Meu nome é Alfred, eu sou um fantasma.

Moro em bibliotecas desde 1427, quando abandonei as florestas da antiga Baviera, pois os lenhadores vorazes subtraíram os esqueletos que as compunham. Restaram apenas descampados. Sentia-me nu.

Lembro-me bem que foi um marceneiro que segui na floresta e depois a sua filha, que gostava de ler, que me levaram a este microcosmo de livros. Morri jovem na falecida Prússia em 512 sem ter aprendido a ler. E também ainda não aprendi depois da morte (não há pressa). Por enquanto, leio apenas o pensamento das pessoas e, através dele, as estórias nos livros dos que os leem.

Mas bibliotecas são lugares fascinantes. A princípio seriam os lugares mais tediosos, mas cada livro é um pequeno mundo e seus leitores, um mundo gigantesco. Ontem mesmo veio aqui um escritor procurando pelos livros de Jorge Luis Borges. Foi incrível a reação dele. Se pudesse e se ele vier a ler toda a sua obra, à noite e em forma de sonho, poderei contar-lhe as estórias de fato póstumas que o próprio Borges me contou.

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Anteontem, Marguerite Eleonora, crítica literária renomada e assídua frequentadora da biblioteca, veio aqui somente para cerrar-se em si mesma por conta de uma decepção amorosa. Pegou um livro de Voltaire, sentou-se à mesa e fingia lê-lo, mas pensava em o que fazer para curar sua angústia. Se soubesse tanto quanto eu, teria lido Rubayat de Omar Khayyam. Seria uma boa leitura para ela. Muitos vêm aqui e eu procuro dizer-lhes onde está o livro de que gostam ou precisam. Poucos conseguem me ouvir.

Mas são cerca de 500 anos vivendo neste lugar (ofendem-me os que dizem que eu o assombro) e apenas um livro ainda não vi ser lido dentre os 953 millhões que aqui estão. Receio o que acontecerá comigo se eu conhecer o seu conteúdo. Será que me cansarei desta biblioteca? Não poderei mudar para a outra, porque já conheço muitas e esta já é a maior que existe no mundo. Novas florestas seriam muito menos interessantes para mim agora do que antes. Sets de filmagem, talvez? Creio que o mundo inteiro se tornaria tedioso se este lugar também se tornar.

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