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“Outros pensam que antes da invasão ouviremos, vindo do fundo dos espelhos, o rumor das armas”.  Jorge Luís Borges.

 

Eu decidi que iria fundir de uma vez com todas com a cuca de Joaozinho em uma quinta feira de Tarde.

– Eu tenho um presente para você, Joãozinho. Venha até o caixa.

Joãozinho há muito tempo vinha para o meu antiquário para ficar me incomodando com perguntar por tardes inteiras e nunca comprar nada. Ele parecia achar que eu era algum clichê, um velho portador de segredos mágicos.

E naquela tarde, era isso que eu ia ser.

– Isso é um espelho? – disse o rapaz. – Parece… tosco.

Eu sorri.

– Nessa região, antes de seus pais se mudarem para cá, e de fato antes mesmo deles sequer cogitarem que você iria nascer, um vendedor de espelhos morava aqui. Por muito tempo esse artesão de vidro e luz manteve uma lojinha medíocre de espelhos, cuja carcaça inclusive, você pode achar no fim dessa rua. O velho nunca conseguiu obter uma existência realmente sólida, exilado em seu mundinho de espelhos e fumaça. Quando um acidente de gás  roubou a visão de um dos seus olhos e feriu o outro de morte, suspeito que ele se sentiu agradecido pela desculpa de…

– Aonde você quer chegar?

– Veja só. Um caco de vidro, um pequeno espelho, havia se hospedado em seu globo ocular moribundo, destruindo sua visão uma imagem de cada vez. Mas também deu a ele a capacidade de enxergar além do…

– Isso parece um espelho barato.

– Olhe no fundo do espelho, Joaozinho, bem no fundo mesmo.

O rapaz olhou fundo no espelho e seus olhos brilharam.

– O que foi isso?

– Foi um peixe que você viu Joaozinho.

– Um peixe?

– Nem sempre as coisas foram como são hoje… E nem as coisas serão com como são hoje para sempre. Outrora não havia barreiras…

– Sério que isso foi um peixe?

Eu suspirei. Por que tinha achado que ia conseguir criar um clima de tensão com aquele energúmeno?

– Tem um peixe magico ai dentro. Se ele sair, vai despertar todos os reflexos do mundo. Tome cuidado.

Eu conduzi Joãozinho para a entrada da loja e gentilmente o empurrei para fora. O rapaz saiu andando a esmo pela rua, como os olhos fixados naquele espelho vagabundo que eu tinha arrumando entre os brinquedos da minha sobrinha. Estava com um sorriso infernal no rosto. Aquela quinquilharia iria absorver a mente daquela aporrinhação ambulante por muito, muito tempo. Eu e minha loja certamente teríamos semanas – talvez meses – de paz antes que aquela praga mostrasse as caras de novo.

Ele voltou para a loja em meia hora.

– Senhor Ming! – disse Joãozinho, abrindo a porta do antiquário com tanta força que o vidro trincou – Eu vi o peixe! Eu vi o peixe no espelho!

A entrada brusca fez um cliente tomar um susto e derrubar uma estátua de quinhentos reais no chão da loja. Eu sorri, dizendo que acidentes acontecem, e me arrastei até minha nêmese suburbana.

– O peixe… – disse ele, ofegante. – Eu vi o peixe.

Eu rangi os dentes. Não era possível que aquele rapaz fosse crédulo a ponto de achar que viu um peixe no espelho. Será que ele tinha notado que eu estava rindo dele?  Então ele tinha vindo para jogar isso na minha cara? Pois bem, pensei. Não dizem que o cliente sempre tem razão? Se ele queria guerra e teatro, então guerra e teatro que ele ia ter.

– Então, Joãozinho – disse, cerrando os olhos enquanto afagava minha barba – esse mundo está correndo um grave risco. Você deve zelar pelo peixe dentro desse espelho com sua vida, meu jovem. Pois se esse peixe escapar e despertar os outros do seu povo… Esse mundo estará com os dias contados.

O rapaz tentou empurrar o espelho de volta para mim, mas eu gesticulei que não.

– O destino confiou esse espelho a você, jovem. Lutar contra a besta dentro dele é um fardo que apenas você pode suportar.

– O que… O que vai acontecer se o peixe fugir?

Eu me virei e pus os braços para trás, para aumentar a dramaticidade. Para aumentar a dramaticidade e impedir que ele visse o sorriso estampado no meu rosto.

– O fim do mundo, Joãozinho. No começo vai ser difícil notar. Apenas alguns reflexos borrados. Depois eles vão começar a substituir alguns pobres coitados. E quando menos esperarmos… Uma invasão vai acontecer.

– Você tem que me ajudar!

– Eu já ajudei, Joãozinho. Eu lhe dei a o espelho e a sabedoria, a faca e o queijo. Não volte mais aqui. E fique longe da loja de espelhos abandonada. É de lá que as tropas  vão marchar.

Mais uma vez, tive que empurrar o rapaz para fora.

Ficamos nesse joguinho por alguns dias, até que ficou claro que o garoto estava passando de todos os limites.

– Senhor Ming! – disse ele pelo telefone, às três da manhã. – Acho que o peixe substituiu minha mãe por um reflexo.

– Chega! Escuta aqui garoto, eu estava apenas brincando com você! Esse espelho não é mágico, é tudo uma pegadinha!

– Meu Deus… Eles te pegaram! – disse o rapaz, antes de soltar o telefone.

O fim dessa história – e de Joãozinho – não foi alegre. Segundo seus pais, ele, após tentar bater nos dois, fugiu correndo de casa no meio da madrugada até a loja de espelhos abandonada. Lá, ele teve sua luta final contra o suposto exercito atrás do espelho.

Joaozinho, ou o que sobrou dele, foi achado pela manhã na loja, boiando em um mar de sangue seco pontilhado por icebergs de vidro e metal.

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