Acordou assustada. Ofegante, procurou pela luz e, na busca, lembrou que não deveria acordar o irmão mais velho. Controlou a respiração de olhos abertos, pegou o celular e apertou um botão qualquer, sob o travesseiro. Eram 3h47. O irmão deveria acordar em uma hora, para ir trabalhar. Não queria voltar a dormir… Aquela sensação… Aquele urso imenso pesando sobre seu corpo, como unhas grossas segurando seus braços e a respiração quente em seu ouvido ainda estavam presentes.

Pensou em levantar e fazer o café, assim sua mãe dormiria mais um pouco. Levantou devagar, quase sem encostar no irmão, que dividia com ela uma cama de solteiro. Atrás do lençol, esticado como uma cortina em frente da cama, preso em arames e pregos, ouviu a mãe se mexer e o resmungo da irmã mais nova. Apesar do breu, já ouvia o movimento das casas ao lado. Uma das luzes vizinhas se acendeu, e a permitiu encontrar os chinelos no chão de cimento batido. Com a luz do celular na mão, foi ao outro cômodo fazer café.

A cozinha dividia o espaço com outra cama, usada como sofá a meio metro do fogão. O sofá agora estava vazio. Acendeu a luz, pegou água da torneira e colocou no fogo. Se apoiou na pia e lembrou do corpo pesado que ainda ontem dormia no sofá, do ronco e o odor de cachaça que ocupavam todo barraco. Onde ele estaria agora?

Seus pensamentos foram interrompidos pela voz rouca da mãe:

– Já tá acordada?

– Tive um pesadelo. Não quero mais dormir …

– Que pesadelo?

Ela não respondeu. A mãe vestiu uma blusa vermelha que estava no sofá e ligou a televisão.

– Não tem pão?

– Tem bolacha que o Adeílton trouxe ontem, do trabalho.

No jornal, o anúncio da greve de ônibus preocupou a mãe. Adeílton grita do outro cômodo:

– Então não vou trabalhar hoje! – Espreguiçando-se.

– Ah mas vai, nem que seja a pé!

– Mãe … – tentou ela

– E anda logo se não ´cê atrasa!

– Tem café? – Gritou do quarto

– Não tá sentindo o cheiro? Sua irmã fez.

– Mãe … tentou ela de novo.

– Argh! O café dela é ruim! – Provocando a irmã.

– Não grita que a Ketlyn tá dormindo!

A mãe foi ao banheiro. Adeílton aparece e bagunça o cabelo da irmã.

– Bom Dia!

– Pára … Bom dia!

– Tem pão?

– Não … Tem a bolacha que ‘cê trouxe ontem …

Silêncio. Adeilton pega um copo no armário sem porta e se serve.

– Não vai tomá? O que ‘cê tem?

– Tive um pesadelo … – encarando o sofá, com os olhos fixos.

– Com ele?

– Com o urso.

– De novo? Que será?

A mãe volta e Adeílton entra no banheiro.

– Mãe?

– Quê?

– Onde tá o pai?

– Sei não …

– Ele Volta?

– Sei não …

– Mãe … Por que ele ta dormino no sofá?

– Porque sim!

– Mas ele cabe na cama. Mesmo com a Ketlyn, no meio. Ela é novinha …

– Pára de perguntar! Ele dorme no sofá o porque é melhor assim. Ele chega bêbado, acorda todo mundo …

Adeílton saiu do banheiro, voltou para o quarto e apareceu vestido para trabalhar. Pegou umas bolachas, beijou a testa da mãe, bagunçou o cabela da irmã e saiu.

– Tô ino! Até a noite!

– E você vai se vestir praí pra escola … – Disse a mãe pra menina, enquanto se aconchegava no sofá.

Ela se serviu de café no copo do irmão e foi tomar na porta de entrada. O Sol já clareava alguns pontos da favela, mas ainda não afastava o frio. Bateu o sono de novo, mas era fechar os olhos e aquela sensação terrível voltava. O bafo, como unhas segurando-lhe o braço, os pelos … De onde vinha este urso? Voltou pra dentro:

– Mãe,’cê me leva hoje?

– Não posso menina! Como vou deixar um Ketlyn aqui, sozinha? Ou ‘cê qué que eu saia com ela nesse frio?

A menina foi tomar banho. A escola não era longe, e poderia encontrar algumas colegas pelo caminho até a avenida. A mãe, sozinha no sofá reclamou como num cochicho:

– Volta pra vê, aquele fio da puta! Vai encosta na minha Ketlyn pra vê…

Enquanto se olhava no espelho de moldura laranja, ouviu os resmungos da mãe, sem compreender a queixa. Apertou os olhos e trouxe o urso para a memória … Trazia agora o bafo quente, com odor de cachaça. Não sentia falta do pai, mas não gostava de não saber onde estava, se voltaria … Se voltaria a pesar-lhe sobre o corpo, agarrar-lhe pelos braços e machucar seu corpo, sob o choro silencioso da mãe.

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