arvore

Eu sempre tive muito medo de fantasmas. Quando criança só dormia com a luz acesa. E durante a noite não ficava sozinho no silêncio de jeito nenhum. No banho, lavava o rosto bem rápido, para abrir logo os olhos, pois tinha a impressão de que tinha mais alguém no box.
Não ia à velórios nem assistia filmes de terror. Até as bibliotecas eu evitava, por causa de um livro velho do meu avô sobre a lenda de um fantasma que vivia em bibliotecas. As gravuras eram tão assustadoras que eu tinha medo de encontrar com ele naquele labirinto de silêncio e ácaros.

Claro que depois de adulto sabia disfarçar bem, mas o medo não me atrapalhava menos. Tudo o que se relacionava à morte me aterrorizava. Conseguia apagar a luz para dormir, isto é, se eu não cismasse com alguma coisa, mas não conseguia parar de pensar que um dia teria que morrer.

Tinha tanto medo, que se tivessem me dado a chance de escolha, não teria nascido, só para não ter que morrer. Mas como tinha nascido, vivia com essa espada terrível sobre a cabeça, esperando o momento em que ela caíria sobre mim e teria que enfrentar o único mal inevitável. “Vivia” não era bem a palavra que definia o passar do meu tempo…Na verdade, o medo de morrer fazia com que eu evitasse tudo. Afinal, qualquer coisa poderia me matar.

Por mim eu ficaria deitado o dia todo, mas tinha medo de um avião cair sobre minha casa. Na rua eu podia ser atropelado, levar um tiro, ou ser atingido por um vaso de cerâmica na cabeça. Me sentia como uma peça de um maldito joguinho. Não tinha como fugir.

Uma noite tive o maior de todos os meus pesadelos. Acordei sobressaltado de madrugada e o que temi desde criança estava acontecendo. Tinha um vulto sentado na pontinha da minha cama. Não lembro se gritei ou paralizei totalmente. Um vulto sentado na minha cama, na penunbra, me olhando dormir. Eu não sei como não morri.

Só me lembro do momento seguinte, quando consegui reagir e gaguejando perguntei:

-Quem é vo- você?!…
-Sou a morte.

Era uma voz forte, grossa, gutural. Não parecia nem feminina, nem masculina. Lembro que ao ouvir a resposta comecei a tremer muito e urinei na cama. Vomitar não vomitei, porque estava de estômago vazio. A vertigem fazia aquela imagem girar e girar, enquanto o ar escapava dos meus pulmões. Em segundos eu estava encharcado e tremia de frio, como se suasse pedrinhas de gelo. Acreditei que fosse mesmo a morte, pois sentia ela me levando.

-Vai… vai… me levar? – não sei quanto tempo depois eu consegui perguntar isso.

A figura só gargalhou. Parecia rir de pena de mim.

-Te levar por que? Você já é meu.
-Como assim? Sou um fantasma?
-É.

Me belisquei bem forte. Acho até que arranquei uma gota de sangue do braço. Mas não acordei. Ou o sono estava muito pesado ou aquilo era pegadinha de alguém. Claro, besta, as pessoas não sabiam o quanto eu tinha medo da morte, mas sabiam que eu tinha. Deviam estar armando para me assustar. Idiota. Me enchi de coragem, por causa da raiva, e levantei, bati a mão no interruptor e quando a luz acendeu quase caí para tras.

Era um monstro horrível. Um corpo parecido com o de humano e um rosto indescritível. Que amigo meu teria tanta criatividade?

-Não sabia que você era tão feia…
-Eu apareço da forma que me imaginam.
-Desculpe… mas você é bem pior do eu imaginava.

Sentei na outra ponta da cama, enrolado no cobertor, como se pudesse me proteger e fiquei em silêncio, já que não sabia rezar. A coisa ficou ali me olhando. Perguntei quando eu tinha morrido e desde quando era um fantasma. Ela me respondeu que eu sempre fora um fantasma. Que nunca fui vivo. Nunca tive coragem de viver, por medo dela. E que ela não podia sair do meu lado porque eu não parava de invocá-la.

-Sabe quando lava o rosto correndo porque parece que tem alguém no box? Estou lá com você todos os dias. Sabe quando vai dormir com a sensação que tem alguém debaixo da cama? Pois tem. E quando acha que está sendo seguido na rua deserta a noite? Também sou eu. E a presença que sente na biblioteca, nos velórios… Estou sempre ao teu lado.

-Porquê?
-Porque você só pensa em mim.
-E agora veio me buscar?
-Não. Vim te dar uma chance.
-Quer jogar xadrez comigo? Fodeu…sou péssimo…
-Não. Vim te dizer para desgrudar de mim e colar na vida.

Olhei para a porta do quarto, para onde ela olhou e vi uma moça muito magra, feia, tímida, com jeito de desnutrida e muito pálida. A vida?

-Sempre imaginei a vida linda e poderosa.

-A tua não é. A tua vida é um fiapo, um arremêdo de vida.

Imagina que passei a noite ouvindo conselhos da morte sobre a minha vida. Ela me daria uma change de transformar aquela coisinha insignificante em uma deslumbrante, irresitível e linda figura. Aceitei o desafio. Claro, não tinha escolha.

Acordei na manhã seguinte assustado. Claro que concluí que foi tudo um sonho. Ri alto. Imagina, a morte me dando lição de moral, como naquele manjadíssimo conto de natal!… Tomei banho de olhos abertos, só por garantia. Tomei café e saí para o trabalho. Sempre ía de ônibus, sentado perto da porta, caso precisasse sair depressa, de cabeça baixa. De repente me deu vontade de caminhar. Voltei para casa, calcei meus tênis, que comprei e nunca tinha usado e fui andando. No começo de cabeça baixa. Mas passei numa banca de revistas, comprei uns fones de ouvido e fucei no celular até conseguir baixar umas músicas. Ergui a cabeça e fui tentando cantarolar e esquecer dos perigos que se escondem no caminho para o trabalho.

Aquele sonho foi mesmo muito real. Tinha me dado um toque. Percebi que era anti social, ranzinza, triste, chato… minha vida era mesmo aquela moça feia e insípida na porta. Decidi mudar umas coisas. Doei minhas roupas todas iguais e comprei umas mais ousadas. Deixei o cabelo e a barba crescerem e comecei a cuidar menos do meu corpo. Aprendi a contar piadas, a fazer sexo, e descobri que não era feito de papel. É, podia nadar, correr, beber, tomar chuva, passar as noites em claro, remar, ter mais amigos, inimigos, ajudar os outros, mudar de profissão, de cidade, brigar pelo que acreditava, chorar, gritar, comemorar.

As pessoas notaram minha mudança. Me elogiavam, diziam que eu devia estar apaixonado. Sim, eu respondia, estou apaixonado pela vida. Meu medo da morte tinha desaparecido. Eu fazia o que tinha que fazer, sem me preocupar com ela. E vivi. Vivi intensamente. Não imaginava que a vida pudesse ser tão boa.

Fui dormir numa noite, muito feliz, e disse em voz alta:

-Consegui, morte. Eu transformei a minha vida numa coisa linda.
-Sim. – ouvi alguém me respondendo. Era uma voz calma, serena, que não me deu medo.

Olhei para a cama e vi uma linda e magnífica mulher sorrindo para mim. Como não me apaixonar? Agarrei-a com força e jurei nunca mais soltá-la. Mas, naquela noite a morte voltou. Estava até menos feia. Me disse que eu tinha vencido o desafio, que agora não tinha mais medo dela. Que havia me apaixonado pela vida e que seria, enfim, divertido me tirar dos braços dela…e sorriu sarcasticamente.

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