Estava cansada de ser morte. Não tinha a menor vocação para lidar com aflições psicológicas, desabafos emocionais, medos humanos. Já havia tido problemas sérios com isso… Repassar trabalho gerava multa no departamento da Passagem.  E morte fora de hora, lhe rendeu penas duras do Setor de Natalidade, causando superpopulação e atolamento e trabalho excessivo aos anjos cegonheiros.

Não entendia o meio termo entre sim e não… A indecisão era algo que a irritava. Trabalhava assim: Chamou, apareceu! Cada frase como: “Ai, quero morrer”. Ela ia lá e fazia seu trabalho. Na era tecnológica então… Cada #morri, ela compartilhava: #partiutrabalho.

Mostrava-se prestativa, mas soava desorganizada e subversiva. Teve muita dificuldade quando, por sua culpa, organizaram as mortes por região. Cada anjo da morte atendia aos nomes que lhe constavam em lista. Ninguém mais podia simplesmente atender aos chamados.  E parecia de propósito, mas sua lista era sempre de pessoas à beira da morte, com espaço de tempo suficiente para contar todas as verdades da vida, fazer todas as declarações e pedidos de desculpas, até mesmo de enxergá-la e ter tempo de avisar os presentes. Que grande tédio virara seu trabalho!

Começou então a se aproximar dos cegonheiros. Aquelas carinhas pacíficas e amorosas não a enganavam. Havia uma questão lógica ali: Fecundou, nasceu! As questões humanas como aborto, problemas no parto… Nada daquilo era responsabilidade desse setor. Havia outros responsáveis pelas ações humanas, hierarquicamente abaixo de sua própria função. O trabalho dos cegonheiros era algo objetivo, claro e… Constrangedor. Eles ficavam o tempo todo acompanhando as transas humanas, só esperando o momento certo de iniciar a produção. Antigamente dependiam dos cupidos, extinto cargo em tempos remotos. Agora, toda escolha estava entre os humanos. E quanto mais se aproximava, quanto mais estudava, mais percebia que os cegonheiros também estavam com os dias contados. Muito em breve, qualquer fecundação e nascimento estariam integralmente nas mãos dos humanos. Não queria nem pensar em perder sua função… A morte era algo certeiro. Algo que os humanos fingiam não existir, negando-a o tempo todo. Não, definitivamente a Morte era seu setor.

Tentou negociar algumas listas. Havia anjos da Morte que adoravam passar um tempo com seu humano, fazê-lo enxergar seus sentimentos blá blá blá. Havia até aqueles que conseguiam reverter o quadro!! Não matava a criatura!!! Era a primeira a levantar esta questão em cada reunião. Era um absurdo! Então, tentando burlar o sistema, parou de levantar determinadas questões e se aproximou destes melodramáticos anjos da morte, ofertando seus humanos indecisos e confusos em troca daqueles que sabiam o que queriam. Queria os suicidas! Ela precisava deles, e, definitivamente eles precisavam dela. A Morte certa! Que atenderia seus clamores sem lenga lenga. Seria como otimizar o trabalho!!

A gerência geral acompanhava de longe seus passos. Chamou-lhe atenção o envolvimento com os cegonheiros, a falta de participação nas reuniões e os avisos dos melodramáticos sobre suas corrupções com as listagens. Autorizaram então, algumas trocas. E ela se deliciou com os rápidos suicídios. Aquilo lhe deu fome de trabalho. Queria mais. Queria uma lista inteira de suicidas objetivos! Não mais comprimidos, cortes horizontais nos punhos, pseudoenforcamentos. Queria saltos de prédios, balas na boca, na têmpora; queria cortes profundos na vertical nos dois punhos!! Estava alucinada!

Foi chamada pela diretoria após um dia cheio. Estava certa do sucesso de seu trabalho, esperava a efetivação dos suicidas só pra ela. Esperava suas listagens prontas, com gratificações significativas. Mas, quando saiu da reunião, seu corpo parou por alguns segundos, tentando entender o que foi aquilo tudo… Logo dois cegonheiros abaixaram-lhe as asas escuras e ela deixou ecoar em sua mente:

– Você deixou de realizar seu trabalho para fuxicar a função dos cegonheiros, foi ao mundo humano sem autorização, trouxe pessoas não autorizadas, mentiu em reuniões, corrompeu a ordem, acelerou processos. Há muita ansiedade em seus fazeres. Pra quê? Aonde quer chegar antes de todos? Há extrema necessidade de compreender e se isentar de tanta ansiedade. Este tipo de sensação não cabe aqui. Em nenhuma seção, aqui.

Tentou inutilmente argumentar, e mostrou-se mais ansiosa. Se percebeu ansiosa… Hesitou.

– Terás que passar por treinamento. Voltarás para o mundo humano amanhã.

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