Disponível em: http://quemsera.files.wordpress.com/2013/11/o-mito-de-sc3adsifo1.jpg
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Eu tive um pesadelo ontem à noite.

Estava chegando ao topo de uma montanha, empurrando uma rocha até o cume, enfrentando gelo, fome e ventos. Daí, ela caía e eu tinha que descer tudo até a achar em meio às ruínas. Então eu começava a empurrar a pedra de volta ao cume.

Eu fazia isso há muito, muito tempo.  Os dias haviam dissolvido as minhas roupas, e a noite havia roído minha carne.  O mundo ao redor da rocha tinha desabrochado e secado como uma flor, deixando para trás apenas poeira e um céu ácido e prismático. Apenas a montanha e a rocha permaneciam, e mesmo elas haviam sido mutiladas. Meus pés esculpiram uma escada na rocha um passo de cada vez, e minhas mãos reduziram uma gloriosa rocha a uma esfera quase perfeita.

Eu estava orgulhoso disso, por algum motivo. A rocha não era mais uma obra perfeita do insondável deus do acaso e das estrelas mortas, era uma coisa tosca forçada a se adequar à loucura das ideias.

Mas eu não queria estar lá. Eu queria estar em qualquer outro lugar, ou ser qualquer outra coisa. A rocha e a montanha sofriam, mas eu sofria mais que as duas juntas. A rocha e a montanha eram forçadas a caminharem rumo a uma destruição certa. Eu andava em círculos por minha própria culpa.

Os dias se juntavam em semanas, as semanas se reuniam em meses, os meses se enlaçavam em anos e os anos se perdiam no infinito. Não me importava. O tempo não era meu inimigo ali. A eternidade era.

Então eu parei.

Não houve nenhum planejamento, nem premeditação e muito menos pensamento da minha parte. Parei. Parei de forma tão inflexível quanto a força que fez a rocha-mutilada-em-bola rolar montanha abaixou de uma forma diferente das últimas bilhões de vezes.

O orgulho deu lugar a um sentimento mais doce e frenético e terrível. O topo da montanha explodiu em uma gargalhada de lava. A um olho enorme e uma boca repleta de agulhas  e escárnio brotaram da pedra. O sol e lua os acompanharam, até que um Pug apareceu e devorou as duas. O que sobrou do céu foi capturado em uma rede de raios, o envolvendo até que uma grande ferida se abriu nele.

Sim, uma ferida. Enorme, podre e pulsante. E no meio dela, um vulto com um leve ar de entediado segurando um bebê.  A criança olhou nos meus olhos, na minha alma, e disse, em um tom mais grosso que o de um caminhoneiro.

– Pare de ficar fazendo bunda mole e volte para o trabalho logo, cacete.

Eu acordei gritando, mas não foi pelo pesadelo. Foi dor nas costas mesmo. Eu ainda estava exausto. Tinha acabado de viajar mais de setecentos quilômetros. A causa era nobre, mas na adiantava dizer isso aos meus ossos pulverizados.

O quarto que eu havia alugado também não ajudava em nada. O lugar era tão deprimente que nem barata tinha.  Não vou negar que o hotel não tinha certa beleza… Uma beleza bruta, daquelas que só se acha nos formulários absurdamente complexos de repartições públicas.  O quarto era absurdamente apertado, e desalmado. Um cheiro de plástico permeava o lugar e tudo – até os travesseiros – eram pagos.  No todo, aquele lugar parecia ter sido pensado não para pessoas, mas sim para robôs, alienígenas ou executivos.

Fiquei feliz em fazer as malas. Bem, mala. Mochila, na verdade.  Felizmente, como eu me conformei em usar o meu braço como travesseiro e fiquei longe do frigobar, a conta saiu bem barata.

Eu deixei o carro em um estacionamento genérico e andei até um lugar que parecia não ter câmeras ou xeretas. Pus minha fantasia, minha maquiagem, guardei minha arma e fui até meu objetivo – uma papelaria no centro da cidade.

Enquanto caminhava até a oficina dele, me lembro de um fábula sobre um homem simples, simples demais até para próprio bem, que chegou no céu após uma vida de negação no deserto. O problema é que o paraíso não tem nada a oferecer ao homem que rejeitou os prazeres do corpo, mente e alma em vida. Os deleites celestiais lhe parecem errados, os debates e obras dos mortos lhe entediavam e a teologia dos anjos era incompreensível.  O céu estava se tornando uma tortura para ele. Então, na falta de uma ideia melhor, os anjos criaram um deserto ilusório para que o homem pudesse passar a eternidade na única paz que ele sabe saborear.

Mas estou divagando.

– Calma aí, amigo. – Disse o dono da loja, com as mãos para cima.

– Eu não sou seu amigo – disse , apontando o revólver para ele. – Eu sei quem você é.

As minhas palavras os deixaram mais pálidos do que minha arma.

– Nã-ão a-acreditem em uma pa-palavra que e-esse louco disser – disse ele, se virando para os funcionários rendidos no canto da loja.

Eu sorri.

– Sabe que eu sou?  Sou um amigo de um amigo de uma amiga sua. Sou um cara que faz caras como você pagar pelas merdas que fez.

– Você vai me matar?

– Não. Seria honroso demais.

Em um movimento, baixo a pistola e atiro. Ele vai ao chão se espernando de dor enquanto a mancha vermelha se espalha pela sua calça.

Deixo um pilha de panfletos explicando a passado daquele infeliz e vou andando para longe.

Tudo dá certo. O caráter pitoresco da coisa toda atrai repórteres como moscas, e meu alvo – e os pecados dele – viram notícia na cidade. Como eu limpei bem meus rastros – eu sempre limpo – ninguém vai atrás de mim.

Talvez eu esteja destinado a fazer a mesma coisa para sempre, mas enquanto eu conseguir dar sentido a isso, não vai ser tão ruim…

 

 

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