espelho

Chegou com os sapatos numa das mãos e a outra segurando a barra do vestido. Entrou, fechou a porta e soltou os sapatos. Um pouco tonta por causa do champanhe e da alegria, subiu as escadas que levavam ao seu quarto, segurando a barra do vestido com as duas mãos, feliz da vida.

Enfim, no quarto, o melhor lugar do mundo. Antes de tirar a roupa para dormir, quis se olhar no espelho. Só uma pequena mecha de cabelo havia saído do lugar. Ainda estava linda. Uma noite maravilhosa. Muitos olhares, elogios…desfilou a noite toda pela festa sentindo-se o centro de tudo. Foi tirando os grampos dos cabelos e sentindo as mechas negras caindo nos ombros. Mesmo depois de horas a maquiagem continuava perfeita.

-Espelho, espelho meu… – sorriu com orgulho para a própria imagem. Sim, era linda. E terminou de fazer a pergunta do conto de fadas, sem precisar de resposta.

Depois de tirar a maquiagem e tomar um banho rápido, aninhou-se entre os cobertores e travasseiros e adormeceu rapidamente.

Acordou de um sono pesado. Com preguiça de se levantar da cama, se arrastou, por baixo do cobertor, de olhos meio fechados, até pôr os pés no tapete. Estava de meias e não sentiu o chão frio até a porta do banheiro. Antes de entrar, porém, quis dar uma olhadinha no espelho para ver se as horas dormidas foram suficientes para garantir que não teria olheiras pelo resto do dia. Era um espelho grande, com moldura em jacarandá, que havia comprado numa loja de antiguidades. Adorava espelhos. Adorava se admirar neles. Era como poder ser outra e se observar.

Deu um grito. Sua voz saiu rouca e mais fraca do que costumava ser. Olhou rapidamente para as mãos. Estavam enrugadas. Seu lindo rosto não aparecia no espelho. Mas sim o de uma velha, com cabelos brancos e olhar cansado. Só podia ser um pesadelo. Melhor voltar para a cama e esperar acordar. Já não se deitou com a mesma facilidade do dia anterior. E se aninhar nos cobertores já não era tão reconfortante. Os ossos pareciam doer um pouco. Nenhuma posição era perfeita.

Acordou pouco tempo depois assustada. Quis correr para o espelho, mas correr já não era tão facil. Andou devagar e já sabendo qual seria a imagem que veria, perdeu a vontade de olhar para ele. Não queria contemplar aquele rosto enrugado novamente. Nunca mais olharia num espelho. Nunca mais saíria do quarto. Mas de repente se lembrou o que significava nunca mais para ela agora. Se numa noite envelhecera uns sessenta anos…

Sentada na cama, com as mãos no rosto, chorava de mansinho. Nem ouviu a porta do quarto se abrir e alguém se aproximar. Levou um susto quando lhe tocaram o ombro. E agora? Como explicaria isso? Sua família não acreditaria nela. O que seria de sua vida?

Várias pessoas entraram no quarto. E ficaram surpresas ao vê-la chorando. Não entendiam. Na noite anterior ela estava tão feliz. Dançou e riu em seu aniversário de oitenta anos. Por que essa tristeza agora?

Ela não entendia o que diziam. Na noite anterior ela comemorou seu aniversário de vinte anos! O vestido estava na cadeira ao lado da cama como prova. E quem eram aquelas pessoas? Cadê sua família? O que fizeram com seu pai, sua mãe, seu irmão? Por que aquela mulher a chamava de mãe? E aquelas crianças, cujos rostos nunca vira, porque a tratavam por bisa? O que estava acontecendo?

Levantou-se com ajuda de um moço que estava ao seu lado com lágrimas nos olhos. Caminhou devagar até a cadeira. Passou os dedos nos braços de madeira, no estofado florido, ontem não parecia uma cadeira velha, pensou… Pegou no vestido. O tecido ainda guardava o perfume. Abraçou -o e examinou-o. Sim, era ele. Será que não viam? Que tinha ido dormir depois de dançar dentro dele? Que era um vestido de baile, o mesmo que tirou ontem? Mas ao invés de responderem suas perguntas, que ela nem tinha feito ainda em voz alta, perguntavam para ela porque tirou o vestido do guarda roupas. E alguém também quis saber porque vovó guardava aquele vestido velho.

Olhou em volta e não reconhecia mais seu quarto. Os móveis, os tecidos, os objetos. Nada era seu. Examinou cada cantinho, enquanto aquelas pessoas estranhas, sentadas em sua cama, a acompanhavam com o olhar. Até o cheiro das coisas era estranho. Mas um único objeto continuava o mesmo: o espellho com moldura de jacarandá. Foi até ele. Tudo ali no quarto tinha um aspecto velho, parecendo terem sido trocados durante a noite. Mas o espelho continuava como antes, com aspecto antigo, mas o único objeto familiar para ela. Parou diante dele e se lembrou do que disse enquanto tirava a maquiagem.

As pessoas que insistiam em ficar com ela naquele quarto estranho, começaram a chorar e tentaram contê-la, quando a viram esmurrando o espelho e gritando para que ele a devolvesse, para que devolvesse ela jovem, que ficou presa lá dentro na noite de sua festa de vinte anos…

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