que ela não me deixaria mais vê-los, mas aquele olhar demoníaco me fez gelar o estômago e pensar no pior. O que fez com meus filhos?!

Suas últimas palavras, seguidas de gargalhadas de prazer, foram: “o jantar”. E rasgou a jugular com o vidro, fazendo espirrar sangue para todo lado. Morreu sorrindo para mim, como quem leva a certeza que venceu para sempre.

– … Por hoje não tenho mais perguntas. Mas saiba que as coisas não estão nada boas pro teu lado. Tenho as tuas impressões na faca, no vidro… sinais de violência sexual… Eu, se fosse você, começaria a rezar.

Imagem: Medeia, de Eugène Delacroix

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