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   Nunca esqueceria aqueles olhos azuis.

   A primeira vez que os vi, estava saindo da casa para dar bom dia a papai, que tomou seu desjejum antes de mim naquela manhã. Ele estava junto à senzala conversando com umas pessoas maltrapilhas. Eram brancas mas tinham trajes sujos e olhares suplicantes como os dos negros. Ainda da escada vi o corpo raquítico e magro que sustentava um rosto sujo de onde saltava o mais suplicante deles, um par de súplicas azuis. Quando me aproximei olhavam para o rosto de papai como ao de um Deus, e desviaram em seguida à mim, como a uma aparição sobrenatural. O que me encheu de asco.

  Como odiei aqueles olhos assim que os vi. Todo o resto daquele corpo me causava cólera e desprezo. Inspecionei a ralé que a acompanhava e presumi que seriam os novos serviçais que a Europa estava despejando sobre nós. Fediam tanto quanto os negros. Mas não aparentavam capacidade para a lida no campo que os aguardava. E ainda exigiriam pagamento. Eu sabia como papai estava furioso com essa imposição e me enfurecia também.

  Como se os negros e sua indolência já não nos causassem tantos prejuízos. Aquelas peles brancas poderiam bem presumir que poderiam ser como as nossas e não se colocarem em seus lugares. A dona dos olhos azuis já parecia pensar que podia me olhar de igual para igual. E que podia olhar para papai como eu. A cada segundo que permanecia absorvida pelas palavras dele, olhando seu rosto, sua barba, suas mãos, minha cólera crescia e me impulsionava a jogá-la dentro do tacho de sabão que a negra mexia logo atras de nós. Imaginei sorrindo seus lindos olhos derretendo na calda fumegante e seu corpo franzino em cubos sendo esfregado nos corpos pretos e sujos no açude.

  A fazenda foi ficando livre da negraiada mas fervilhava de brutos seres horrendos e espectrais com sua língua popularesca  e seus gestos rudes. A menina dos olhos azuis não só parecia um fantasma pelo seu aspecto desnutrido mas também e sobretudo pelo seu modo de olhar. Como se quisesse impor a cor de seus olhos como entrada ao mundo dos vivos. Cada vez que eles me trespassavam eu sentia desejo de trespassa- los com um punhal.

 Até o dia em que a vi conversando com papai só sentia vontade. A partir daquele momento tornou-se claro para mim que era preciso. Como foi preciso cada negrinha que eu amarrei, cortei e queimei seus botõezinhos ainda latejando por papai. Elas poderiam voltar a se entregar a ele, mas não poderiam mais sentir. Com ela deveria ser mais enérgica. Aqueles olhos azuis poderiam até estar debaixo dele mas nada veriam de sua beleza.

  Assim que papai se afastou, depois de acariciá-la atrás da figueira e ela fingir que não gostara, eu a chamei com um sinal. Entramos no galpão abandonado. Ela atras de mim como um cão. Queria me convencer que sentia medo. Eu sabia bem que sentia era vontade de se entregar a ele e que fingia medo para que ele a desejasse mais. Conhecia já esse número.  Amarrei-a na pilastra, no fundo, onde entrava pouca luz pelas frestas, iluminando a poeira fina que levantava quando movia meu vestido.

  As negrinhas não choravam tanto. Ela gritava e se debatia como um animal sem honra. Arranquei-lhe a roupa num único rasgo, tão podre era o tecido. Deixei-a ali amarrada com os braços para cima e nua por uma duas horas. Seus gritos eram bálsamo para meus ouvidos. Queria que eles perdurassem por dias a ecoar em minha mente, para que eu não conseguisse imaginar outro tipo de som saindo de sua boca quando estivesse com papai.

 Seu corpo era magro, pequeno, branco demais. Ainda não tinha curvas de mulher. Mas já exalava cheiro de fêmea. Como odiei ver o que ela poderia dar a ele. Como odiei nela o que já não tinha mais em mim, o frescor, a novidade para ele…Devia ter cinco ou seis anos menos que eu, mas eu queria arrancar dela, com as unhas, tudo o que não podia arrancar do tempo. Queria o tempo dela em mim.

 Tirei dela, naquela tarde,  tudo o que não podia devolver a mim. Entreguei seu corpo trêmulo a um dos negros que ainda vagavam pela fazenda, que tinha três vezes o seu tamanho, como se entrega um osso a um cão vadio. Fiquei assistindo. Depois peguei o punhal e ordenei que se calasse se nao quisesse ficar sem a língua também. Mas depois de um corte sob o olho direito o capataz entrou no galpão e quebrou todo o encanto. Deixei-a com os olhos afinal, mas nada mais os faria brilhar novamente.

Nunca mais a vi. Soube por alto que haviam desaparecido. Ela e toda a família. Papai deu o assunto por encerrado. E eu tive dias tranquilos ao lado dele. Sem as negrinhas e sem aquela ameaça azul, nada mais tirava minha paz. Vivemos muitos anos na fazenda ainda. Cuidei dele até seus últimos dias. O servi e amei com total devoção até seu último suspiro, que deu em meus braços.

Passaram-se muitos anos depois da morte de papai. Hoje sou uma velha, que a morte esqueceu. Vivo numa casa modesta na cidade. Duas primas solteironas vieram morar comigo depois que parei de andar e mal posso me mover. Falo com dificuldade e meu alento são recordações de papai e meu diário, onde, com muito esforço de meus dedos enrijecidos ainda escrevo meus pensamentos, como única forma de comunicação. Me comunico com meu passado, com minhas memórias, com o que fui. Nada tenho a dizer às pessoas que me cercam. E elas nada têm a me dizer tampouco. Cuidam de mim por puro espírito cristão, o que faz com que meu desprezo por elas aumente. Eu não cuidaria de ninguém que não fosse papai, só para merecer ir para o céu. Dane-se o céu. Dane-se essa vida sem papai. Danem-se todos.

Agora resolveram viajar. Devem estar cansadas de cuidar de uma velha inválida e nem têm coragem de dizer, de me odiar. Preferem, ao invés disso, inventar uma viagem ao interior. Mas vieram me consolar dizendo que não ficarei sozinha. Grande merda. Queria que todos morressem. Contrataram alguém para cuidar de mim, outra imbecil como vocês, pensei. Abri os olhos de manhã e já me apresentavam a nova serviçal. Era uma mulher que aparentava bem mais idade do que realmente tinha. Com traços fortes, marcas de sol e um semblante que parecia sem alma. Olhou para mim com o rosto reclinado sobre minha cama e abriu um sorriso triste e seco. Minhas primas se despediram. Senti um arrepio na espinha. Eram olhos azuis. Tentei gesticular e gritar para as duas que saíam pela porta do quarto. Mas elas não perceberam. Eram aqueles olhos azuis.

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