José viu sua vidraçaria explodir por conta de um vazamento de gás. O olho direito foi atingido, mas ainda enxergava. Um único e diminuto caco entrou em seu olho esquerdo e foi o suficiente para cegá-lo. Os médicos inseriram-no um olho de vidro.

Em poucos meses voltou a cuidar de sua loja reconstruída, onde centenas de espelhos o circundavam. Resolveu se concentrar em produzir objetos artesanais vítreos e aquilo lhe foi a melhor das terapias. Sua visão débil mirava atentamente a forma que o vidro incandescente tomava, o que aliás foi a matéria que o debilitara.

Ganhou mais vida e mais dinheiro com aquilo. No entanto, sua janela direita para o mundo foi se enfraquecendo com o tempo, até encortinar-se num blackout definitivo. Não choraria por isso, nem que se ainda tivesse as glândulas lacrimais. Aquilo tudo lhe era um desafio e se sentia como um navegante por mares inexplorados.

Achava até mesmo engraçada a hora de dormir. Era a troca de uma escuridão por outra e às vezes parecia que seus sonhos davam mais informações que a luz dos dias passados.

Sons, texturas, sabores, odores e temperatura ganharam-lhe uma dimensão extrema. No entanto, maior ainda foi a dimensão dada a seus sonhos.

Ansiava pela hora de dormir, mas não para descansar. Seu dia começava aí, sonhando, estudando, acompanhando a história e a forma que as coisas sutis tomavam, suas memórias e desejos incandescentes. Pediu que lhe lessem Freud, Jung e tudo o que pudesse contribuir para o entendimento de seu mundo interior.

Todos os espelhos do mundo lhe eram inúteis, menos os da sua loja, pois lhe davam o sustento. Mas encontrou um refletor mais intenso e mais criativo, que as imagens do dia agora não mais obscureciam.

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