conto

Sempre imaginei o purgatório como uma espécie de empresa, burocratizada até os ossos, afundada em olhares cansados e gestos mecânicos. Talvez o inferno seja como chão de fábrica, graxa até nos pulmões, máquinas com problemas e braços cortados fora. O céu deve parecer com uma ONG. Daquelas que você trabalha se quiser, contribui com seu tempo ou um bocadinho de dinheiro, e já ficam felizes.

Acho que estou entre o purgatório e o inferno.

Meu trabalho me permite certos luxos, como uma casa de três quartos no bairro nobre da cidade. O portão de entrada está com a pintura lascada, mas isso é preguiça minha, não falta de dinheiro. No mais, tenho até palmeiras importadas de Portugal. Jogo de cama de linho do Egito. Esse linho dá uma sensação gelada na pele, o que me faz acordar frequentemente de madrugada. Quando isso acontece, fico tão grogue que chego a ouvir vozes. No dia seguinte me arrasto ao trabalho com a força de vontade de um saquinho de chá. E quando o dia acaba, a última coisa que quero fazer é voltar para a enorme casa vazia. No caminho que faço a pé, vou sentindo um amarro no começo da garganta, é o desespero assomando meu corpo, e aperto a boca. Meu quarto está gelado e o linho da cama, ainda mais. Não me deito ainda, mato o tempo zapeando pela TV e procurando alguma maneira de dar sentido à vida desgraçada que levo. A morte na verdade nunca me passou pela cabeça. Fui acostumado a lidar com tragédias desde criança: minha mãe morreu de pneumonia e meu pai começou a beber e se drogar cada vez mais, até que um dia o encontrei sentado no chão, com as costas apoiadas na geladeira. Tinha os cabelos arrepiados e muito grandes, barba falha e grisalha. Não fosse o filete de sangue no nariz e a boca rachada, poderia estar dormindo o sono dos justos. Eu liguei para a polícia. Tinha sete anos.

Minha irmã era uma piranha. Dormia com metade da escola, e naquela noite esteve fora com um dos namorados. Quando ficou sabendo do acontecido, voltou para casa, pegou suas coisas e foi morar com o rapaz. Nunca mais a vi e nunca tentou me encontrar. Procurei-a na lista anos mais tarde e soube que mudara de estado com o marido, tinha dois filhos e procurava melhorar de vida. Aposto que nem o pão que o diabo amassou essa coitada tinha pra comer.

Fui morar num orfanato, de onde saí com 18 anos e passei a trabalhar em um mercado. A vida me fez descontente, e de lá até hoje tive mais de 25 empregos. Hoje estou trabalhando há dois anos na mesma empresa, que faz portas de correr. Cuido de toda papelada e do arquivo, e todo dia sinto que o trabalho se faz sozinho, tamanha mecanicidade e estupidez de tudo aquilo. Mas agora não é somente o emprego que me traz infelicidade, é a idade e a vida fria e sem acontecimentos. Como se as surpresas fossem destinadas à juventude e os adultos tivessem de se contentar com a mesmice e a pacatez. O dinheiro que ganhei me ajudou a conquistar uma estabilidade que eu não queria, me deu uma casa grande demais, num bairro família demais, com pessoas sorridentes demais. Nada mais da graça de encontrar baratas no banheiro, dividir um apartamento com quatro pessoas e ter de esperar sua vez pra cozinhar ou tomar banho. A cozinha é toda minha, e tenho uma banheira.

Pensei em me mudar para um lugar mais no submundo da cidade. Mas não acho que faria diferença a essa altura. O problema é mais profundo que isso. E penso todos os dias, o que posso fazer pra mudar minha vida? Pra mudar qualquer merda de coisa?

Acordei suando frio nessa noite. Era madrugada de sábado, não precisaria trabalhar, por isso sentei na cama e fiquei até que o coração disparado se acalmasse e o sono voltasse devagar. Minha cabeça pendeu e, assustado, arregalei os olhos. No meio de tanto sono e da pouca luz, pairava à beira da cama um vulto alto e encapuzado, com olhos que pareciam ter luz própria. O vulto falou, com a mesma voz que eu costumava ouvir nas madrugadas insones:

– Se quiser mudar, já sabe o que fazer…

– Não vou morrer – e dormi.

No amanhecer de sábado, acordei com um gosto a mais pela vida e decidi que do final de semana não passaria a mudança que tanto precisava. E se as coisas acabassem saindo bem, apresentaria minha carta de demissão na próxima segunda-feira. Andei pelas ruas, sorri para desconhecidos, alimentei a caixinha de mendigos e passei a tarde num clube de strippers, onde conheci Joanna e me apaixonei; ela tinha a lingerie mais comportada do local, o que interpretei como um bom sinal. Passei a noite com ela, paguei café na manhã seguinte e deixei gorjeta pelo oral muito bem feito. Ela gostou tanto de mim que anotou meu telefone em uma de suas calcinhas comestíveis e prometeu ligar e me fazer um desconto. No resto do domingo tomei sorvete sozinho na praça e decidi que no dia seguinte largaria tudo e me mudaria, talvez abrisse uma papelaria ou posto de gasolina, onde pagaria pela companhia dos meus empregados. Essa noite a Morte não veio nem trouxe sua foice clichê, e dormi bem apesar do gelado do linho. Fui à empresa na segunda, de chinelos e bermudas, joguei minha carta na mesa do chefe e virei as costas. Não voltaria nem pelo cheque de rescisão, tinha afinal mais dinheiro do que gostaria.

Demorei duas semanas para empacotar tudo e finalizar minha vida naquela cidade. Após esse tempo, mudei a 726 quilômetros dali e respirei aliviado ao entrar com meu carro no estacionamento do hotel onde ficaria por alguns dias, até me arranjar. Achei um apartamentinho confortável e razoável e uma mulher que eu tinha vontade de gostar. Consegui também um estabelecimento digno para cuidar e após dois meses já nem me lembrava de qualquer passado. Estava feliz.

Ele, porém, veio comigo, e esteve à espreita todo o tempo. Numa bela noite de verão, saboreava uma cerveja direto da lata na varanda da minha casa suja, quando recebo uma ligação de Joanna. Havia quase esquecido dela…

E não limpei a cerveja do chão, joguei a lata na parede da sala, onde ela quicou e derrubou a precária caixa de som. Peguei o carro e me preparei para as quase oito horas de viagem. As mãos tremiam e mal conseguia piscar, só deixava de segurar o volante para enxugar a testa e a nuca suadas. Não tive sono ou fome ou cansaço. Cheguei pouco antes do amanhecer e encostei na casinha modesta de Joanna. Ela abriu a porta dos fundos e veio, segurando a barriga, a desgraçada, como se tivesse algo mesmo a exibir. E me disse que na verdade tinha 17 anos e o pai lhe obrigaria a casar. E que era pra eu falar baixo antes que ele acordasse e viesse me confrontar. Ri louco, as mãos na cintura, mexendo os pés como numa dança frenética. Não podia gritar, mas não podia permitir que a menina me roubasse a felicidade que nunca tivera até me mudar pra longe daquela cidade. Minhas mãos formigavam, o cérebro ansiava por ação e num ímpeto, com Joanna tão pertinho de mim, estendi o braço rapidamente de encontro à sua barriga querendo aparecer. E soquei de novo, e de novo e ela perdeu o fôlego quando acertei seu estômago e não pôde gritar nem chamar o pai ou quem quer que fosse. Quando ela caiu no chão, aninhou-se em posição fetal e chorou baixinho. Entrei no carro, mas não fui embora imediatamente. Abri meu celular, tirei o chip, amassei-o e joguei na calçada. Antes de dar partida, pensei ter visto um vulto encapuzado ao lado do corpo inerte de Joanna. Ele parecia sorrir e embalava uma criança invisível em seus braços. Saí com o carro e, oito horas depois, entrava na minha creche. Era dia de trabalho, afinal.

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