Por Priscila Tessuto

Sua mãe se lembra da necessidade que surgia, quando Lisa era criança, de ter coisas em comum entre as pessoas no mundo adulto. Lisa pensava nas músicas certas, nas escolhas certas… Certas sempre pra outras opiniões. Queria o pertencimento, mas não a repetição. Pensava nos diferenciais que poderia criar, fazendo aqueles olhos acostumados se surpreenderem com o novo. O novo que era dela, num orgânico fingido. Mas autêntico.

 

vidro

Sonolenta, criava vícios com os dedos das mãos, para que acreditassem que era uma mania adquirida. Entrelaçava os dedos e girava com os dedões um ao redor do outro. Nunca ninguém reparou! Entre manias inventadas, achava curioso o hábito de colecionar. As pessoas colecionavam selos, papéis de carta, figurinhas, carrinhos, bonecas… Nada disso interessava. Nada disso lhe fazia alguma razão.

Inventava segredos entre colegas da escola e logo não distinguia o que era passado e o que era invenção. Suas histórias foram se tornando tão reais, que repetia detalhes, envolvia pessoas que chegavam ao máximo da desmentira com um: “- Poxa, não me lembro disso.” Mas o riso sem graça e a continuação da história com algo real calavam qualquer possibilidade de entregá-la. E assim ela foi crescendo, construindo relações, roubando vícios, criando manias. Foi construindo um mundo tão particular e seguro, que ninguém pertencia à sua realidade, ao menos que fosse incluído em sua história, por meio de suas estórias. Nem sempre reais, mas sempre verdadeiras.

Aos 08, presenciou um acidente de carro. Os vidros estouraram em câmera lenta, e o silêncio prevaleceu após o choque. Lisa conta até hoje a quantidade de sangue que vazava dos corpos, se mesclando ao óleo perdido do carro. Os cacos de vidros formaram uma teia inócua que lentamente foi permitindo a separação das partes. Se despediam do todo, pelo ar, transformando a ordem num caos brilhoso e nunca mais revertido. Um vidro em lança voou até a ela. Lisa agachou-se, pegou o caco e enfiou no bolso. Chegando em casa, vasculhou nos potes e latas da cozinha um recipiente adequado. E começara então sua nova e autêntica coleção.

Lisa possuía, aos seus 14 anos, cerca de 15 latas recheadas de cacos de vidro. Sua invenção virou um fascínio real, e ela se perdia no tempo entre os formatos, as cores e os cortes. Vidros em lança, redondo, tecos quadrados, faíscas, desuniformes. Brancos, amarelos, verdes, vinhos… Em cores fortes mas nunca opacas e ignorantes à luz. Era neste mundo que Lisa se encontrava, se refletia, se cortava… Era neste mundo que Lisa entendia o tão difícil conceito de liberdade.

Quando se deparou com bolas de vidros, bolas perfeitas ditas de cristal, Lisa sentiu-se incomodada. Não era para aquela perfeição que o vidro havia ganhado espaço. Lisa já se adaptava ao mundo como é, e enxergava nos cacos de vidro a única razão para manter-se “enganada”, fingindo acreditar no mundo dos outros. Mas as bolas… Aquelas bolinhas tinham lhe tirado a paz. Aquelas bolinhas de vidrinhos comprimidos não faziam jus à liberdade poética de um caco liberto de vidro. Era como se buscassem suas origens de areia… E aquelas bolinhas não quebravam! Ela tentava, jogava longe, pisava… Mas nunca se permitiram a liberdade da uniformidade.

– São mágicas. Um velho mago me deu – dizia o dono das bolinhas.

Maldito seja aquele órfão, com suas bolinhas de vidrinhos presos e tristes que carregarão sua necessidade de ordem e uniformidade por toda a vida. Seu próximo plano, sumir com aquelas bolinhas em qualquer campeonato estúpido de bolinha de gude na escola. Pois há muito se convencera que bolinhas de vidro nunca seriam possíveis. Eram gudes, inventando possibilidades de viverem num mundo onde não há legitimidade para suas medíocres existências.

Anúncios